Elogia da releitura

 

”Leia bastante literatura. Ler uma, duas ou três obras não é suficiente. Leia muitas obras. Você deve se encher de obras literárias até que a memória que você terá delas comece a fazer referências naturais de umas às outras; até você começar a ver personagens de uma obra interagindo com o universo de uma outra. Em segundo lugar, releia. Grandes obras merecem releituras. Leia muito e releia muito”. (Prof. Luiz Gonzaga)

”Quando morou em São Paulo, no começo da vida adulta, [o prof. Luiz Gonzaga] passou um bom ano lendo apenas os três livros que tinha à sua disposição: As confissões de Santo Agostinho, o Livro da Vida, de Santa Teresa de Ávila e as Enéadas de Plotino. Contrastando essa minguada pilha de livros com o tamanho da minha estante (que tem quase dois mil volumes) tiro uma importante lição: é preciso simplificar, ler apenas os livros ótimos e lê-los como se lê uma partitura de piano, atento ao som das palavras, deixando que a sua melodia ressoe na alma”. (Bruno Magalhães)

”As grandes obras merecem ser lidas umas três ou quatro vezes”. (Prof. Monir Nasser)

”O Eric Voegelin relia as obras completas de Shakespeare uma vez por ano”. (Olavo de Carvalho)

”Sempre reli mais do que li. Creio que reler é mais importante do que ler, embora para se reler seja necessário já haver lido. Penso que o livro é uma felicidade de que dispomos, nós, os homens”. (Jorge Luís Borges)

”Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. (…) O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura”. (Nelson Rodrigues)

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Destaques aleatórios

A vantagem mais imediata da cultura literária é ensinar você a perceber imediatamente aquilo que é postiço e soa falso. Se você não tem essa capacidade, TODAS as suas idéias serão erradas.

Aos poucos você vai se extraindo do julgamento dos outros na medida que você adquire a certeza sobre as suas intenções.
Aceitar ser julgado pelos seus pares e ter como seus pares Aristóteles, Platão; ir subindo de pares até que você só aceite o julgamento de Deus.

A atração do homem pela beleza feminina tem pouco ou nada a ver com ‘sexo’. É um impulso imensamente mais forte e mais vasto, que transcende não só a esfera do interesse sexual, mas a da vida terrestre inteira. Quem reduz isso ao sexo é como aquele sapo da fábula, que, contemplando o céu do fundo do poço onde morava, o definia como um buraquinho no teto da sua casa.

Toda percepção humana é fragmentária e intermitente. Se coisas e percepções fossem tão dependentes umas das outras como o pretende Kant, as coisas teriam de ser também fragmentárias e intermitentes na mesma proporção, saindo da existência e voltando a ela a cada piscada do observador, e ainda assim não haveria a certeza de que o gato que vi antes de piscar era o mesmo que apareceu depois.
Para complicar mais o panorama, resta o fato de que as piscadas de bilhões de seres humanos não são sincronizadas, de modo que o pobre mundo exterior teria de transitar entre o nada e o ser não apenas uma vez por segundo, mas bilhões de vezes por segundo.
A conclusão incontornável é que existe nos objetos materiais um coeficiente de realidade que é totalmente independente das nossas percepções. É por isso que o realismo filosófico, declarado morto pela “revolução copernicana” de Kant, continua vivo e passa bem, ao passo que a cada ano novas porções do kantismo recebem por sua vez seus certificados de óbito.

Outro dia alguém me perguntou se eu conseguia me identificar com o ateísmo. Respondi: É claro que sim; sem isso eu não poderia ser cristão.

Se no Juízo Final fôssemos julgados por uma platéia humana, só os juízes seriam absolvidos.

 

Nota pessoal:

Muitas pessoas ficam confusas e não raro enfezadas com as aparentes contradições da minha personalidade pública: filósofo e gozador sarcástico, pregador e pornógrafo, lógico e paradoxal, humilde e altivo, ora xingando, ora perdoando, ora fazendo as duas coisas ao mesmo tempo, ora educando e edificando, ora esculhambando e fodendo com tudo em torno. Tenho a consciência clara de que o Brasil me formou assim, de que reflito na minha pessoa e alma toda a sua complexidade, e de que só por ser assim consigo falar a todos os brasileiros, sem distinção, e — milagre! — ser compreendido quase sempre. O escritor é o sujeito que absorve o impacto da sociedade e devolve a experiência sob forma verbalizada, tornando-a mais clara e menos hostil à mente humana. That’s all, folks.

Memória

“A diferença entre um gênio e um idiota não é uma diferença de inteligência, propriamente; é uma diferença de memória. Ele tem mais coisas na memória, e ela está mais organizada, quer dizer, ele transita mais facilmente entre as analogias, sabe perceber semelhanças e diferenças.”
(Olavo de Carvalho, COF, aula 03)

“O Bruno decorou milhares de poesias. Milhares! Ele tinha poesias europeias inteiras. Acho que ele leu tudo que interessava, e de tudo o que ele leu, ele guardou de memória pelo menos 20%. Então, isto se incorporou na alma dele. Havia aspectos na alma do Bruno que eram, por exemplo, Saint-John Perse, que eram Eugenio Montale, que eram Ungaretti. Eram dimensões internas da alma dele! Mediante esses poemas ele se dizia; ele se mostrava para mim através dos poemas decorados, quando não dos próprios poemas dele.”
(Olavo de Carvalho, COF, aula 59)

Ciência política

“1. Conquistar mais poder é da essência mesma do poder. O poder que para de crescer está em extinção.
2. Como não existe poder absoluto, mas todo poder contém elementos de debilidade, a luta pela sua conquista, manutenção ou expansão não é jamais direta e linear, mas sinuosa e dialética.
3. Hoje em dia, os meios para a conquista, manutenção e ampliação do poder, usados em dosagens, variações e combinações diversas, são três e não mais de três: a mentira, a corrupção e o homicídio.
Em qualquer análise política essas premissas são indispensáveis.

Simbolismo e ordem cósmica, ontem e hoje

Só o mais presunçoso dos idiotas negaria que há conhecimentos valiosos e essenciais espalhados em todas as tradições científicas, literárias. artísticas, religiosas e esotéricas milenares. A forma do conjunto, no entanto, é caótica e inapreensível, e toda tentativa de colocar nele alguma ordem esbarra não só na quantidade inabarcável do material e na multiplicidade dos códigos lingüísticos e simbólicos envolvidos, mas na dificuldade invencível de encontrar o nexo, a chave de abóbada desde a qual a unidade se revele por trás e por cima (ou por baixo) da massa, entre luminosa e obscura, que se oferece como supremo enigma à inteligência humana. Uma chave propriamente cognitiva ( isto é, doutrinal ou teórica) é inalcançável por definição, já que sua posse corresponderia ao domínio intelectual da “ciência divina” que só Deus possui. Mas uma chave heurística e prática pode ser encontrada pela busca da PRIORIDADE REAL capaz de separar os conhecimentos que são valiosos para o ser humano e aqueles que expressam somente uma ambição satanicamente desmedida. Essa chave, por sua vez, tem de emanar do reconhecimento da finalidade mais vital e dramática da nossa existência, que é a SALVAÇÃO DA ALMA, o salto da individualidade humana da vida temporal para a vida eterna. A rigor, a única tradição espiritual que tem essa meta como seu objetivo central e único, enquanto as outras se diversificam em finalidades múltiplas e variadas, é o cristianismo. Logo, só o cristianismo pode recolher, articular e ordenar, não numa impossível síntese teórica, mas na perspectiva da racionalidade prática, o máximo volume abarcável dos dados da sabedoria tradicional, separando o joio do trigo e retribuindo a cada uma das fontes a sua parcela da verdade. Se existe alguma “unidade transcendente” acessível à consciência do homem temporal, é a unidade que só o cristianismo, absorvendo, depurando e ordenando, confere a tudo o que não é ele.

NB – Esse é um dos temas que desenvolverei no meu próximo curso, “Simbolismo e ordem cósmica, ontem e hoje”. A ementa e o programa serão divulgados nos próximos dias.”

— Olavo de Carvalho

Felicidade

“[…] entendi que a felicidade é um resultado mais ou menos acidental. A felicidade é como o prazer, dizia Santo Tomás de Aquino. O prazer é um efeito lateral resultante de uma coisa que deu certo. Ele não é um objetivo. Ele nunca é um objetivo. Afinal de contas, o prazer é um termo abstrato que designa uma constelação de sentimentos que podem diferir muito de uma pessoa para outra. O prazer é evanescente demais para você poder buscá-lo. Você vai ter de buscar alguma coisa concreta.

Por exemplo, o que é o prazer gastronômico? Você pode comer o prazer gastronômico? Claro que não pode. Você vai ter de comer alguma coisa concreta. Essa coisa pode lhe dar prazer ou desprazer. Santo Tomás de Aquino tem toda a razão. Você comeu, aquilo funcionou, então você diz que tem prazer. O prazer é o nome que você dá ao efeito lateral subjetivo de alguma coisa. Com a felicidade acontece a mesma coisa. Buscar a felicidade é a coisa mais inútil do mundo, porque você nunca sabe o que vai deixá-lo feliz ou não. É certo que algumas coisas o deixam feliz e outras o deixam infeliz, então são aquelas que você vai ter de buscar. Nosso esforço dirige-se sempre a fazer alguma coisa, a conquistar algo, e não a uma coisa abstrata chamada felicidade. Isso eu já entendi faz tempo: buscar a felicidade é fazer buraco na água. Quando o sujeito passa da camada quatro para a cinco, já entendeu isso. Se ele buscar a felicidade ficará infeliz, então é melhor buscar vitória, autoafirmação, força etc.”

(Olavo de Carvalho, COF, aula 83)

Ganhar ou perder?

“Você está preparado para sustentar a luta por vinte, trinta, quarenta anos? Não? Então vai perder.
Você está preparado para matar e morrer? Não? Então vai perder.
Você está preparado para mandar um cardeal tomar no cu? Não? Então vai perder.
Você está preparado para jogar pessoalmente um senador na lata de lixo? Não? Então vai perder.
Você está preparado para sacrificar sua vida, sua honra, seus bens e sua liberdade? Não? Então vai perder.”