Vida decente

Com a expressão “vida decente”, o burguês e o socialista designam uma certa quantidade de confortos. É a concepção indecente da decência. Minha avó Alma Elisa Schneider nunca desfrutou de conforto nenhum e foi a pessoa mais decente que conheci.

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Paulo Antônio Briguet

Paulo Antônio Briguet está com Roxane Carvalho e outras 7 pessoas.

3 h · 

A PAUTA É NOSSA! (Crônica da Bolha de S. Paulo)

Redação da Bolha, final de tarde. O repórter entra esbaforido na salinha do editor:

— Chefe, chefe, olha aqui! O Murilo Meneses, aquele olavete que ia cuidar do Enem, acaba de ser exonerado! Deu no Diário Oficial.
— Bom trabalho, meu garoto. Buahahaha! Agora vamos fazer uma manchete bombástica. Bota aí: “MEC recua e exonera diretor do Enem que chamou professores de ‘palhaços’”.
— Mas, chefe, ele não chamou os professores de ‘palhaços’. Ele disse ‘manipuladores’, e se referia apenas a alguns.
— Quiquéisso, rapaz? Virou bolsominion? Andou vendo o COF escondido?
— Não, chefe. Sou #Elenão até o fundo da alma. Acho que a gente pode botar ‘manipuladores’ entre aspas, afinal ele pronunciou a palavra. Está neste vídeo do Youtube, exatamente em 2h14min42seg. Mas tem que prestar bastante atenção, senão você não escuta.
— Então quiéquitá esperando? Publica logo essa merda!

(Passam-se alguns minutos.)

— Chefe, desculpe incomodar. A gente achou outra coisa no Diário Oficial.
— O quê? Mais um olavete foi defenestrado? Ah, esse colombiano parecia macho, mas na verdade é um bundão.
— Não, chefe. Na mesma edição do Diário, na página seguinte, tem uma nomeação do Murilo.
— Quiquéisso? Quiquéisso? Ele foi nomeado pra quê?
— Pra outra função no Enem. Parece que é a mesma coisa, foi só um erro burocrático.
— De jeito nenhum! De jeito nenhum! Ficou doido, guri? Nada me tira da cabeça de que você anda assistindo o COF.
— Imagina, chefe! Filosofia pra mim é Karnal e Tiburi. Nem sei quem é Mário Ferreira dos Santos… Mas acho que desta vez o MEC não recuou, foi só uma falha burocrática, na hora da digitação.
— De jeito nenhum, garoto! Se nós usamos a palavra recuo, é porque HOUVE recuo. Lembre-se de nosso slogan: “A narrativa acima de tudo, Lula acima de todos!”
— Então o que é que eu escrevo?
— Bota aí: “MEC recua e dá prêmio de consolação para diretor exonerado que chamou professores de palhaços”.
— Manipuladores, chefe.
— Tá, cacete, manipuladores. Mas muda logo esse negócio. O importante é dar destaque para o “prêmio de consolação”. E põe aí também: “O governo recuou e depois recuou do recuo”.
— OK, chefe. Só mais uma pergunta.
— Desembucha, guri.
— E se o cara fizer mudanças na prova do Enem? E se ele tirar a lacração e colocar a cultura? E se ele substituir a vovozinha lésbica por poemas de Camões?
— Moleque! Você virou aluno do Olavo, confesse! Fora daqui! Fora daqui!

Bruna Luiza

Bruna Luiza

51 min · 

Então você quer ir à China?

Então você se elege deputado federal e resolve aceitar um convite para uma viagem à China, sem avisar seu partido ou consultar seus eleitores.

Você não vê mal em fomentar relações entre os países, e acredita que isso será positivo para o Brasil. Quando a viagem se torna pública, e as críticas aparecem, você não entende o motivo, e fica bravo com Olavo de Carvalho por criticá-lo. Como ele ousa, afinal? Ele não sabe nada de Brasil, nem de China, brada seu ego em auto-defesa, enquanto passa instruções aos assessores do conforto da cama do hotel 5 estrelas bancado pelo governo chinês.

Mas Olavo sabe, sim, do que está falando. Em 2018 ele já previa que você seria convidado para essa viagem, e o racha que isso causaria. Vejamos o que ele disse há mais de um mês (em 8 de dezembro de 2018):

“O que eu condeno é o sujeito subir rápido demais sem estar preparado. Então, prestem atenção ao tamanho do inimigo que você enfrenta, é um negócio de escala mundial.

Eu estudo isso há cinquenta anos, vocês não têm idéia do que é um negócio chamado KGB, do que é o Serviço de Inteligência Chinês, vocês não têm idéia da magnitude dos intelectuais que dirigem isso.

Esse pessoal é capaz de fazer picadinho de qualquer partido conservador latino-americano em dez minutos.

Eu vou lhe dizer algo simples, por exemplo: que recomeçaram as negociações com a China, negociações com bases mais equitativas, e quem vai conduzir é o presidente Bolsonaro e ninguém mais. O que a China faz?

Manda um convite para cada deputadinho: ‘venham aqui discutir um pacto comercial conosco’. Num instante, por uma porcaria de conjunto de passagens aéreas, dissolvem a unidade do movimento, isola cada um para conversar particularmente com a gente. E os idiotas caem nessa armadilha.

Isso o que é? Falta de preparo, não estudaram o assunto tempo suficiente, alguns não estudaram nada”.

Como é possível que Olavo tenha previsto isso? Bem, não importa. O que importa é que agora você será deputado e precisa defender sua decisão. Então o que fazer? Já sei: vamos usar dados do comércio. Comércio é bom e todo mundo gosta. Foi pensando na economia brasileira que vim! Como sou articulado, hein? Vou dizer, irônico que sou, que “o mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” é repetir uns números de balança comercial e pronto.

Mas, novamente, Olavo previu isso. Ele sabe o que está acontecendo, entende o cenário e as relações entre Brasil e China muito antes de você googlar os números de comércio bilateral. Pior. Esses dados já foram destroçados pelo professor e desmontados. Não existe balança comercial positiva quando o requerimento da relação de troca pede que o Brasil realize doações bilionárias a ditaduras. Vejamos o que Olavo previu e explicou em novembro de 2018:

“Ano passado o comércio com a China nos deu 20 milhões de superávit”, muito bem. A China só fez isso porque o governo Lula e Dilma e o Temer também estavam distribuindo dinheiro para os amigos deles, os amigos da China: Cuba, Angola, Venezuela, etc: 1 trilhão. Levamos 20 milhões e distribuímos 1 trilhão. Que beleza, né? Claro que se o governo parar de representar vantagem política para a China, acaba o comércio na mesma hora. Comércio com a China é escravidão. Isso é óbvio e todo mundo deveria saber disso. Vai perguntar para o Tibet se é bom conversar com a China. Agora, para os EUA, é bom, porque a riqueza da China é quase feita toda de dinheiro americano. Outra coisa, tem gente que chega a ser tão idiota que ultrapassa a medida do acreditável. Por exemplo, Mino Carta acha ruim comerciar com Estados Unidos e acha que deve comerciar com a China. Mas a China só quer saber de comerciar com os Estados Unidos, meu deus do céu. Por que os EUA é bom para a China e é ruim para nós? Essa coisa anti-americana pueril é coisa de estudantezinho comunista de 1950, naquele tempo havia um livrinho que os comunistas distribuíam, a Editora Brasiliense, que é comunista para caramba, chamado “um dia na vida do Brasilino” e tudo o que ele consumia era americano. Só que se você retirasse todos aqueles produtos, o Brasilino retornaria à Idade da Pedra. Tem essa mentalidade ainda. É encrenquismo. Agora encrenquismo com a China não tem, embora estejamos de fato entregando tudo para a China. Essa burrice já passou do limite no Brasil.”

Como é possível que Olavo tenha previsto tudo isto? É difícil entender, querido deputado?

Se escapa ao seu entendimento, e se você não sabe mais como responder, talvez fosse melhor para você, e melhor para o Brasil, pegar sua malinha e voltar para casa antes que as demais previsões dele se cumpram e o seu vexame piore.

Ps: eu conheço a China, eu moro no Brasil, eu tenho formação em relações internacionais e conheço todos os dados da balança comercial. Mantenho: Olavo tem razão.

Antunes Fernandes


28 min · 

A discrepância entre os admiradores do professor Olavo e seus desafetos é tanta, que eu duvido que tenha existido exemplar semelhante em toda história humana. Ontem o professor recebeu em sua casa o Steve Bannon, ex estrategista chefe da Casa Branca, líder da campanha do Trump e um dos caras que mais conhece de política americana no mundo. Este cara visita o Olavo, ouve com humildade o que ele tem a dizer, troca idéia com respeito e posa para foto. E tem o Alexandre Frota, QUE É O ALEXANDRE FROTA, que quer passar pito no Olavo naquele tom de “Beleza Olavinho, você já deu a sua contribuiçãozinha, agora deixa com nós, os homens da ação”.

E nada mais precisa ser dito.

Taiguara Fernandes de Sousa

Taiguara Fernandes de Sousa está com Roxane Carvalho.

4 min · 

A empáfia obtusa e o tom de voz bacharelesco, típico de burocratinhas artificiais e burros, que eu ouvi no vídeo do (hoje) tão comentado “operador de Direito do 9o período academicamente muito bem instruído” deve ter sido uma das bobices mais engraçadas a que assisti na vida.

O sujeitinho, antigamente conhecido como famoso Sr. Quem?, utilizando-se de todo aquele linguajar pomposo, cheio de arrebiques, que se aprende imediatamente, por infusão, ao obter um crachá, pretendendo responder a Olavo de Carvalho, ainda tem a ousadia de dizer que o Professor esqueceu o que escreveu no livro “O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” — que, sendo o livro mais conhecido do Professor, por ser best-seller, é também o único que a anta pré-bacharela sabe citar para dizer que leu.

E é claro que não leu, pois, se o tivesse feito, teria visto as constantes referências do Professor a como Bill Clinton fortaleceu a China como inimiga dos EUA e a como os esquemas globalistas, incluso o russo-chinês, atuam — conhecimento que lhe teria feito não aceitar os espelhos e miçangas oferecidos pelo Governo Chinês, razão pela qual, precisamente, é um idiota e analfabeto, como classificou o Professor Olavo.

Vejam: a composição muda, mas a idiotice jamais deixará de estar presente; sempre vai ter aquele que, arrogantemente, olhará para o “Guru de Varginha” e dirá que ele não fez nada pelo Brasil, enquanto eles estão ali “dando a cara a tapa” (no hotelzinho de luxo pago pelos comunistas chineses).

Antes era no PT, depois foi no MBL, agora é “o operador do Direito do 9o período academicamente muito bem instruído”.

Boa sorte a todos.

Josias Teófilo

Josias Teófilo1
Josias Teófilo 5 min ·  Fotografei esse encontro histórico: Steve Bannon, ex-estrategista chefe da Casa Branca, e Olavo de Carvalho. — com Roxane Carvalho.

Josias Teófilo

1 h · 

Ontem Steve Bannon visitou Olavo e nos convidou para jantar na casa dele em Washington, que é o lugar conhecido como Breitbart Embassy. Durante o jantar Bannon perguntou de que tratava o curso de Olavo, o COF, e o próprio Olavo não soube definir, e pediu ajuda dos outros brasileiros na mesa para explicar. Passamos um bom tempo tentando, não foi fácil. Bannon ficou impressionado com a amplitude de temas que ele trata no curso. O nível da conversa entre os dois foi muito alto, e tratou principalmente de filosofia de Olavo – se falou mais disso do que de política.

“marxismo cultural”

notas reunidas

O legado principal da Escola de Frankfurt é a malícia corrosiva que ensina a enxergar o mal em tudo, exceto na própria malícia. Karl Marx propôs a “crítica radical de tudo quanto existe”, mas jamais se empenhou tão fundo em realizá-la quanto os frankfurtianos. Comparado a eles, ele era um anjo de candura.

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Um dos motivos pelos quais o termo “marxismo cultural” me parece inadequado para designar seja a política da Escola de Frankfurt, seja a estratégia gramsciana, é que a ofensiva cultural soviética no Ocidente antecede de décadas a difusão dessas duas correntes de pensamento. O livro de Stephen Koch, “Double Lives” é provavelmente o melhor retrato breve de uma estratégia de ocupação cultural que remonta a Stalin e que AINDA É a diretriz fundamental do jornalismo e do “show business” no Ocidente.

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É absurdo e acintoso, mas não de todo inexplicável, que os militantes da esquerda jornalística dêem sumiço nas minhas idéias filosóficas e reduzam o “pensamento do Olavo de Carvalho” a meia dúzia de opiniões políticas de ocasião. Eles vêm de uma tradição para a qual a luta política é o centro, a essência e o único propósito da vida humana, e jamais poderiam enxergar, muito menos compreender, um pensamento filosófico que subscreve a premissa simetricamente inversa, segundo a qual a politização geral da existência — fenômeno que Napoleão Bonaparte foi talvez o primeiro a assinalar — é o início da era dos genocídios e do crime organizado.

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A perseguição aberta que as grandes empresas de mídia e de internet movem às publicações cristãs e conservadoras é a prova integral e definitiva de que a esquerda já perdeu toda legitimidade como porta-voz dos pobres e oprimidos e se tornou o instrumento de controle psicossocial com que a elite escraviza a mentalidade das massas.
Premeditado ou impremeditado, esse foi, em essência, o resultado da reforma do marxismo pela “Escola de Frankfurt”. 
O retorno tardio de Georg Lukacs à linha-dura stalinista foi inútil. A “dialética negativa” já havia corroído, por igual, a “sociedade de confiança” e a “solidariedade proletária”. Em vez de construir o socialismo, havia apenas transformado o capitalismo num inferno.

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Esvaziado dos símbolos que dão um sentido moral ao trabalho, ao comércio, à poupança, à ordem social, ao direito e até às relações pessoais, a que se reduz o capitalismo senão àquela “capitalismo cru” terminal que segundo Marx deveria anunciar e anteceder imediatamente o advento do socialismo? Mas, sendo a economia socialista impossível na sua forma integral e viável somente na forma híbrida da economia fascista (com esse ou outro nome), que é que impede que o capitalismo cru se eternize, e que o faça precisamente por meio da substituição dos velhos símbolos culturais pela nova indústria dos simulacros? Quem não percebe que esse é precisamente o mundo em que vivemos hoje, tanto em Pequim quanto em Nova York?

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A tradução da linguagem dos sonhos na lógica dos desejos — a “interpretação dos sonhos”, segundo Freud — reduz os símbolos oníricos a disfarces provisórios e escamoteia assim aquilo que os desejos mesmos têm de semiótico e simbólico. De fato, é impossível desejar qualquer coisa sem ter falta dela, isto é, sem possuir dela nada mais que um signo sem a coisa. Se o desejo fosse uma presença bruta e não apenas o aceno semiótico de uma ausência, a masturbação seria impossível e o desejo mesmo só poderia vir à tona na presença plena do seu objeto, o que o tornaria ao menos praticamente indistinguível da sua satisfação.

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A premissa teórica fundante de todo marxismo — isto é, do marxismo tomado em toda a variedade dos seus estilos e versões — é que todos os problemas essenciais já estão resolvidos, e que, no fundo, só o que resta são questões de estratégia e de tática, se não de retórica e propaganda. A décimo-primeira “Tese sobre Feuerbach” afirma precisamente isso e NADA MAIS. 
Essa premissa é estupidificante em si, mas o fato de que permaneça quase sempre inconsciente ou pelo menos indeclarada aumenta “ad infinitum” o seu poder de estupidificar.

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Ou os frankfurtianos padeciam daquela imprevidência radical que Eric Voegelin chamava de “estupidez criminosa”, ou eram pérfidos reacionários empenhados em transformar a esquerda em instrumento da dominação capitalista, ou eram apenas uns filhinhos-de-papai que se divertiam brincando de dialética negativa enquanto, do teto de um hotel de cinco estrelas, observavam o mundo pegar fogo. A primeira hipótese é a mais humana.

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Concessões esporádicas às exigências do “politicamente correto” — como outrora às da “linha justa” do Partido, a qual é exatamente a mesma coisa — não bastam para estragar por completo um romance, um filme, uma peça de teatro; mas quando essas exigências se tornam obrigatórias e onipresentes, elas acabam por violar as leis mais elementares da verossimilhança e assim destroem a possibilidade mesma da arte narrativa. 
Eis por que o cinema de hoje busca sobretudo uma platéia de adolescentes, na qual a exigência da verossimilhança cede facilmente ante a ânsia de sensações fortes. 
O julgamento de verossimilhança depende essencialmente da maturidade, da “experiência da vida”.

Ronal Robson

https://mailchi.mp/olavodecarvalho.org/elementos

ELEMENTOS DA FILOSOFIA DE OLAVO DE CARVALHO (Ronald Robson)

Notas para uma leitura de O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota(Record, 2013)

I. A obra de Olavo de Carvalho possui uma intuição fundamental: a de que só a consciência individual é capaz de conhecimento (1). O que a afirmação possa ter de banal, em aparência, se esvai se notarmos que aí se fala de consciência individual, não se tratando tão somente de sujeito, o vocábulo descarnado de uso corrente na metafísica dos últimos séculos. Uma coisa é sujeito enquanto meramente contraposto a objeto em teoria do conhecimento; outra coisa é a modalidade de existência histórica de um ser dotado de consciência, que por definição só pode ser individual. E nisso importa prestar atenção à sutileza vocabular porque aí se afirma uma substância e se afirma uma sua propriedade: consciência individual, a primeira, e capacidade de conhecimento, a segunda. De um ponto de vista biográfico, a substância atualiza essa sua propriedade em um trauma de emergência da razão (2), que consiste no descompasso entre o crescente acúmulo de experiências do indivíduo, no decorrer do tempo, e a sua capacidade mais limitada de coerenciar e dar expressão a essa massa de fatos que, a princípio amorfa, pode se ordenar à medida que o indivíduo a expressar a si mesmo a ponto de nela se tornar discernível uma forma. A cada estágio traumático corresponde um padrão de autoconsciência, um eixo central de estruturação do indivíduo, ao menos a nível psicológico, que se pode melhor compreender mediante uma teoria das doze camadas da personalidade (3): pois, caracterologicamente, o desenvolvimento da psique pode ser apreciado em doze camadas distintas, umas integrativas (formam um quadro integrado estável), outras divisivas (estabelecem uma ruptura da ordem anterior que, assim, propicia uma nova ordem). A terceira camada, por exemplo, a qual em geral é objeto de escolas como a behaviorista e a Gestalt que equivocadamente, como fazem outras escolas, tomam uma camada da psique por sua própria substância (4) , compreende aquele período de esforço cognitivo concentrado para aquisição de saberes que permitam à pessoa (criança, aqui) se orientar no mundo com algum grau de independência, ao menos física; a quarta camada, divisiva e decisiva ao seu modo, que afinal foi o verdadeiro objeto de estudo de Freud e Klein, abarca a história pulsional do indivíduo preocupado sobretudo com sua afetividade, com o querer e sentir-se querido; e com a quinta camada, integrativa e de individuação (Jung), já começa a surgir o problema objetivo de quais são os propósitos reais do indivíduo e como alcançá-los a questão deixa de ser de afetividade, passa a ser de poder. E assim por diante, a passar por camadas que apenas podem ser alcançadas, mas não necessariamente, como a da síntese individual (oitava), a da personalidade intelectual (nona) ou mesmo a do destino final (décima segunda).

II. A identificação de em que camada se está, o indivíduo só pode fazê-la por meio de um gesto de assentimento aos seus próprios atos e pensamentos. Essa aceitação, se vista antropologicamente, tem seu fundamento no princípio de autoria (5): cada indivíduo é responsável pelos seus atos, e essa asserção é universal; não existe registro de nenhuma cultura na qual o ato de um indivíduo devesse ser atribuído a outrem (o que, para além da constatação de fato, demonstra existir a constante antropológica de que um homem é um todo, ele é seus atos, e estes não lhe podem ser alheados). Mas essa aceitação tem no princípio de autoria apenas seu fundamento, não o seu meio ou método, mesmo porque tal princípio só abarca os atos individuais que são testemunhados socialmente. Para além destes, existem outros de outra ordem e de maior importância os atos sem testemunha (6). Estes são os atos de que o indivíduo só se reconhece autor por uma obrigação interior, não externa; à medida que neles se reconhece, integra a sua personalidade e, assim, fica menos à mercê de quaisquer automatismos de pensamento ou comportamento. Esta outra ordem de objeto de consciência é incorporada ao indivíduo especificamente através do método da confissão(7): uma vez que toda expressão social depende de uma expressão individual e interior, e uma vez que esta só se torna possível após uma condensação de significado sob a forma do juízo, este, antes de se tornar proposição em sentido lógico dotada de compreensibilidade pública, deve ser afirmado pelo indivíduo de si para si mesmo o indivíduo deve, em suma, confessar para si aquilo que ele já sabia, mas de que não estava ciente até então. A esse recenseamento socrático do que se sabe e não se sabe segue-se o processo de extrusão, pelo qual o indivíduo dá forma linguística e simbolicamente articulável à própria experiência.

III. O trauma de emergência da razão reproduz na escala privada um problema central de qualquer filosofia da cultura: as mediações entre indivíduo e sociedade; ou, se se quiser dizer de outro modo, entre expressão particular e símbolos disseminados socialmente. A esse desenvolvimento psicológico do indivíduo corresponde, é evidente, um desenvolvimento epistemológico, que pode ser apreendido não apenas nessa escala, a individual, mas também na escala social. A teoria dos quatro discursos (8), assim, tenta descrever em amplitude histórica e pessoal uma filosofia da cultura e uma pedagogia, portanto a unidade entre os quatro tipos de discurso estudados por Aristóteles (o poético, o retórico, o dialético, o analítico), ao mesmo tempo intentando rever a interpretação do corpus lógico deste: o discurso humano, diz a teoria, é uma potência única que se atualiza de quatro formas expressando estruturas gerais de possibilidade (poética), estruturas gerais de verossimilhança (retórica), estruturas gerais de probabilidade (dialética) e estruturas gerais de certeza (lógica ou analítica). As mediações entre o indivíduo e o conhecimento, sobretudo o difundido socialmente, podem, então, dar-se através desses quatro níveis de um pólo estritamente mais simbólico, o primeiro, até um pólo, por oposição, mais analiticamente discernível. Estão em jogo aí diferentes níveis de credibilidade do discurso humano; mas estão, também, as diferentes formas de reivindicação indevida de credibilidade, o que requer estudo tanto da erística (9) quanto das condições epistemológicas do saber científico, ou seja, uma filosofia da ciência (10). Há que se considerar ainda, todavia, as formas próprias que o discurso adquire, umas sendo mais adequadas ou menos a discursos neste ou naquele nível e então há de se atentar aos fundamentos metafísicos dos gêneros literários (11), cuja teoria, grosso modo, ao levar em conta a modalidade de existência espaço-temporal da linguagem e do ser humano que se serve dela, aplica ao discurso distinções espaciais, temporais e numéricas (de número em acepção antiga: discreto ou contínuo), delas extraindo os princípios da narração (tempo), exposição (espaço) e da prosa e do verso (número). As articulações específicas e em diferentes graus desses princípios em uma obra lhe dão a sua feição substantiva o seu gênero.

IV. Se o discurso é o meio eminente pelo qual o indivíduo se apossa do saber, a finalidade deste, enquanto ser dotado de consciência, não é se limitar ao mero domínio discursivo do saber. É chegar ao próprio saber, o que é ademais verificar suas próprias condições de existência. É, numa palavra, chegar à base metafísica primeira, à investigação daquela faixa da realidade que Platão visava em sua segunda navegação, para além das ideias e rumo ao mundo dos princípios (12) que as regem, entre os quais o de identidade tem primazia. Tudo o que existe é na medida em que tem possibilidade de sê-lo, de modo que as atualizações das notas de cada ente têm seu esteio em uma estrutura de possibilidades preexistente por exemplo, a própria possibilidade ontológica (da qual a lógica é só expressão discursiva) de que algo seja a atualização de uma potência. A possibilidade da possibilidade conduz a inteligência à investigação do que de mais substantivo e duradouro possa ter um ente. Mas, nesse caso, a palavra investigação não é a mais apropriada. Trata-se mais, via confissão, da aceitação desse corpo de possibilidades em tudo embutido; trata-se de umconhecimento por presença (13), de treinar a consciência para que, ao invés de falar à realidade, deixar que esta lhe fale: como o conceito de um ente já está potencialmente em sua substância, como toda a mineralogia já está nos minerais, o indivíduo deve se esforçar para perceber que o problema da verdade está submetido ao problema da presença substantiva da realidade. Mesmo a mais refinada técnica lógico-analítica é apenas um meio de retornar ao que sempre aí já esteve. É tomar consciência de uma presença que abarca a nós e a tudo o mais. Eis o nexo remoto entre conhecimento e existência.

V. Eventualmente é necessário, para romper o véu das limitações cognitivas de uma determinada civilização e retornar a essa aceitação da presença, proceder à crítica cultural (14), que poderia ser definida provisoriamente como o ato pelo qual uma consciência individual investe contra as estruturas simbólicas ou políticas que lhe embotam a sensibilidade. Tais estruturas podem, por um lado, ser tão só simbólicas e discursivas nas artes, nas ciências e na comunicação pública , ou, por outro, podem mesmo chegar ao cerceamento físico da liberdade de consciência. Aqui, o objeto de crítica cultural mais extensa é a metamorfose da ideia de império ao longo da história do ocidente e a ideia correlata de religião civil, com o que se investe no rastreio dos fundamentos remotos da ideologia coletivista e cientificista contemporânea. Cientificismo e nova pax romana, separados sob outros aspectos, dão as mãos no achatamento do horizonte total da experiência humana (longamente preparado, por exemplo, desde as ideias de volonté générale e de quantificação geral das ciências físicas). O drama da vida humana, antes concebido como de almas substantivas a viversub specie aeternitatis, passa a ser o de papéis sociais limitados a um mundo espaço-temporal inteiramente fechado (vários exemplos poderiam ser colhidos na cultura geral: Dostoiévski seria um autor ainda ligado à primeira perspectiva; já os personagens de Balzac se conformariam quase que só à feição da segunda). Com a negação da via de acesso à universalidade da experiência, em grau metafísico, vem também a negação da própria possibilidade de conhecimento do indivíduo. Existiria um vínculo indissolúvel entre a objetividade do mundo e a individualidade da experiência, a qual é preterida em um meio cultural de politização geral (gramscismo) e disseminação de substitutivos das experiências realmente fundadoras do conhecimento (Nova Era) ou seja: coletivismo, no fim das contas, é subjetivismo. E é contra este que se afirma o conhecimento como intuicionismo radical (15): ao contrário do que é comum pensar, o que há de mais objetivo e especificamente humano no conhecimento é o que os antigos lógicos chamavam de simples apreensão, ou seja, o ato pelo qual a consciência toma ciência da presença de um determinado dado da realidade. O raciocínio, a construção silogística e suas derivadas, é posterior e é uma aptidão de ordem construtiva e, portanto, mais dada a erros. O que é dizer: o homem erra mais na expressão interior do que apreende do que na apreensão em si; pois os métodos mais refinados da lógica apenas desencavam, analiticamente, algo que já estava dado na primeira intuição. E cada intuição, por sua vez, inaugura uma cadeia potencialmente ilimitada de outras intuições; disso trata a teoria da tripla intuição (16): o ato pelo qual o indivíduo intui (primeira intuição) é, ao mesmo tempo, intuição de algo (segunda intuição) e intuição das condições desse ato intuitivo (terceira intuição). Isso explicaria ainda, por exemplo, certos simbolismos naturais, como a identificação do sol ou da luz com o conhecimento em inúmeras culturas, porquanto em sociedades primitivas, sem o recurso do fogo, só se vê algo e a visão é o sentido identificado mais diretamente ao conhecimento quando há luz natural; então o indivíduo percebe que intui, percebe que intui algo e percebe a possibilidade que funda essa intuição paralelamente a uma situação natural. Isso, por fim, afirma a possibilidade de conhecimento objetivo contra todo o discurso contemporâneo de que só existem verdades convencionais, inexistindo as objetivas e, por assim dizer, naturais.

VI. Um capítulo adicional de crítica cultural volta-se para a paralaxe cognitiva (17), que teria se disseminado em larga escala na modernidade. Ela se definiria como o deslocamento entre o eixo da experiência individual e o eixo da formulação teorética. Ou, dito de outro modo: ela seria responsável pela formulação de ideias que são desmentidas pelas próprias condições concretas de que o indivíduo depende para formulá-las. A obra de Maquiavel seria exemplar nesse sentido, toda construída sobre dados intrinsecamente conflitantes, mas sobretudo conflitantes com aquilo que o próprio Maquiavel sabia ou deveria saber ser manifestamente falso, porque patente à sua experiência mais imediata. A manifestação aguda da paralaxe cognitiva se encontraria na mentalidade revolucionária (18), caracterizada basicamente por duas inversões: a inversão temporal, pela qual o revolucionário passa a levar em conta o futuro hipotético pelo qual trabalha como o parâmetro de julgamento de suas ações, não mais prestando contas ao passado (e, afinal, a ninguém, pois por definição sua sociedade utópica se afasta à medida que o processo revolucionário avança, nunca se concretizando e, portanto, nunca havendo tribunal no qual se possa julgar abertamente ações ou idéias); e a inversão de sujeito e objeto, pela qual o revolucionário, no ato mesmo de atacar os adversários de sua sociedade futura, os toma na verdade como os atacantes que lhe impedem a consecução de seus planos, de modo que a relação causal entre um e outro é invertida. A paralaxe cognitiva e, em especial, a mentalidade revolucionária inviabilizam um ambiente intelectual no qual o método confessional leve o indivíduo a se dar conta do conhecimento que lhe é imediatamente presente a primeira, porque faz do sujeito do conhecimento um ser diverso do indivíduo autor de sua própria vida; a segunda, porque, além disso, ameaça destruir todas as bases sociais de convivência humana, já que revolução consiste em concentração de poder nas mãos de uma elite revolucionária com vistas à instauração de um projeto de sociedade, o que rouba aos indivíduos liberdade, senão mesmo, em última instância, a própria existência física, como o demonstram os totalitarismos revolucionários do século passado.

VII. A teoria política (19) deriva não tanto de alguma proposta contrária ao estado de coisas analisado nesses estudos de crítica cultural, mas de adaptação metodológica(20) ao tipo específico de objeto da ciência social. Sua premissa fundamental é a de que poder (21) é possibilidade de ação, em sentido geral, mas na política tem o sentido estrito de possibilidade de determinar a ação alheia. Em sentido universal o homem só tem três poderes, o de gerar, destruir e escolher, que correspondem respectivamente ao poder econômico, o poder militar e o poder intelectual ou espiritual, os quais podem ser exercidos ativa e passivamente e correspondem tipologicamente às castas dos produtores, dos nobres e dos sacerdotes. O primeiro se exerce pela promessa de um benefício, o segundo pela ameaça de um malefício e o terceiro pelo convencimento ou cooptação. Em cada civilização, os três tipos de poderes tendem a se cristalizar em grupos específicos (hoje em dia seriam, em ordem respectiva, o globalismo ocidental, a aliança russo-chinesa e o Islã), mas a especificação de quais são estes grupos é procedimento posterior à detecção de quem pode ser sujeito da história (22): não podendo ser um agente individual, porque perecível a curto prazo e limitado geograficamente em sua ação, só o podem ser as tradições, as organizações esotéricas (ou sociedades secretas), as dinastias reais e nobiliárquicas ou demais entidades de natureza similar. Assim, Igreja Católica e movimento revolucionário, nessa acepção específica, são sujeitos da história, mas não São Francisco nem Lênin. O poder realmente decisivo, a longo prazo, é o de ordem sacerdotal ou intelectual.

VIII. Essa multiplicidade de assuntos e disciplinas recoberta na produção de um único filósofo não é fortuita. Ele mesmo define filosofia (23) como a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Qualquer outra definição quedaria parcial, tornando difícil apontar no que se distinguem fundamentalmente um filósofo e um cientista, um filósofo e um poeta (24). O cientista pode produzir conhecimento sem que para tanto tenha de se empenhar no resgate confessional pelo qual cada novo dado conhecido se integra ao conjunto daquilo que ele, enquanto indivíduo, é naquele momento; o poeta pode produzir uma obra só com base em intuições manifestamente contrárias à sua índole e à própria verdade, pois o que lhe importa é a unidade daquele momento expressivo. O filósofo não se limita a nada disso, pois seu esforço é direcionado por uma técnica filosófica específica, que consiste em sete pontos:

1. A anamnese pela qual o filósofo rastreia a origem das suas ideias e assume a responsabilidade por elas.

2. A meditação pela qual ele busca transcender o círculo das suas ideias e permitir que a própria realidade lhe fale, numa experiência cognitiva originária.

3. O exame dialético pelo qual ele integra a sua experiência cognitiva na tradição filosófica, e esta naquela.

4. A pesquisa histórico-filológica pela qual ele se apossa da tradição.

5. A hermenêutica pela qual ele torna transparentes para o exame dialético as sentenças dos filósofos do passado e todos os demais elementos da herança cultural que sejam necessários para a sua atividade filosófica.

6. O exame de consciência pelo qual ele integra na sua personalidade total as aquisições da sua investigação filosófica.

7. A técnica expressiva pela qual ele torna a sua experiência cognitiva reprodutível por outras pessoas. (25)
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REFERÊNCIAS

(1) Esboço de um Sistema de Filosofia, apostila do Seminário de Filosofia [doravante referido como SdF]. (2) O trauma de emergência da razão, Curso de Astrocaracterologia (1990-1992).(3) As doze camadas da personalidade humana e as formas próprias de sofrimento, apostila do SdF; Curso Conceitos Fundamentais da Psicologia (4 a 19 de setembro de 2009, Virginia). (4) O que é psique, apostila do SdF. (5) Aula 32 do Curso On-Line de Filosofia [doravante referido como COF] (14/11/2009). (6) Aula 2 do COF (21/03/2009). (7) A Filosofia e seu Inverso & Outros Estudos (Vide, 2012); Aulas 9 (06/06/2009) e 13 (04/07/2009) do COF. (8) Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos (Vide, 2013). (9) Como vencer um debate sem precisar ter razão: Comentários à dialética erística de Arthur Schopenhauer (Topbooks, 1997). (10) Edmund Husserl Contra o Psicologismo (IAL, 1996; apostila); Curso Filosofia da Ciência I (10 a 15 de maio de 2010, Virginia). (11) Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos (in A Dialética Simbólica: estudos reunidos, É Realizações, 2007). (12) Sobre o mundo dos princípios, aula do SdF (20/04/2009). (13) O problema da verdade e a verdade do problema, apostila do SdF (20 de maio de 1999); Conhecimento e presença, apostila do SdF (27/09/99); Aula 10 do COF (13/07/2009). (14) A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci (IAL, Stella Caymmi, 1994); O Imbecil Coletivo I: Atualidades Inculturais Brasileiras (É Realizações, 2006); O Imbecil Coletivo II: A longa marcha da vaca para o brejo (É Realizações, 2008); O Jardim das Aflições: de Epicuro à ressurreição de César. Ensaio sobre o materialismo e a religião civil (É Realizações, 2000); O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota (Record, 2013). (15) Esboço de um sistema de filosofia, apostila do SdF; aula 32 do COF. (16) A tripla intuição, apostila do SdF. (17) Introdução à paralaxe cognitiva, transcrição de aula de 26/08/2006, São Paulo; Maquiavel, ou A Confusão Demoníaca (Vide, 2011).(18) A Estrutura da Mentalidade Revolucionária, conferência realizada em Bucareste, 16/06/2011; Resumo de A Mente Revolucionária, partes I e II, SdF (19/06/2009). (19) Curso Teoria do Estado, em 11 aulas, PUC-PR (2003-2004); Os EUA e a Nova Ordem Mundial (Vide, 2012) [debate com Alexander Dugin]. (20) Problemas de método nas ciências humanas, apostila do SdF. (21) Teses sobre o Poder, apostila do SdF. (22) Quem é o sujeito da história?, apostila do SdF. (23) A Filosofia e seu Inverso. (24) Poesia e Filosofia, in A Dialética Simbólica.(25) A Filosofia e seu Inverso, p. 133.

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Este é um esboço grosseiro, sumário e bastante pessoal do que se poderia chamar e que tanto mais é assim chamada quanto mais se a desconhece de a obra de Olavo de Carvalho. Não é uma síntese dela, mas é pelo menos um mapa preliminar, pelo qual só eu respondo (creio que ao próprio Olavo não agradaria). Tomei a iniciativa de desenhá-lo, com todas as falhas e omissões que aí se assinalarem (muita coisa ficou de fora), pensando no leitor que, lendo O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, o mais recente livro de Olavo de Carvalho (org. Felipe Moura Brasil), pudesse de certa forma perceber a unidade mais ampla que os 193 textos do livro testemunham e, dessa forma, se interessar em conhecer melhor a obra do homem. Tomando por paralelo as seções desses elementos da filosofia de Olavo de Carvalho, eu apontaria os seguintes textos do livro como os mais relevantes aos respectivos temas:

I O poder de conhecer, p. 38; A mensagem de Viktor Frankl, p. 49; Redescobrindo o sentido da vida, p. 53; Um capítulo de memórias, p. 91.

II Sem testemunhas, p. 41.

III Quem eram os ratos?, p. 261; Da fantasia deprimente à realidade temível, p. 324; O testemunho proibido, p. 405; Como ler a Bíblia, p. 409; Debatedores brasileiros, p. 456; Zenão e o paralítico, p. 460.

IV Jesus e a pomba de Stalin, p. 355; Espírito e personalidade, p. 610.

V Espírito e cultura: o Brasil ante o sentido da vida, p. 59; A origem da burrice nacional, p. 67; Cavalos mortos, p. 94; Os histéricos no poder, p. 96.

VI Que é ser socialista?, p. 119; A mentalidade revolucionária, p. 186; Ainda a mentalidade revolucionária, p. 191; A mentira estrutural, p. 196; A revolução globalista, p. 159; A fossa de Babel, p. 287; A ciência contra a razão, p. 393.

VII Os donos do mundo, p. 541; O que está acontecendo, p. 543; Quem manda no mundo?, p. 545; Salvando o triunvirato global, p. 570; História de quinze séculos, p. 168; Onipresente e invisível, p. 162; Lula, réu confesso, p. 472.

VIII A tragédia do estudante sério no Brasil, p. 595; Se você ainda quer ser um estudante sério…, p. 599; Pela restauração intelectual do Brasil, p. 604.

Dito isso, de resto afirmo que O mínimo…, se bem lido, pode ser uma boa introdução ao estudo sério do pensamento de Olavo de Carvalho (embora seja bastante óbvio que a maior parte dos textos se integre só a uma terça parte da obra do filósofo a de crítica cultural; as duas outras, a de história da filosofia e de produção filosófica propriamente dita, têm de ser buscadas em outros livros e cursos). A organização que Felipe Moura Brasil deu aos textos é primorosa, em seções e subseções, apondo-lhes ainda notas muito elucidativas (às quais se somam, também boas, as do editor). Um único defeito tenho a notar: a ausência de um índice remissivo. Um bom índice tornaria o livro uma ferramenta de consulta e até de estudo, limitado que seja bastante eficiente, com entradas onomásticas e temáticas, o que seria ao fim bom complemento ao sumário já formidavelmente bem estruturado que encontramos ao começo. Seria uma felicidade ver essa ausência sanada em uma edição futura do livro.

Finalmente, e agradecendo-lhes a paciência: desejo a todos uma boa leitura.

                                                                                                                                                             Ronald Robson

Quem é você?

Eric Voegelin observa que, no “Górgias”, Sócrates sugere que, em vez de perder-se em temas abstratos, façam logo ao filósofo visitante a “pergunta decisiva”:
— Quem é você? 
“Essa é — prossegue Voegelin — a pergunta que, para sempre, o intelectual ignóbil será incapaz de enfrentar.”
Sugiro que façam essa pergunta a todos os palpiteiros midiáticos e acadêmicos. Será um festival de poses e futilidades como nunca se viu.
Se perguntarem a mim, a resposta é simples:
— Sou o sujeito que mergulhou na confusão até conseguir descrevê-la e, assim, erguer-me um pouquinho — só um pouquinho — acima dela.
Platão nos ensinou a reconhecer sempre, num debate, a diferença entre a expressão honesta de uma experiência existencial profunda e os meros argumentos intelectuais. Mas abaixo dos argumentos intelectuais existe a sua macaqueação histriônica, e ainda abaixo dela o deboche baseado em clichês. CEM POR CENTO da contribuição dos “críticos do Olavo de Carvalho” ao debate nacional compõem-se destes dois últimos tipos de falas.