O idiota útil

Como a arte de rastrear a origem dos próprios pensamentos é apanágio de poucos, a maioria acredita que suas opiniões são livres, pelo simples fato de que não sabe de onde vieram. O idiota útil, por definição, é idiota demais para saber que é útil e quem o utiliza. Cada um imagina que julga desde as alturas de uma superior autonomia de pensamento justamente quando repete os chavões mais vulgares e mais surrados.

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Formas de felicidade

“São duas as formas de felicidade: uma é egoísta, narcisista; a outra é altruísta, própria do adulto.
Há uma frase linda que diz: ‘Ser sincero é morrer um pouco’. Toda vez que você é sincero, que você fala a verdade, morre em você mais uma ilusão. E você apenas suportará as mortes de suas ilusões se você conseguir uma outra satisfação, num outro plano, que é a satisfação do amor ao próximo, do amor a Deus. Somente assim você irá reconquistando no plano da universalidade a felicidade a que você tem acesso no plano do egoísmo individual. Isso é a raiz da vida humana. O homem foi feito para isso.
Por isso eu fico aborrecido com pessoas adultas que buscam satisfações de adolescentes, lambendo o próprio ego, dizendo: ‘Eu quero isso!’, ‘Eu preciso disso!’. Você não precisa de nada! Você precisa é de serviço, de encargo, de responsabilidade, de amor ao próximo para aprender a viver. Quando eu vejo um sujeito dizendo que precisa de determinada roupa, de determinada comidinha, empreguinho, namoradinha, carrinho, tudo isso apenas para ele não ficar tristinho, eu acho isso asqueroso! Você tem de buscar a realização de um supremo valor que torna a vida humana valiosa, independentemente de assim ir para cima ou para a morte. Nesse ponto, o sacrifício é o único sentido da vida humana. Sacrifício é uma obra sacra, sagrada.
O sacrifício é nesta direção, a direção de largar o mundo da ilusão egoísta, o mundo da auto-proteção que é bom apenas para as crianças, e encontrar satisfação em algo que transcenda a tua pessoa, que pode ser o benefício da humanidade ou mesmo de uma família. O homem que se sacrifica pela sua família já é um ser humano evoluído.
Para que um indivíduo viva uma vida de auto-satisfação é necessário que o protejam de suas fantasias infantis. O teste é o seguinte: retire o sujeito de dentro desse universo protegido, e deixe-o sozinho numa determinada situação, e você verá que ele é menos que um bebê. O homem tem de estar preparado para saber que ele, individualmente, não pode ser nada. Ele só é alguém em função do valor pelo qual ele se dedica, pelo qual ele arriscaria a sua vida. Curiosamente, a negação da individualidade é condição essencial para a valorização da mesma. O indivíduo que morre por um bem universal encarna esse universal. Só isso pode ser o fundamento da ética ou da moral, o resto é conversa fiada. Você vale aquilo que você é. A medida do quanto você ama é o quanto você se sacrifica. Se o que você ama é um carro importado ou uma dose de cocaína, então você vale apenas isso”.
(Olavo de Carvalho, da apostila ”Edmund Husserl contra o psicologismo”)

Destino individual

NENHUM destino individual é predeterminado. A liberdade de escolha é um fato. Ocorre, porém, que o “destino individual” é apenas uma construção abstrata. Cada escolha, cada ação humana está presa numa rede inabarcável de trajetórias individuais, familiares, grupais etc., que, não podendo ser controlada pelo indivíduo nem mesmo em pensamento, pesa sobre as conseqüencias de seus atos, levando-as numa direção que em geral ele não imagina e criando, pelo peso da sua irreversibilidade, a impressão de determinismo.

Rede Globo e a sociedade brasileira

Transcrito por Vanessa Pio

“Agora no Brasil tem um treco chamado Rede Globo, que tem 70% de audiência, as pessoas permitem isso e criam a autoridade da Rede Globo, em seguida a obedecem. Esse é o fenômeno do Golen, você constrói o monstro e em seguida ele manda em você. A Rede Globo é um Golen, aquilo que assombra a sociedade brasileira. O velho Leonel Brizola tinha razão: “o futuro do Brasil passa pela destruição da Rede Globo”. Ele dizia isso por um motivo, eu digo por outro, mas é a mesma coisa.”
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“Veja, tem pessoas que começaram sua carreira política aparecendo no Big Brother. O sujeito sai dali direto para a Câmara dos Deputados, para o Senado, para a Presidência da República, para o Papado ! Como é possível ? Um nada, um Zé Mané, um bobão, um cara que não tem nada para dizer a ninguém, mas, foi promovido pela Rede Globo e tá feito. A Rede Globo se tornou a detentora monopolística da importância e do prestígio, só ela dá prestígio para as pessoas. Não apareceu na Rede Globo, não existe. Agora, quem faz isso ? Os expectadores da Rede Globo. É um espécie de vício auto-inoculado.”
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Prof. Olavo de Carvalho, aula 412 do Seminário de Filosofia, 23/12/2017.

Mensagem de Natal

Todo mundo sabe que os dias que antecedem o Natal são os mais angustiantes do ano. Todas as cobiças, todas as frustrações, todas as neuroses familiares, todos os rancores que o ritual do trabalho diário encobria, vêm à tona nessa ocasião, excitados pela corrida às compras, pelo saldo em vermelho, pela disputa de prioridade nas visitas dadas e recebidas, por mil e uma solicitações inatendíveis que nos mostram, mais que qualquer dificuldade rotineira, o que há de intrinsecamente constrangedor e decepcionante na vida humana.
Movidos pelo automatismo dos lugares-comuns, muitos são os que, nesses dias, enfatizam o contraste entre a agitação mundana e um idealizado “espírito de Natal” que, imaginam, deve ter prevalecido em épocas mais doces ou há de prevalecer na sociedade perfeita que sonham criar à sua própria imagem e semelhança.
No entanto, nada expressa melhor o sentido do Natal do que essa angústia, essa inquietação, esse pressentimento sombrio que antecedem o nascimento de Cristo.
É um simbolismo eterno que se repete nos fatos materiais da vida.
Os dias que precedem o Natal são os da matança dos inocentes, da fuga para o deserto, da Sagrada Família a bater em vão de porta em porta, em demanda de um abrigo inexistente.
Um Deus vai nascer. O mundo treme e se apressa, como Herodes, para tentar matá-Lo.
Não poderiam ser dias felizes. São os mais inquietantes do ano. Nem mesmo a Sexta-Feira Santa é tão triste, porque o fato da morte vem com a certeza da Ressurreição. Mas, quando um Deus vai nascer, tudo é incerto. O nascimento de um Deus é a morte de um mundo – de um mundo que não voltará à existência depois de haver-se dissipado no nada. E ainda não se sabe o que virá depois. Tudo aí é possível: as esperanças mais insensatas acotovelam-se aos temores mais alarmantes, na expectativa de algo que não se sabe o que é, mas que será decisivo. É a hora antes da aurora, a hora do lobo: o predador, no lusco-fusco, ainda não sabe se vai caçar ou ser caçado.
O nascimento de um Deus é um anúncio do Juízo Final. Antecipadamente, há choro e ranger de dentes. A humanidade agita-se, tentando em vão fugir do peso de seus pecados. Cada um quer fingir para si mesmo que está bem, que nada teme, que sua conta bancária, sua mesa farta, sua família feliz são um atestado de garantia contra a danação eterna.
Parecendo negar a profecia, a agitação moderna não faz senão obedecê-la e confirmá-la.
Mas eu seria o último a ver na corrida aos presentes apenas umdivertissement no sentido pascaliano, uma fuga ao sentido da vida. Ela é também, nessa hora incerta, a afirmação de uma esperança. O Deus que vai nascer pode não ser um juiz, mas um salvador. Não um castigo, mas um dom. Ninguém o pode garantir antecipadamente. Comprar presentes, no meio da angústia e da correria do mundo, é um ato de confiança na promessa das Escrituras. Sem saber ainda o que vai acontecer, dispomo-nos a celebrá-lo como um dom. Provemo-nos também dos dons que pretendemos ofertar, símbolos miúdos do grande dom divino que esperamos.
Mas a incerteza nem por isso se dissipa.
Mesmo quando surge a estrela, anunciando o nascimento do Salvador, nem todos atinam com o que está se passando. De início, só os sábios e os pastores o compreendem. É na esperança de ser um deles que acorremos às lojas, comprando o ouro, o incenso e a mirra com que mostraremos reconhecer, nos entes queridos a quem presenteamos, a imagem do Menino Deus recém-nascido.
Quer o saibamos ou não, o símbolo primordial molda nossas vidas, reproduzindo-se e multiplicando-se em milhões de lares, por baixo de toda agitação mundana que, parecendo negá-lo, o reafirma soberanamente.
A deusa história, a modernidade, nada pode contra isso. Ela não é senão imagem e semelhança daquilo que nega. Afinal, quê poderia confirmar mais plenamente o nascer do Sol do que o movimento das sombras que deslizam pelo chão?
Qualquer que seja o rumo da História, a Palavra que a moldou antecipadamente não passará.

Frases de amor e casamento

Organização: Bruno Ayres

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Por Olavo de Carvalho

“Amor eterno” sem suporte sacramental é um sonho idiota de adolescentes.
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A Igreja instituiu o casamento monogâmico indissolúvel e só ela fornece os meios sacramentais que o tornam possível. Onde acaba o catolicismo, reina o divórcio, pela simples razão de que ninguém é de ferro.
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Só pessoas insensíveis ou imaturas não percebem que um casamento fiel para toda a vida é um MILAGRE, não uma coisa normal e exigível na ordem natural.
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Quando Jesus diz que nos tempos antigos Deus Pai permitia o divórcio tendo em vista a dureza de coração dos homens, Ele NÃO quis dizer que a partir da vinda d’Ele todos os homens, dentro ou fora da Igreja, ficaram de coração mole.
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Depois de dois milênios, a vida sacramental realizou tantas vezes o milagre do casamento fiel, que a turminha acabou achando que isso era um direito natural.
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Resultado: nos EUA, 50 por cento dos casamentos terminam em divórcio, e entre os negros 75 por cento.
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Todo sujeito que toma a ordem legal como se fosse a estrutura real do poder na sociedade deveria ser condenado a andar de fraldas e touquinha de bebê pelas ruas.
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Não por coincidência, o romantismo inventou ao mesmo tempo o mito do amor natural eterno e a moda das histórias de cornos suicidas.
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Lembro-me de que, no meu tempo de criança, todas as mulheres ouviam as novelas lacrimosas da Rádio São Paulo, cujo slogan era “Sonho, ilusão, poesia e romance”.
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Até hoje acho que isso é o lema fundamental do mundo moderno: idiotizar todo mundo com ilusões sentimentalóides.
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Sempre que você promete amor eterno a uma mulher, Deus ouve, acha lindo e implora que você busque a ajuda dos sacramentos para realizar o seu sonho. Você não Lhe dá ouvidos e o seu sonho vai para o brejo.
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No mundo da imaginação vulgar — adolescente, na verdade –, tudo o que não é amor eterno é puro sexo. Esse dualismo não é só besteira, como difamação. O amor natural não é só sexo, ele contém elementos de bondade e generosidade que o humanizam, que o puro sexo não explica e sem os quais Deus não seria bobo de sacramentá-lo. O único problema com o amor natural é que ele, por si, não tem o poder de durar para sempre. Mas, que ele é um amor verdadeiro, é.
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O puro desejo sexual sem amor nenhum não é humano, é infra-humano. É coisa mais rara do que a vã imaginação burguesa acredita.
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Até um ator pornô pode ter algum amor natural às atrizes que contracenam com ele.
* O amor é SEMPRE querer o bem da pessoa amada. Isso existe já no nível do amor natural. Se não existisse, Deus não poderia sacramentá-lo. Deus não sacramenta o que é mau.
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O puro desejo sexual sem amor não é natural no ser humano. É um produto da imaginação abstrativa que cria uma separação mental entre o ato e a realidade humana concreta das pessoas envolvidas, apegando-se àquele em vez destas. É um artificialismo, é literalmente uma PER-VERSÃO: um impulso dirigido ao objeto errado por interferência de uma inteligência perversa. O cristãozinho que imagina que tudo o que não é casamento religioso é puro sexo não passa, na verdade, de um difamador diabólico da espécie humana.
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Um homem pode amar várias mulheres, ou uma mulher vários homens? Se é amor natural apenas, pode. Isso acontece o tempo todo. Nem por isso deixa de ser amor verdadeiro, apenas limitado pela fraqueza humana, já que lhe falta o suporte sacramental.
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O desprezo ao amor natural cai no pecado de angelismo, que faz de você um diabinho. O Bem está por toda parte, e é até superabundante no amor natural, que é verdadeiro amor, apenas frágil e impermanente.
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Se uma casa é construída com materiais frágeis, e cai depois de uns anos de uso, pode-se dizer que jamais foi uma casa?
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O casamento monogâmico durável ou é um milagre sustentado nos sacramentos, ou é uma ficção jurídica inventada pelo Estado moderno. Essas duas coisas não têm as mesmas propriedades. A base fundamental do Estado moderno é a mentira.
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O catolicismo no mundo decaiu tanto, que o casamento religioso acabou virando um mero complemento estético do casamento civil — a verdade, um adorno da ficção.
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O amor natural é imperfeito porque TUDO na Natureza é imperfeito. Nem por isso é mau.
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O sacramento aperfeiçoa o bem, não o mal.
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Não há NADA de intrinsecamente imoral na poligamia em si. Se houvesse, ela não teria sido permitida aos antigos profetas. O casamento monogâmico indissolúvel é, como os demais sacramentos, um MISTÉRIO instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo como finalidade a vida eterna, não a moralidade terrestre.
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Se um homem tem quatro ou cinco mulheres, que ele sustenta, protege, auxilia por todos os meios e de vez em quando come, o que ele está fazendo é um MAL? Do ponto de vista meramente terrestre e humano, ninguém tem o direito de acusá-lo disso, embora seja desse ponto de vista que ele será mais frequentemente criticado. A conduta dele torna-se um mal na medida em que, não podendo santificar pelos sacramentos todos esses amores, mas somente um deles, ele está se impedindo a si mesmo, e às mulheres, de integrar-se no Corpo de Cristo e alcançar a salvação eterna. É perante Deus que ele está errado, um Deus que tudo fará para perdoar e salvar a ele e às mulheres, e não perante a sociedade humana, a qual, inversamente, fará tudo para arruinar a vida dele e delas. Muitas vezes, o que as pessoas chamam de “moral” é simplesmente a inversão da hierarquia e a usurpação do lugar de Deus. E muitas pessoas deixam de salvar-se porque, atormentadas pelo falatório humano, fogem de Deus pensando que esse falatório vem d’Ele.
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Agora explicando melhor. A procriação é a finalidade NATURAL do casamento. “Natural” quer dizer que a Natureza a realiza por si, independentemente da consciência e dos desejos dos cônjuges. A Igreja NÃO QUER que você fique pensando em procriação cada vez que faz amor. Só quer que você NÃO IMPEÇA a Natureza de fazer o trabalho dela. Acima da finalidade natural existe a finalidade HUMANA, que a Igreja define como amor e ajuda mútua. E do amor faz parte inerente o desejo e — segundo Sto. Tomás — o DIREITO que cada cônjuge tem de (expressão dele) “deleitar-se no corpo do outro”. Acima da finalidade humana há uma finalidade ESPIRITUAL, que consiste em cada um ajudar na santificação do outro e na salvação da sua alma. Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, é?

Exame de consciência

Mesmo que um escritor não tenha a menor intenção religiosa, não escapará da máxima de Antonio Machado: ‘Converso com o homem que sempre vai comigo — quem fala só espera falar a Deus um dia —; O meu monólogo é conversa com este bom amigo. Que me ensinou o segredo da filantropia.’

Condenar-se é usurpar a função do diabo; perdoar-se, a de Deus. Não perca tempo com essas coisas. Tente apenas compreender-se e ajudar-se, e faça o mesmo com todo mundo. Creio que este é ‘el secreto de la filantropía’.

Quando me acusam de um mal que não cometi, busco sua analogia próxima ou remota com algum que cometi e sempre descubro alguma coisa útil, da qual o acusador não tem idéia próxima nem remota.

Gustave Flaubert, que era um ateu, e Henry Miller, que era um pornógrafo, praticavam o exame de consciência tão bem ou melhor do que qualquer católico que eu conheça.