alta cultura e alto consumo

‘Os colegas acadêmicos de Eric Voegelin notavam muitas das suas excentricidades. Por exemplo: eles notavam que o Voegelin, o homem mais culto que eles conheciam, não tinha nenhum refinamento em matéria de vestimenta ou de gastronomia. Em vez de jantar num bom restaurante, o Voegelin entrava no primeiro botequim da esquina e jantava qualquer coisa; se fumava um charuto, ao invés de fumar um charuto cubano, fumava um mata-rato alemão. Então era algo chocante, pois o Voegelin aparecia para os seus colegas acadêmicos como um aristocrata intelectual com gostos de proletário. Mas o Voegelin não tinha gostos de proletário, ele apenas não dava a mais mínima importância a essas questões de refinamento.

Mas notem que no ambiente universitário brasileiro um tipo excêntrico como o Voegelin não seria sequer tolerado, pois aqui a identificação entre alta cultura e alto consumo é inerente. Tanto que o simples alto consumo é tomado como sinônimo de alta cultura. No dia em que o nosso presidente Lula aprendeu a fumar charutos caros e a vestir ternos Armani, todo mundo o considerou como um homem culto, pois há uma impregnação de uma ideia na outra. Sendo assim, entende-se que um homem culto também deve ser versado em bons vinhos, no melhor da culinária francesa etc etc. Claro que esta é uma concepção deveras mundana do que seja a alta cultura. Nesta concepção, a alta cultura seria um bem de consumo reservado a certas elites financeiras, no fim das contas. Evidente que este é apenas um conceito de alta cultura que só funciona num meio que acredita nele, pois na prática ele é insustentável. Notemos que toda a alta cultura brasileira foi realizada por pobretões: Machado de Assis, Capistrano de Abreu, Castro Alves, Gonçalves Dias, Lima Barreto etc. Quase todos eles eram uns pobretões e mesmo assim fizeram a nossa alta cultura. E é curioso que esta alta cultura, no instante seguinte, seja considerada tanto pelos ricos, quanto
pelos pobres, como um produto de alto consumo reservado para as elites.

Naturalmente, esse produto de alto consumo, na medida em que é cobiçado como se cobiça um carro importado, um iate, um terno Armani etc, torna-se também um motivo de humilhação para os que não o têm. Logo, ele como tal, passa a ser odiado. Então, a alta cultura, entendida como um mero produto de alto consumo, torna-se um símbolo de inferioridade para quem não a possui. Sendo assim, como o sujeito que não a possui faz para se auto-afirmar? De duas maneiras: ou ele adquire alta cultura, tornando-se igual aos que a possuem; ou ele a desmoraliza, a combate, e toma a si mesmo como algo mais elevado do que a alta cultura. Assim, juntamente com os carros importados e os ternos Armani que o sujeito não possui, ele também rejeita a alta cultura, pois ela é considerada como um odioso símbolo de discriminação social. Esta motivação esteve muitíssimo presente na eleição do senhor Luís Inácio para a presidência da república. Muitos de seus eleitores pensaram assim: ‘Temos que votar num indubitável semi-analfabeto para que nos libertemos deste sentimento humilhante de sermos inferiores’. Então é óbvio que há uma confusão mórbida entre o consumo de bens materiais e a aquisição de cultura. É uma confusão doente e as pessoas se livram dela mediante um expediente igualmente doente.

É claro que isto também está totalmente presente nas legitimações letradas da cultura inferior. Isto é, quando aparece algum professor universitário afirmando que a legítima cultura brasileira digna de atenção é o carnaval, o samba, o futebol etc, ele está reforçando exatamente a tendência nacional ao desprezo da verdadeira alta cultura. O professor em questão, embora seja um indivíduo que teve acesso à alta cultura, ele, de algum modo, sente que não a tem efetivamente, porque a sua absorção foi superficial e não se integrou à sua personalidade. Sendo assim, a alta cultura persiste para ele como um símbolo externo de um bem que não lhe é acessível. O homem que teve acesso à alta cultura, mas que não a integrou em sua personalidade, mantém a impressão de que a alta cultura é um bem externo do qual ele está injustamente privado, passando a odiá-la por isso. Neste contexto, só restaria a sua aquisição ou a sua destruição, e a destruição sistemática da alta cultura é empreendida por muitos acadêmicos brasileiros”.

(Olavo de Carvalho – Seminário de Filosofia 30/11/2002)

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Experimenta isto.

“O mundo está cheio de coisas grandiosas e maravilhosas onde tem um sinal de Deus, um sinal da eternidade marcado na história. Aproxime-se disso, absorva isso. Não vá só pelo gosto: ‘Ah, eu gosto disso, eu gosto de ouvir Bach!’… Pare com esse negócio! Se você vai só pelo que você gosta, você vai gostar sempre da mesma coisa e vai entrar no repetitivo. Não se trata do gostar, mas do absorver e do compreender. Leia a vida dos santos, mas não venha com negócio de carolice para cima de mim, porque as pessoas lêem um pouco disso e já começam a falar em linguagem evangélica ou então abrem a boca e parece que é Santo Tomás de Aquino que está falando. Isso tudo é imitação grosseira. Você tem de imitar o fundo.
Faça o seguinte teste: experimente ser bom, ser muito bom, generoso, perdoar sempre as pessoas, sempre, por dentro e por fora. Já tentou isso alguma vez?
Ou faça outro experimento mental: diga ‘de agora pra diante, tudo que me acontecer é culpa minha; não vou culpar mais ninguém’. Isso não é bem verdade, mas é uma disciplina.
Quando você se irritar por pequena coisa, engula, fique quieto e faça de conta que não aconteceu, porque não tem coisa mais deprimente e mais prejudicial do que você se irritar por pequenas coisas. Por exemplo, com crianças.
A criança derruba um prato, você fica louco da vida. Por quê? É pecado derrubar o prato? A criança cagou na fralda na hora que você estava pensando em outra coisa. É pecado? Ela fez alguma coisa moralmente errada? Mesmo se fosse moralmente errada não é para você condenar. ‘Ah, aquilo me incomodou’. Mas é pecado incomodar você? Quem é você?
Não é pecado incomodar o Olavo, não é pecado encher o saco do Olavo, então por que eu vou ficar bravo com essas coisas?
Pense assim: de agora em diante eu só ficarei bravo com aquilo que ofender o Nosso Senhor Jesus Cristo ou a Nossa Senhora ou o Espírito Santo. Se ofender só a mim, ‘me ne frega’.
Experimenta isto.
Daí você vai ver que, mesmo se você esteja no Brasil, sem ocasião de sair daí, você já vai se elevar acima da sociedade.
Claro que você vai sofrer e as pessoas não vão te entender, mas e daí? Qual é o problema de não te entenderem? Quem jamais foi incompreendido neste mundo?
Acredite que existe a verdadeira bondade, que existe a santidade, que existe o heroísmo, acredite nessas coisas porque elas existem mesmo.
Agora, na sociedade brasileira elas não fazem parte, a mesquinharia é obrigatória — é disto que você tem que se livrar, não é tanto do país.”

— Olavo de Carvalho, fragmento da aula 170 do Curso Online de Filosofia.

Religião

A religião existe para revelar aos homens um OUTRO mundo, infinitamente maior e mais real do que este. A moral existe apenas para ensiná-los a comportar-se bem NESTE mundo pequeno e transitório. Desde que Kant inverteu as proporções, fazendo da moral a base da religião em vez do oposto, aconteceu o inevitável: as pessoas não só passaram a pensar exclusivamente neste mundo, mas a acreditar que só ele existe.

O amor

O amor não é um sentimento, é um modo de ser. É um juramento interior de defender o ser amado até à morte, mesmo quando ele peca gravemente contra você. O amor é mesmo, como dizia Jesus, morrer pelo ser amado. Quando a gente espera que o amor torne a nossa vida mais agradável, em vez de sacrificar a vida por ele, a gente fica sem o amor e sem a vida. O amor é o mais temivel dos desafios, porém, quando você o conhece, não quer outra coisa nunca mais.

Florescimento intelectual

Meu amigo Jefferson Bombachim lembrou-nos de uma lição que o professor Olavo nos deu. Dou tanta importância a isso que tento promover encontros de amigos e alunos inteligentes em cada canto do Brasil onde piso. Leiam:

Trecho da aula 59 do COF:

“Isso quer dizer que a qualidade da formação intelectual não tem nada a ver com o que eu estou falando aqui. Se ela é adquirida no meio acadêmico apenas, você só tem intercâmbio profissional. O círculo pessoal de intelectuais ― que são amigos, que se conhecem, e que podem trocar experiências em profundidade ― esse é o verdadeiro campo de aprendizado. Não é a escola. Não é a universidade.

Eu contei a vocês que, quando eu dava aula no Rio de Janeiro, nós bolamos uma série de entrevistas com intelectuais brasileiros que tinham aparecido na década de 30 ― a década de 30 e 40 foram as mais brilhantes da cultura brasileira. E a pergunta era “onde vocês aprenderam?” E a resposta, de todos, foi esta: “nos encontros pessoais”. Não foi na universidade. Mesmo aqueles que tinham estudado no exterior, nas melhores universidades, não foi ali que aprenderam. Isto quer dizer que o encontro é a circunstância básica. Depois, investigando mais a história, eu vi que foi isso que aconteceu, por exemplo, entre os escolásticos; aconteceu na Áustria, no começo do século; isto aconteceu na época do romantismo alemão. Em vários momentos, onde teve um florescimento intelectual extraordinário, foi entre grupos de pessoas que se conheciam e que, às vezes, tinham até mais do que amizade: tinha até parentesco, um casava com a irmã do outro, coisas assim.”

Pais e Filhos

“Governe-se a si mesmo com sabedoria, dosando habilmente severidade e tolerância, e suas crianças acabarão seguindo você como uma orquestra segue o maestro.”

“A ÚNICA emoção que você deve passar aos seus filhos é a do amor. As outras, guarde para si mesmo e aja sempre com a razão. Seu filho deve ver em você um princípio organizador do caos da existência e não o gerador do caos no coraçãozinho dele.”

“Se os pais corrompem os filhos, estes nunca mais vão honrá-los. E a maioria os corrompe é na tentativa de educá-los. Tapas e gritos só ensinam a dar tapas e a gritar. Pior ainda se são entremeados de pedidos de desculpas e tentativas canhestras de conquistar o amor dos filhos. Se você usa o sujeitinho como recipiente do seu mal-estar interior, não peça que ele o ame.

“A única norma a seguir é a da Bíblia: Não atormente os seus filhos. Você pode castigá-los, mas só quando eles já estão crescidinhos o bastante para assimilar o castigo com a razão e não com as emoções.”

“Descarregar emoções ruins em cima dos filhos, a pretexto de educá-los ou de simplesmente aliviar o saco, é semear encrencas por muitos anos à frente.”

“Torre o saco do seu filho por cinco anos e ele torrará o seu pelo resto da vida.”

“O cinema americano está repleto de pirralhos metidos passando pito nos pais. Quem os ensinou? Os pais.”

“No começo eu pensava que a obrigação de um pai era educar os filhos. Que cagada! Eles se educam a si mesmos imitando o pai.”

Ideologia

O estudo de uma ideologia torna-se apenas uma tagarelice oca quando separado da investigação dos meios jurídicos, tecnológicos, pedagógicos, policiais e midiáticos postos em ação para realizá-lo. A rigor, é só na ação efetiva desses meios que a ideologia revela o seu verdadeiro sentido. Se ideologia é um “vestido de idéias”, os meios de realização são o corpo que ela encobre.

Senso da ordem interior

Mas é justamente nos momentos decisivos da vida, nas horas de crise e perplexidade, que Platão e Aristóteles (e, pairando acima deles, o espírito de Sócrates) vêm em nosso socorro, infundindo-nos o senso da ordem interior da alma, que fará de cada um de nós, não um profissional acadêmico, mas um spoudaios, um homem verdadeiramente adulto, humanamente desenvolvido até o extremo limite dos seus poderes cognitivos, capaz de perceber a realidade e tomar decisões desde o centro e o topo da sua consciência, e não desde as paixões de um momento, desde um oportunismo profissional, desde o temor do julgamento dos pares ou desde algum preconceito da moda.

Agir sempre com o coração na mão.

— Olavo de Carvalho, Hangout Filosofia e Política: Olavo de Carvalho e Hermes Nery, 7.8.2014

“Mil vezes na vida eu passei pela situação onde eu perdia tudo, não sobrava nada, nada, nada. E sobrava somente uma coisa: sobrava Deus, sobrava esperança do perdão dos meus pecados e esperança na vida eterna. É só isso que eu tinha. E é só isso que eu tenho. Eu não tenho mais nada. Eu posso morrer agora mesmo e não estou nem ligando. Eu só quero uma coisa: eu quero que Deus me perdoe os meus pecados e me leve para perto d’Ele. É só isso que eu quero.

O resto não existe. O resto tudo vai passar, não é isso? Tem gente que nasce sabendo, que entende isso por sabedoria infusa. Tem outros que só aprendem na base do sofrimento, que foi o meu caso. Então, a gente vê as pessoas nesse erro, nesse caos e fica com dó. Não fico com raiva desses caras, eu fico com dó porque eu sei o que vai acontecer com eles. Eu sei que eles se vão desfazer em pó. E a gente não quer que isso aconteça para ninguém, nem pró pior inimigo.

Então é isso: a gente tem que agir sempre com o coração na mão. E só quem experimentou o sofrimento profundo, a perda de tudo, às vezes entende isso. A não ser que você nasça santo, o que não é o meu caso.

A minha vida foi uma sequência de erros medonhos. Mas eu fazia os erros e a resposta vinha, às vezes, triplicada, dez vezes pior. Então, nós não temos controle nenhum na nossa vida. A nossa vida só tem um sentido: nós estamos todos indo para a morte e para o confronto com Deus. Este é o ponto. É só isso que vai acontecer. O resto não vai acontecer. O resto é ilusão. Mas isto é fatal que aconteça. Então, quando chegar lá…o que eu quero é chegar lá e mostrar a minha santidade? – “olha Deus, como eu sou lindo”. Que nada! Eu estou chegando aqui todo sujo, todo arrebentado. Eu vi um filme, uma sequência de um filme maravilhoso. O cara pastor vai entrevistar, falar com um moribundo no hospital. Ele pergunta ao moribundo – “Você se arrepende de alguma coisa?”. Ele diz: “De tudo!” [gargalhadas do Olavo]

Essa é que é a verdade. Eu só tenho porcaria, miséria, vergonha, fracasso. É só isso que eu tenho. Agora, tenho uma coisa que os outros não têm: a gente tem Jesus. E Ele vai nos tirar do buraco. É isso que nós devemos transmitir.”