A VOLTA DA ASTROLOGIA

Ainda hoje, quando falamos em astrólogos, muita gente pensa em homens sinistros de chapéus pontudos, a contemplar o céu de suas altas torres e a interpretá-lo segundo seus delírios. E, no entanto, eles já estão penetrando nos gabinetes e laboratórios da ciência, misturando-se entre químicos, biólogos, meteorologistas, médicos e financistas. . .

No século passado, Carl Gustav Jung anunciou a volta da astrologia às cátedras universitárias. Na época, isso era verdade apenas em algumas raras escolas de psicologia na Suíça, onde pioneiros corajosos, como o próprio Jung, incentivavam ou promoviam cursos semi-oficiais de astrologia, à noite, para os futuros clínicos, sob os olhos complacentes dos velhos reitores.

Hoje, a Universidade de Stanford, a Escola Técnica Superior de Zurique e mais sete universidades em todo o mundo promovem estudos regulares sobre a astrologia. Na Universidade de Paris (e a França é o pais mais conservador face a astrologia), o professor Robert Jaulin, no curso de etnologia, concede “créditos” suplementares aos alunos que frequentam aulas de astrologia, e outro etnólogo, Jacques Halbronn, fundos o Movimento Astrológico Universitario, que reúne centenas de estudantes e professores da mesma universidade, e promoveu o último Congresso de Astrologia, em Paris. Desse congresso participaram figuras do porte de um Eric Weil, professor de filosofia em Louvain e pensador de renome universal.

Que é que houve? Mudou a astrologia ou a opinião maciça dos intelectuais está realizando um ‘mea culpa’ coletivo perante a arte de Ptolomeu e Kepler, que ainda há algumas décadas era considerada apenas uma diversão de excêntricos amalucados ou prática excusa para iludir a boa fé popular? De onde proveio essa revolução, transformando o que ontem era engodo e ilusão no que hoje é pesquisa profunda e reflexão grave?

Em 1666, expulsa das cátedras universitárias

Para começo de conversa, quem expulsou a astrologia das cátedras universitárias não foi o avanço da ciência, como normalmente se supõe, mas uma interpretação apressada das descobertas de Copérnico. A expulsão foi decretada em 1666, por Colbert, ministro de Luís XIV, com a alegação de que a astrologia não tinha fundamento cientifico.

Na realidade, a ciência da época não tinha condições mínimas para averiguar isso realmente, e a primeira pesquisa estatística sobre o assunto foi feita só trezentos anos depois. O que Colbert supôs foi que, como os horóscopos eram desenhados geocenteicamente – isto é, com a Terra no meio, e o Sol, a Lua, os signos e os Planetas em torno – não podiam funcionar, já que Copérnico havia demonstrado que o que estava no centro era o Sol e não a Terra.

Colbert simplesmente não percebeu que o horóscopo não era propriamente geocêntrico mas antropocéntrico, isto é, que representava o universo centralizado não na Terra enquanto realidade física, mas no Homem, no indivíduo. O horóscopo não era um mapa físico do universo (embora fosse também isto), mas um mapa do seu significado, um mapa do sentido do universo, tal como este se apresentava para determinado indivíduo na hora e no local em que este nascia. Para esses fins, o centro do universo, o centro da experiência individual, continuava a ser obviamente a Terra (excetuando-se a hipótese de o consulente ter nascido em Marte ou na Estrela Vega), e o próprio Kepler, que calculou as órbitas heliocêntricas dos planetas, continuou a desenhar horóscopos geocentricamente até o fim dos seus dias.

Enquanto o mapa astronômico era inteiramente objetivo e material, o mapa astrológico era ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, tal como as mandalas tibetanas, que representam ao mesmo tempo o círculo do universo exterior e o interior do homem. Esta sutileza escapou a Colbert. As universidades alemãs e suíças, mais sensatas, preferiram deixar abertas suas cátedras de astrologia, embora sem ocupantes, e foi esta brecha que permitiu a Jung anunciar uma volta triunfal.

Em 1945, reabilitada pelas provas estatísticas

Essa volta não seria nada triunfal, entretanto, se não se houvesse descoberto, pouco depois, provas eloqúentes de que a relação astroHomem não é uma pura fantasia.

Essa descoberta veio quando, em 1950, o pesquisador francês Michel Gauquelin resolveu tirar a limpo, pela estatística (sua especialidade acadêmica), a questão das “influências astrais”. Desde o começo do século, o grande astrólogo Paul Choisnard pedia aos estatísticos que fizessem isso. Mas era muito difícil, porque um único mapa astrológico (feito para a hora, data e local de nascimento de um indivlduo) tem mais de mil fatores a serem levados em ponta.

Por volta de 1945, outro astrólogo, Léon Lasson, conseguiu finalmente formular um bom método de aplicar a estatística à astrologia. Gauquelin aperfeiçoou esse método e o empregou numa pesquisa que abrangeu cinco mil mapas astrológicos.

A pesquisa submeteu à prova uma única doutrina astrológica, porém antiga e fundamental: a de que não só determinados planetas estão associados a determinadas profissões (Júpiter à política e ao teatro, Saturno à ciência, Marte aos esportes e artes militares, Lua à literatura), como também tais planetas exercerão uma influência mais intensa, se no instante do nascimento do indivíduo estiverem colocados em determinados pontos privilegiados do céu. Esses pontos são, segundo a doutrina, o ascendente, que é a parte mais oriental da linha do horizonte, e o meio-do-céu, que é o ponto mais alto do Zodíaco (faixa dos signos) em relação a determinado lugar da Terra.

Se a teoria estivesse certa, pensou Gauquelin, determinados planetas estariam com maior frequência no ascendente e no meio-do-céu no nascimento das pessoas cujas profissões estivessem relacionadas com esses planetas, do que no nascimento das outras pessoas. Saturno estaria com mais freqüência no ascendente e meio-do-céu dos cientistas, Marte no dos militares, Júpiter no dos políticos e atores, etc. Inversamente, seria raro um Saturno no ascendente ou meio-do-céu dos esportistas ou atores, e assim por diante. Mais ainda: seria preciso que essa freqüência ultrapassasse a média do acaso (no jargão dos estatísticos: feeqüência teórica) de maneira significativa, para se poder acreditar que o fenômeno fosse algo mais do que mera coincidência.

Do ponto de vista cientifico, a hipótese a ser testada era um absurdo completo, mas as estatisticas foram mais favoráveis ao absurdo do que ao ponto de vista científico. Com uma freqüência que só seria possível atribuir ao acaso com uma possibilidade de 1 contra 10 milhões (isso mesmo), os planetas estavam lá onde os astrólogos diziam que estariam: Júpiter no ascendente e meio-do-céu dos atores e políticos, Saturno no dos cientistas, Marte no dos esportistas e militares, Lua no dos escritores. Inversamente, a Lua não estava no ascendente nem no meio-do-céu de quem não era escritor, Marte no de quem não era militar, etc.

Embora tudo isso parecesse uma trama diabólica dos astros para confundir o bom senso dos pobres cientistas, Gauquelin, com exemplar honestidade intelectual, publicou os resultados da pesquisa, que se tornaram imediatamente motivo de escândalo e protestos gerais. O diretor do Instituto Nacional de Estatística da França, Jean Porte, convidado pelos adversários de Gauquelin a desmascarar a farsa toda, refez os cálculos e informou depois de algum tempo: lamentavelmente, os cálculos estavam certos. Ainda assim, Gauquelin refez a pesquisa, desta vez reunindo nada menos que 25.000 mapas, na França, na Bélgica, na Holanda, na Itália e na Alemanha, e chegou novamente aos mesmos resultados. Novamente Jean Porte refez as contas, e novamente elas estavam impecáveis.

Recentemente, nos Estados Unidos, a revista The Humanist publicou um abaixo-assinado de 186 cientistas contra a astrologia. Em resposta, vieram centenas de cartas a favor, e The Humanist resolveu arbitrar a questão promovendo uma pesquisa igual à de Gauquelin, com amostragem menor mas controle estatístico maior. Os resultados, pela terceira vez, foram os mesmos. (No Brasil, durante um debate na TV, o abaixo-assinado de The Humanist foi exibido como o sumo argumento antiastrológico por um psiquiatra, que obviamente não contou a continuação da história . . .

Agora, resta saber qual e natureza do fenómeno

Todos os debates que houveram serviram para mostrar que a astrologia é um assunto infinitamente mais completo do que seus opositores jamais imaginaram.

Exemplo. Quando não pôde mais negar os resultados da pesquisa, o mais feroz adversário francês da astrologia, o astrônomo Paul Couderc, então chefe do Observatório de Paris, julgou ter descoberto um argumento fulminante ao declarar que uma correlação era uma coisa, e um mecanismo de causa e efeito, outra; que a pesquisa Gauquelin havia estabelecido uma correlação entre os astros e o Homem, mas não havia de modo algum provado que os astros causam as ações humanas, “como pretendem os astrólogos”.

Os astrólogos limitaram-se a exibir os textos clássicos da sua arte, desde a Tábua de Esmeralda de Hermes Trimegisto (milênios anterior a Cristo) e as Enéadas de Plotino (século 39) até os tratados de Paracelso (século 15), Kepler (século 16) e Robert Fludd (século 17), em que por toda parte se explica a relação entre os astros e os homens como um processo de semelhança, de analogia, de simpatia, de correlação, de sincronismo, e nunca de causa e efeito.

E completaram: nenhum astrólogo jamais disse que os astros causam as ações humanas, pela simples razão de que o principio de causa e efeito, tão importante para o cientista materialista, é, para os astrólogos, um principio menor e secundário. O princípio maior é a lei de analogia, mediante a qual o grande e o pequeno, o macrocosmo e o microcosmo, a matéria e a consciência, têm uma estrutura e uma dinâmica semelhante, já que são apenas faces diversas do mesmo fenômeno.

O pobre Couderc jamais imaginou que estivesse mexendo num vespeiro tão grande. Desde essa época, praticamente cessou a polêmica rasteira tipo pró-e-contra a  astrologia, e desencadeou-se um debate teórico de alto nível sobre a natureza do fenômeno revelado pela pesquisa Gauquelin. Se não se tratava de uma relação de causa e efeito, que relação era então? Um sincronismo, como pretendia Jung? Ou, como afirmava o próprio Gauquelin, tenaz estudioso dos biorritmos, existe em cada ser vivo um “relógio cósmico” que o torna receptivo a todos os ritmos do universo ao seu redor? Qual era precisamente o sentido com que os antigos falavam em “analogia”?  Não seria a analogia um instrumento mental utilizável pela ciência, para a análise de fenômenos demasiado grandes e complexos, como a dinâmica da vida social e política, os grandes sistemas ecológicos, a economia das grandes nações? Não teriam os antigos astrólogos tido, milênios atrás, a intuição de um método cientifico para a abordagem de grandes problemas? Não teriam feito, como disse Lucien Malavard, “ciências humanas avant Ia lettre”? Esse é hoje o grande debate astrológico, que envolve algumas das questões mais contundentes e vivas da cultura contemporânea e ocupa alguns dos melhores cérebros da atualidade.

Os astros na religião, na biologia, nas finanças . . .

Paralelamente, prosseguiram as pesquisas. No campo da história, foi possível obter uma vasta coleção de evidências em favor da tese da astróloga Marcelle Senard (e de todos os astrólogos tradicionalistas), segundo a qual o Zodíaco é uma espécie de chave universal de todas as religiões.

Aplicando um método estrutural a praticamente todas as religiões e mitologias do mundo, o historiador Jean-Charles Pichou descobriu que existem apenas doze mitos básicos em todos os povos e lugares, e que esses mitos se sucedem segundo uma ordem mais ou menos regular.

Essas estruturas básicas são nada menos que os doze signos do Zodíaco. O trabalho de Pichou é demasiado revolucionário e demasiado volumoso para poder ser endossado ou contestado em bloco, mas certamente permanecerá como um clássico na historiografia das religiões.

Os biólogos também descobriram algumas coisas agradáveis aos astrólogos. Primeiro, simples correlações entre ciclos planetários e o metabolismo de animais e plantas estabelecidas por Frank A. Brown, da Northwestern University, EUA (o que não tem valor astrológico direto, mas constitui indicio favorável ao tipo de interdependência postulado pelos astrólogos, e que até 40 anos atrás era considerado mera ficção). Depois, um vendaval de confirmações da antiga correlação – esta, puramente astrológica – entre a lua e a fertilidade. Um pesquisador tcheco, Eugen Jorias, médico e astrólogo, chegou a estabelecer um processo astrológico de previsão de períodos de fertilidade das mulheres pela posição da Lua no instante do seu nascimento. Uma pesquisa feita pelo governo tcheco encontrou 94 por cento de acerto no método Jonas.

Em seguida, o neurologista Leonard Ravitz, da Duke University, descobriu que mudanças marcantes de potencial elétrico emitido pelo corpo humano ocorriam segundo as fases da Lua e, mais ainda (coerente com a doutrina astrológica de que a Lua está relacionada com as doenças mentais, donde a palavra lunático), que nos pacientes psicóticos tais mudanças eram nitidamente mais agudas do que nas pessoas mentalmente sadias.

Mais recentemente o economista norte-americano L. Peter Cogan procurou averiguar em que medida os ciclos de pessimismo e otimismo dos investidores, com reflexos nítidos na bolsa de valores, coincidiam com posições planetárias. Abarcando o período de 1873 a 1966, seu estudo concluiu que tais ciclos respondiam simetricamente às posições do Sol com relação a Saturno e Urano (planetas que, segundo a astrologia, regem o capitalismo). Os ciclos de pessimismo correspondiam às relações de 180 e 90 graus (ângulos “maléficos”, segundo a tradição astrológica).

“Bem-aventurado aquele que pode ler no céu estrelado”

Ao lado disso, o médico holandês Nicholas Kollerstrom, pesquisador do Medical Research Hospital de Londres, refazendo uma experiência do filósofo Rudolf Steiner, de
monstrou que certas reações químicas com tons metálicos têm seu resultado alterado quando realizadas sob determinadas conjunções planetárias. Kollerstrom observa que os planetas que tiveram o poder de alterar essas reações foram precisamente aqueles que, segundo a tradição astrológica, estão relacionados com os metais que, em solução, ele usou na experiência. Saturno, cujo metal tradicional é o chumbo, alterava as reações com sulfato de chumbo, e ficava indiferente às demais; a Lua, cujo metal é a prata, só mexia com o nitrato de prata; Vênus só alterava o sulfato de cobre, já que seu metal é o cobre; e Marte, que rege o ferro, alterava as reações de sulfato de ferro.

Paralelamente, médicos e biólogos de todo o mundo vêm estudando, até sob o patrocínio da Unesco, as relações entre os ciclos planetários e os ritmos biológicos e emocionais humanos, sob o nome de biometeorologia ou de biopsicometeorologia.

Diante da convergência de tantos caminhos em direção a um fenômeno que há algumas décadas era negado em bloco, os entusiastas da conexão entre homens e astros exultam de alegrias e esperanças. Mas o que importa não é isso, e sim estudar esse fenômeno, aprender a contempla-lo e a compreendê-lo. Épocas inteiras o ignoraram. Kant e sua época viam acima de si o céu estrelado e dentro de si a lei moral. Viam um universo dividido, onde a necessidade interior do homem, a lei moral, não tinha nenhuma relação com a realidade objetiva. Até muito recentemente foi assim.

Assim no inicio do século XX, entre os horrores da Grande Guerra, o pensador materialista Georg Lukacs dizia: “Bem-aventuradas as épocas que podem ter no céu estrelado o mapa dos caminhos que lhe estão abertos! Bem-aventuradas as épocas cujos caminhos são iluminados pela luz das estrelas! Para elas, tudo é novo, e entretanto familiar! Tudo é aventura, e tudo lhe pertence, pois o fogo que arde em suas almas é da mesma natureza das estrelas”. Ao redescobrir a pista das relações entre o cosmo e o Homem, nossa época recomeça a ver, depois de uma longa escuridão, a lei moral no céu estrelado e as estrelas no coração do Homem.

http://www.imagick.org.br/pagmag/themas2/astro.html

ENTREVISTA DE OLAVO PARA A BBC. Um perfil jornalístico razoável e honesto pode ser feito por quem não gosta ou acha o entrevistado esquisito. Mesmo reduzindo o filósofo a um polemista influente nas opiniões políticas, o conjunto das frases oferece uma visão aproximada do Olavo que conhecemos, o que já coloca esta entrevista léguas acima da imprensa brasileira e de Frangonaldo, a Ave Azeda (a não ser pelo inevitável enfoque subjetivista: tudo é “disse que”, mesmo aquilo que o repórter poderia comprovar se quisesse). O jornalista também não pescou que “parteiro” remete a Sócrates e à maiêutica; e a expressão “c’ést moi”, a Luiz XIV…


http://www.bbc.com/portuguese/brasil-38282897?SThisFB


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JOÃO FELLET Image caption
Olavo de Carvalho tornou-se ‘porta de entrada’ para novos conservadores no Brasil e se diz responsável manifestações de rua recentes

Quando se mudou há alguns meses para que sua casa fosse reformada, o escritor e filósofo Olavo de Carvalho fez questão de levar toda a sua coleção de armas para a residência temporária, no sul do Estado da Virgínia (EUA).

Sobre a cama onde dorme, afixou uma espingarda Remington calibre 12. No cômodo vizinho, ao lado de uma caixa com brinquedos, espalhou mais de 30 rifles de caça. Em frente à mesa onde trabalha, pendurou pistolas e revólveres.

É dali que Carvalho faz as transmissões diárias de seu curso de filosofia, escreve para cerca de 500 mil seguidores nas redes sociais e trava os embates que o tornaram uma das figuras mais conhecidas e controversas da corrente que vem sendo chamada de nova direita brasileira – grupo ao qual, paradoxalmente, diz não pertencer.

“Eu quis que uma direita existisse, o que não quer dizer que eu pertença a ela. Fui o parteiro dela, mas o parteiro não nasce com o bebê”, afirma. “Estou contra o comunismo e quero que o Brasil tenha uma democracia representativa efetiva”, diz.

Nascido em Campinas (SP) há 69 anos, professor de filosofia sem jamais ter concluído um curso universitário e adepto da teoria de que a “a entidade chamada Inquisição é uma invenção ficcional de protestantes”, Carvalho acumula desafetos com a mesma intensidade com que é defendido por seus admiradores.

O filósofo recebeu a BBC Brasil na casa modesta de dois andares onde está morando num bairro arborizado de Petersburg, cidade histórica com 30 mil habitantes. Crítico feroz do PT, ele reagiu à queda de Dilma Rousseff com ceticismo. No Facebook, escreveu que o impeachment não passou de uma “manobra para a salvação da classe política”.

Elogia Michel Temer ao mesmo tempo em que diz considerar seu governo ilegítimo. “Sem dúvida, é melhor que a Dilma – pelo menos sabe falar português, é um homem de uma certa cultura – e não se pode negar que na área econômica está fazendo aguma coisa que tem de fazer mesmo.”

Mas diz que, vice na chapa de Dilma, o presidente “não tem rabo preso, ele é um rabo preso”, e que a dupla se reelegeu num pleito com “transparência nenhuma”. “O governo é 100% ilegítimo. Não estou dizendo que há ou houve fraude eleitoral, o sistema que montaram já era uma fraude.”

Estrutura de poder

Expulso o PT do governo, Carvalho diz que a direita brasileira começa a se organizar nas ruas. Perguntado a que se deve a transformação, responde em francês: “C’est moi” (Sou eu).

Segundo o escritor, foram seus livros que encorajaram outros conservadores a sair do armário. Mas ele diz que o país ainda não tem uma “representação institucional da direita”, como jornais diários, universidades ou partidos que defendam o liberalismo econômico e valores tradicionais.

“Você tem de um lado 20 partidos de esquerda e do outro um ou outro cara que se diz de direita, mas nem sabe direito o que é isso”, afirma, entre goles de café e cigarro entre os dedos.

Segundo Carvalho, a esquerda dominou a imprensa e as universidades brasileiras há várias décadas em estratégia que seguia o suposto ideário do marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937). O objetivo, diz ele, era criar uma “atmosfera mental” em que a população se tornasse socialista sem perceber.

“No fim, conquistaram tudo: os partidos políticos um por um, eliminaram todas as opções possíveis através de denúncias de corrupção, queimaram milhares de reputações, ficaram sozinhos no meio do campo e conquistaram a cereja do bolo, a Presidência da República”, diz.

O filósofo afirma que “atualmente é obrigatório estar na direita”, mas que não mantém “compromisso com nenhuma política em particular”.

Para ele, mais importante que tirar o PT do poder é “quebrar o sistema” e implantar no Brasil uma “democracia plebiscitária”, em que o governo submeta suas propostas a referendos constantes. O filósofo diz que o modelo foi aplicado na França por Charles de Gaulle, nos anos 1960.

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JOÃO FELLET
Image captionFilósofo mora atualmente em Petersburg, cidade com 30 mil habitantes vizinha a Richmond, no Estado de Virgínia

Racha na direita

As opiniões de Carvalho sobre o impeachment agravaram um racha entre o escritor e outras vozes influentes da direita com quem ele manteve boas relações no passado, como o colunista da revista Veja Reinaldo Azevedo e o economista Rodrigo Constantino.

Para Azevedo, ao defender uma democracia plebiscitária, Carvalho propõe a mesma agenda que o PT gostaria de implantar no Brasil. Alguns analistas compararam o modelo ao que foi adotado por Hugo Chávez na Venezuela.

Em artigo em que chama o filósofo de “mascate da paranoia” e de “Aiatolavo” (em referência ao aiatolá, líder religioso dos muçulmanos xiitas no Irã), Azevedo diz que Carvalho “se alimenta do insucesso dos que lutam contra a esquerda”.

Para Carvalho, Azevedo e outros desafetos almejam ser representantes da direita e têm ciúmes de seu pioneirismo. “O pessoal comunista nunca mentiu a meu respeito tanto quanto essa turma da direita emergente”, diz.

“Eu não quero ser representante de direita nenhuma, só fiz meu serviço que era abrir o espaço para eles poderem falar. Naturalmente, quando você destampa, aparecem junto com as flores as cobras, aranhas, lagartos, lacraia, toda a porcaria vem junto.”

Carvalho também critica o Movimento Brasil Livre (MBL), que após militar pela queda de Dilma teve alguns de seus membros se lançando na política institucional. De acordo com o site do MBL, nove de seus integrantes se elegeram por cinco partidos diferentes (um deputado federal e oito vereadores).

Segundo o escritor, a direita deveria se concentrar em ocupar espaços não no Estado, mas “na igreja, nas escolas, nas sociedades de amigos do bairro, no clube: é ali que está o poder”.

“Os comunistas sempre souberam disso. O pessoal da direita chegou agora, leu três artigos do Olavo de Carvalho, já acha que sabe tudo e quer ser senador, presidente da República. Um bando de palhaços, evidentemente.”

O MBL não respondeu ao pedido da BBC Brasil para comentar a fala do filósofo. O Instituto Liberal e o Vem pra Rua, outras organizações influentes entre conservadores, tampouco quiseram se pronunciar sobre Carvalho e sua obra.

‘Pai espiritual’

Para o filósofo Pablo Ortellado, professor de políticas públicas da USP, o escritor é uma espécie de “pai espiritual da nova direita” brasileira. “Num momento em que ninguém se reivindicava como direita, ele foi um cavaleiro solitário, e essa pregação no deserto rendeu grandes frutos”, afirma.

Mas ele diz que Carvalho perdeu influência por ter “brigado com todo mundo” e não ter participado da construção dos grupos que hoje ditam os rumos do movimento.

Para a cientista política Camila Rocha, que estuda a história de think tanks (centros de pesquisa e debates) conservadores no Brasil, Carvalho “foi e ainda é a porta de entrada para boa parte da militância da direita” brasileira e soube usar a internet para se projetar.

Além de um site em que divulga entrevistas e artigos, ele fundou o portal “Mídia Sem Máscara” e já teve um podcast. Hoje mantém contas no Facebook, no Twitter e no YouTube (a filha Leilah Carvalho o ajuda nos vídeos, e Roxane Andrade de Souza, sua terceira esposa, lhe dá o “apoio logístico”). Em várias transmissões, interage com o músico Lobão, a quem já elogiou não pelas canções, mas pelos atributos como escritor.

“De todos os autores que vêm aparecendo no mercado editorial, o Lobão é de longe o que escreve melhor”, disse no Facebook.

Em seu último livro, Em busca do rigor e da misericórdia, Lobão dedica um capítulo ao filósofo e comenta a “improbabilidade do encontro entre um roqueiro tido como doidão e Olavo de Carvalho dar certo”.

“Porém, para minha agradável surpresa, desde nossa primeira conversa percebi que falava com alguém doce, afetuoso, atencioso, engraçadíssimo e, como já sabia, absolutamente brilhante.”

Quando um vídeo do filósofo saiu do ar em abril, Lobão protestou no Twitter: “A AULA DO OLAVO DE CARVALHO SOFREU UM ATAQUE DEVASTADOR E SAI DO AR! ESPALHEM! CENSURA DO PT”.

Revolução Comunista

Um dos pilares do discurso político de Carvalho trata do papel do Foro de São Paulo, conferência criada em 1990 pelo PT para debater os rumos da esquerda latino-americana após o fim da União Soviética.

Entre vários outros movimentos de esquerda, o foro abriga os partidos que hoje governam os membros da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), entre os quais Cuba, Equador, Bolívia, Nicarágua e Venezuela. Segundo o filósofo, o foro deu ao PT o “comando estratégico da revolução comunista na América Latina”.

Para Carlos Melo, professor de ciência política do Insper, em São Paulo, a ideia de que o foro articula a esquerda latino-americana é um “mito criado para tentar aglutinar o lado oposto”. Ele diz que derrotas recentes da esquerda em vários países da região mostram que o foro não é tão poderoso assim.

“Houve uma onda da esquerda na América Latina e agora, ao que tudo indica, haverá uma onda conservadora. São processos naturais, a história funciona dentro de ciclos.”

O discurso que identifica o PT com o comunismo, porém, se espalhou. Em abril de 2015, num protesto contra Dilma na avenida Paulista, uma pesquisa de Pablo Ortellado e da socióloga Esther Solano revelou que 64,1% dos presentes concordavam com a afirmação de que o “PT quer implantar um regime comunista no Brasil”, e 55,9% respaldaram a frase “O Foro de São Paulo quer criar uma ditadura bolivariana” no país.

Naquele dia e em outros protestos, manifestantes portavam cartazes com a expressão “Olavo tem razão”, difundida por fãs do escritor nas redes sociais.

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MATHEUS BAZZO/DIVULGAÇÃOImage caption
Carvalho é tema de documentário que acompanha sua rotina, mas filme foi recusado em festivaisEsoterismo islâmico e astrologia

Nos anos 1980, antes de se projetar no debate político brasileiro, Carvalho flertou com a Escola Tradicionalista, corrente de pensadores e estudiosos da religião preocupados com o que consideravam um declínio das formas tradicionais de conhecimento do Ocidente.

“Ao longo da minha vida, fui me abrindo a tudo quanto é influência que pudesse de algum modo me ajudar a compreender as coisas”, afirma.

Naquela época, ele aderiu à tariqa (ordem mística muçulmana) liderada pelo alemão Frithjof Schuon (1907-1998), um dos expoentes do movimento e que aceitava em seu grupo adeptos de diferentes religiões.

Carvalho deixou a tariqa tempos depois, mas diz que a experiência foi “absolutamente indispensável” para sua formação. Hoje, lamenta a expansão do islã na Europa e nos Estados Unidos.

Em outro desvio na carreira, no fim dos anos 1970, trabalhou como astrólogo em São Paulo. Do signo de Touro, diz que a astrologia “é um tremendo problema científico que nunca foi tratado seriamente”.

“Algo na astrologia tem algum fundamento – algo, não sei exatamente o quê”, diz. No fim, chegou à conclusão “de que o problema era grande demais para mim”.

Hoje Carvalho se reaproximou da Igreja Católica, onde diz ter sido criado. Assiste à missa, reza o Pai Nosso antes das refeições e diz praticar a caridade. “Não me lembro ao longo da minha vida de alguém ter pedido minha ajuda e eu ter recusado.”

As opiniões do filósofo sobre o papel da Igreja Católica na Inquisição lhe renderam críticas entre evangélicos. Carvalho escreveu no Twitter em 2013 que “a entidade chamada Inquisição é uma invenção ficcional de protestantes”.

“Até mesmo na imagem popular das fogueiras da Inquisição a falsidade domina. Todo mundo acredita que os condenados ‘morriam queimados’, entre dores horríveis. As fogueiras eram altas, mais de cinco metros de altura, para que isso jamais acontecesse.”

De acordo com ele, os hereges – “menos de dez por ano em duas dúzias de países” – morriam sufocados antes que as chamas os atingissem. Criticado nas redes sociais pela afirmação, indicou uma “bibliografia mínima” sobre o assunto.

Dois anos depois, xingou Lutero e Calvino, principais líderes da Reforma Protestante. “A Igreja Católica superlotou-se de filhos da puta ao longo dos séculos, mas a protestante já nasceu fundada por dois.”

Amizade com José Dirceu

Os mergulhos no esoterismo e na astrologia afastaram Carvalho do jornalismo, onde começou a carreira. Um ano após o golpe militar de 1964, ele escreveu para o jornal do centro acadêmico da Faculdade de Direito da USP, que se opunha à ditadura.

Em retribuição pelo trabalho, diz que foi convidado a dividir um apartamento com Rui Falcão, então aluno de direito e hoje presidente nacional do PT. Ele conta que os dois sempre recebiam visitas do ex-ministro José Dirceu, que cursava direito na PUC-SP. “Éramos muito, muito amigos na época.”

Entre 1966 e 1968, militou no Partido Comunista. “Durante todo o tempo da ditadura, estive contra ela – quando não estava militando, estava ajudando a esquerda, escondendo foragido do governo, escondendo arma. Fiz o diabo”, recorda.

Com o tempo, afastou-se da esquerda e passou a achar que os militares que tomaram o poder em 1964 fizeram um trabalho “genial” ao barrar o que, segundo ele, seria “a maior revolução comunista da história das Américas”.

Quando Dirceu foi preso em 2013, Carvalho diz que já não mantinham laços. “Mas uma coisa eu sabia: ele não ia entregar ninguém, porque não é um homem de geleia como esses aí, é um homem de ferro”, afirma.

Nos últimos anos, em nova reviravolta, voltou a criticar as Forças Armadas, agora acusando-as de omissão por não intervir para impedir outra revolução comunista, tramada no Foro de São Paulo. Hoje diz à BBC Brasil que não é “nem a favor nem contra uma intervenção militar”.

“Sem um longo ‘trabalho de base'”, afirmou em novembro no Facebook, “nem as Forças Armadas em peso podem levar este país a dias melhores sem o risco de um retorno cruel à desordem e à roubalheira”.

Retorno ao jornalismo

Em 2005, dois meses após se mudar para os EUA e perder a coluna que tinha no jornal O Globo, o escritor passou a dar cursos de filosofia pela internet. Desde então, diz que 12 mil pessoas passaram por suas aulas.

O filósofo cita entre os alunos que têm se destacado o colunista da Veja Felipe Moura Brasil, que organizou do último livro de Carvalho, O mínimo que você precisa para não ser um idiota, coletânea de artigos publicada pela Record em 2013.

Carlos Andreazza, editor de não-ficção da Record, diz que o livro se aproxima dos 320 mil exemplares. Segundo ele, Carvalho “está entre os pouquíssimos autores brasileiros que poderiam viver de direitos autorias”. Andreazza diz que o filósofo se revelou “um dos autores mais cavalheiros, cordiais, agradáveis e generosos da minha carreira de editor”.

Amigos do escritor dizem que Carvalho não deixa que os embates virtuais contaminem sua vida pessoal. Segundo o cineasta Josias Teófilo, o filósofo está sempre bem humorado e leva um “estilo de vida completamente original”, sem ter hora para dormir ou acordar.

“Um dia a filha dele disse: ‘Vamos ter que botar rotina nessa casa, quando der meia noite todo mundo vai para a cama’. Nesse mesmo dia ele ficou contando histórias até as quatro da manhã.”

Teófilo, que se mudou para Petersburg e está morando a poucas quadras de Carvalho, diz ter arrecadado R$ 300 mil por meio de doações para gravar o documentário Jardim das Aflições (mesmo título de um livro do filósofo), em que entrevista o escritor e acompanha sua rotina. Ele afirma que o documentário foi recusado pelos principais festivais brasileiros e que estuda meios de lançá-lo em 2017.

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Escritor chegou a militar no Partido Comunista na época da Ditadura militar, e já se envolveu com esoterismo muçulmano e astrologiaDesdém pela academia

Carvalho passou a ensinar filosofia sem jamais ter se formado academicamente nesse campo – nem em qualquer outro. Conta que aprendeu sobre o tema por conta própria ao longo de vários anos, longe das “ideologias” que cerceiam o ensino universitário.

O desdém de Carvalho pela filosofia da academia é recíproco. Para o filósofo e professor da PUC-MG Danillo Bragança, ele “quer ocupar dois espaços carentes no Brasil: o de pensador de direita e o de filósofo de multidão”.

Coordenador do curso de filosofia da PUC-PR, Geovani Moretto diz que conheceu Carvalho quando era estudante e se admirou com sua capacidade de “debater a filosofia a partir de questões cotidianas, da política e da economia”. Hoje Moretto diz que ele “virou aquilo que tanto criticava: um dogmático”.

Um dos raros defensores de Carvalho na academia é o jurista Ives Gandra Martins. Outros admiradores ilustres são o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) e o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), que já o citaram em discursos no Congresso.

No Facebook, ao menos dez grupos agregam “olavetes”, termo com que o próprio Carvalho se refere aos seguidores. Há ainda páginas que satirizam o escritor e seus fãs. No site Desciclopédia, os “olavetes” são descritos como “zumbis do mestre Olavo” e comparados aos “bolsominions”, como são apelidados provocativamente os admiradores do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

Muitas das críticas que Carvalho recebe nas redes sociais tratam da maneira com que ele se refere a movimentos de negros, de mulheres e de minorias sexuais. Em seu último livro, ele exalta artistas negros brasileiros que “entendiam que suas remotas origens africanas tinham sido neutralizadas pela absorção na cultura ocidental” e que não ficavam “choramingando coletivamente as saudades de culturas tribais extintas”.

Em outro episódio, foi criticado ao defender que o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) fizesse um exame “para verificar se sua saliva não transmite o vírus da Aids”, após o parlamentar tentar cuspir em Bolsonaro na votação do impeachment.

Em resposta, a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids sugeriu que o escritor fosse examinado “para verificar se sua saliva não transmite o vírus da ignorância e do preconceito”.

Amigos e família

Carvalho afirma que um dos motivos para se mudar para a Virgínia foi a hospitalidade de seus habitantes. “Os rednecks são o melhor povo do mundo”, ele diz, referindo-se aos americanos brancos de zonas rurais, numerosos na vizinhança de sua casa em Richmond. Em Petersburg, onde está temporariamente, negros são 80% da população.

Outro motivo para a mudança foi o cenário no Brasil após a chegada do PT à Presidência. “Pensei: ‘Isto aqui está tão louco, tão louco, que se eu continuar aqui vou ficar louco também.”

Carvalho recebe visitas frequentes dos filhos e dos netos – que calcula em “uns 15 ou mais” – e vive rodeado de alunos e amigos brasileiros, entre as quais a escritora Stella Caymmi, o crítico literário Rodrigo Gurgel e o jornalista Edson Camargo.

Quando não está nas redes sociais, vê filmes, relê livros e ouve música. Entre seus artistas preferidos cita Heitor Villa-Lobos, Luiz Gonzaga e o americano Waylon Jennings, cantor de música country. Não gosta de samba (“uma criação do governo Getúlio Vargas, que decidiu fazer da cultura carioca um emblema da cultura brasileira”) nem de jazz (“coisa de intelectual”).

No tempo livre, gosta ainda de testar as armas da coleção. Ele diz manter apenas uma arma para defesa pessoal (a espingarda que guarda sobre a cama) e se interessar principalmente por equipamentos de caça.

Seu xodó é um rifle austríaco Steyr Mannlicher, ideal para abater ursos. Ele conta que, alguns anos atrás, viajou com o filho Pedro para o Estado de Maine, onde a caça de ursos é autorizada para controlar a espécie. “Fiquei uma semana encarapitado na árvore debaixo de chuva, no frio, e o filho da puta do urso não apareceu”, lembra.

O filho teve mais sucesso: o urso abatido virou um tapete e hoje adorna a sala da casa. Quando uma foto em que Carvalho e o filho posam atrás do animal morto circulou pela internet, muitos protestaram. “Eles acham lindo você comer uma vaca morta com uma martelada na cabeça ou choque elétrico numa fila de onde não pode escapar, mas você correr o risco de ir lá e matar, isso não pode”, rebate.

Ressuscitar a alta cultura

Ao decidir dar seus cursos virtuais, Carvalho diz que também buscava reagir à “morte da alta cultura brasileira” e formar uma nova elite intelectual no país.

“Acredito que sou o único sujeito que está fazendo a ponte entre a última grande geração de escritores brasileiros – que eram Herberto Sales, Josué Montello, Lêdo Ivo – e a geração seguinte”, diz.

“Se dos meus 12 mil alunos aparecerem cem capacitados para produzir bons livros, bons espetáculos de teatro, renovamos a cultura brasileira, está feito o serviço.”

Carvalho afirma que sua avó foi profética ao batizá-lo de Olavo, que, segundo ele, quer dizer “sobrevivente” em norueguês. “Morreu todo mundo e sobrou eu.”

“O Jardim das Aflições” é exibido pela primeira vez

Documentário “O Jardim das Aflições” é exibido pela primeira vez, com debate em seguida

21 MAR2017

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O documentário de longa-metragem “O Jardim das Aflições” será exibido pela primeira vez, na Virgínia, onde foi filmado, quinta-feira (23), às 20h, na Virginia Commonswealth University. Em seguida à exibição do filme – promovida pela VCU Human Security Initiative e o Philosophy Club – haverá um debate entre o personagem do filme, Olavo de Carvalho, e o diretor, Josias Teófilo. O debate será transmitido ao vivo para a página do filme no Facebook. O filme estreia nos cinemas brasileiros em maio.

O documentário, dirigido pelo diretor pernambucano Josias Teófilo e produzido por Matheus Bazzo, despertou oposição desde o início da sua produção. Afinal, o filme é um estudo poético sobre um dos intelectuais mais influentes do Brasil contemporâneo: o filósofo Olavo de Carvalho. Desde o início da campanha de financiamento coletivo para produzir o filme, o diretor e sua equipe enfrentaram críticas e tentativas de boicote pela escolha de Carvalho, que é um conservador, conhecido pelas posições críticas à esquerda e, notadamente, ao PT.

A polêmica continuou após o documentário pronto. “O Jardim das Aflições” foi rejeitado em todos os festivais nos quais foi inscrito – decisões nas quais o diretor Josias Teófilo vê um julgamento político, não estético. “O establishment cultural, dominado pela esquerda, não quer que os brasileiros vejam esse filme”, diz.

“O mais curioso é que, apesar da polêmica, não é um documentário político”, diz Josias, que hoje mora em Petersburg, cidade no Estado da Virgínia, nos Estados Unidos – não muito longe do próprio Olavo de Carvalho, que saiu do Brasil há anos.

“O Jardim das Aflições” retrata o cotidiano do filósofo em sua casa, na Virgínia. A obra capta a atmosfera de trabalho intelectual, convívio familiar e, principalmente, o seu pensamento filosófico — exposto em momentos distintos da sua rotina, com temas específicos encadeados numa narrativa. A dualidade entre a vida cotidiana e a transcendência filosófica é o eixo de sustentação do documentário, que mostra a filosofia de Olavo de Carvalho corporificada pela sua presença.

O filme mostra um filósofo que talvez surpreenda os que só o conhecem pelos posts nas redes sociais e artigos polêmicos. O documentário é repleto de reflexões e ensinamentos sobre vida intelectual, cultura e religião, surgidos à medida que Olavo de Carvalho responde às perguntas elaboradas pelo jornalista Wagner Carelli (criador das revistas Bravo! e República). Aos poucos, revela-se um homem que dedicou sua vida à busca de conhecimento, não pelo simples desejo de erudição, mas para encontrar respostas às questões que o preocupavam. Ao fim, tem-se um filme do qual o espectador, seja qual for sua opção política, pode extrair lições para sua própria vida.

Financiamento coletivo

O Jardim das Aflições se diferencia da maior parte da produção cinematográfica brasileira pela forma com que foi viabilizado: sem verba pública, editais ou leis de incentivo, financiado através de uma rede de colaboradores, que se tornam também difusores do projeto. O filme captou cerca de 315 mil reais em três fases de arrecadação, por meio de 2800 investidores. Foi o maior crowdfunding (financiamento coletivo) já feito no país.

O nome do documentário é homônimo ao livro de Olavo de Carvalho, cujos temas (principalmente a ideia de jardim na tradição filosófica) são tratados no filme. A música original foi composta por Guto Brinholi, compositor brasileiro que mora na Itália, e executada no acordeon pelo músico Vladislav Cojoru.

Nas sessões privadas e nos teasers distribuídos online, “O Jardim das Aflições” têm chamado atenção pela alta qualidade da fotografia, da direção e da trilha sonora.

Jardim das aflições – na veja

Cineastas de filme sobre Olavo de Carvalho batem boca na internet

Josias Teófilo e Daniel Aragão são responsáveis pelo longa ‘O Jardim das Aflições’

Os cineastas pernambucanos Josias Teófilo e Daniel Aragão se uniram para trabalhar no filme O Jardim das Aflições, sobre o pensador de direita Olavo de Carvalho. Contudo, a parceria parece ter chegado ao fim em um bate-boca público no Facebook. A discussão levou o próprio Carvalho a se manifestar, pedindo por “paz na Terra”.

Ao que tudo indica, o racha aconteceu por motivos variados, desde trâmites de pagamento até a visão que ambos tinham sobre o longa e o trato com os demais membros da equipe. Aragão garante que o ex-colega o procurou para trabalhar na edição e fotografia do filme, pois estava “mais perdido do que nunca”. Enquanto Teófilo, o diretor, afirma que Aragão foi demitido por ser grosseiro e intransigente.

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A briga chegou ao ponto de Olavo de Carvalho mandar uma mensagem, que foi compartilhada por Aragão. “Essa discussão mesquinha entre o Josias Teófilo e Daniel Aragão só pode prejudicar aos dois, ao filme que fizeram E A MIM. Para acabar com essa tolice JÁ, abdico, formal e publicamente, de qualquer participação financeira que eu possa ter na renda de bilheteria, e coloco essa quantia à disposição dos dois enfezadinhos, para que a dividam em partes iguais. A condição para isso é que desistam de tentar provar quem tem razão e calem as suas boquinhas imediatamente.”

 


Cineastas de filme sobre Olavo de Carvalho batem boca na internet

Olavo tem razão. Josias Teófilo e Matheus Bazzo, quando podemos nos encontrar para assinar o contrato da forma que o professor sugeriu?

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Olavo na Folha 2006

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1502200608.htm

DIREITA, VOLVER!

Para o filósofo Olavo de Carvalho, é hora de criar uma alternativa partidária realmente conservadora no país

“O povo brasileiro é maciçamente de direita”LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Talvez a obra mais conhecida do filósofo Olavo de Carvalho, 58, seja a edição do site Mídia sem Máscara (www.midiasemmascara.org), há anos na rede para denunciar o que chama de “viés esquerdista da grande mídia brasileira”.
Carvalho hoje escreve no “Diário do Comércio”, órgão da Associação Comercial de São Paulo. Escreve à distância. Desde maio de 2005, mora em Richmond, a duas horas de Washington. É na capital americana que, duas vezes por semana, garimpa material para o livro “A Mente Revolucionária”, em que pretende dissecar o pensamento moderno de esquerda. “Um grupo de empresários do Paraná me deu uma verbinha para eu terminar o livro”, explicou.

 
Folha – O que aconteceu com a esquerda no Brasil?
Olavo de Carvalho –
Para começar, eles criaram esse mito de que são santos, de que têm o monopólio da bondade humana. De repente, o Brasil inteiro vê que não é nada disso. É uma decepção tremenda, mas era óbvio que isso ia acontecer. Você não pode colocar um sujeito que é inteiramente analfabeto na Presidência, burro desse jeito, sem critério. Ele não sabe a diferença entre certo e errado, entre bem e mal, então é claro que ia ser essa sem-vergonhice.
Folha – A alternativa, então é…
Carvalho –
O PSDB é que não é. O PSDB é um partido da Internacional Socialista que está comprometido com o globalismo de esquerda, com todos esses valores politicamente corretos. É a direita da esquerda. No Brasil, infelizmente, a política ficou reduzida a isso: uma luta entre a esquerda da esquerda e a direita da esquerda. Quem é conservador mesmo não se deixa enganar por PSDB.

Folha – Não há ninguém no PSDB que sirva?
Carvalho –
Veja o Geraldo Alckmin. Ele aprovou uma lei que multa o rabino que ouse expulsar de sua sinagoga uma drag queen. Mesmo que ela tenha entrado lá só para provocar. Quem faz uma lei dessas não é conservador. É politicamente correto.

Folha – Como o senhor interpreta a versão petista de que é vítima de uma conspiração da direita?
Carvalho –
O surgimento de um pensamento de direita, qualquer sinalzinho, já deixa esse pessoal aterrorizado: eles já se vêem todos na cadeia. Fica um negócio paranóico. Mas a verdade é que o pensamento conservador no Brasil ainda é uma raridade. Existiu em Joaquim Nabuco, em João Camilo de Oliveira Torres, em Minas Gerais, em Gilberto Freyre, em Pernambuco. Mas é pouca coisa. A tradição cultural do Brasil é toda de esquerda. Não há um movimento intelectual conservador. Eu acho que sou o primeiro cara que está tentando fazer isso.

Folha – Do jeito que o senhor está falando, parece que o Brasil é um paraíso da esquerda…
Carvalho –
É até engraçado, porque o pessoal de esquerda vive dizendo que a burguesia cria seu aparato cultural e ideológico. Só que a esquerda convenceu a burguesia a financiar o aparato ideológico esquerdista. Durante a ditadura já era assim. As universidade eram todas de esquerda, as instituições culturais idem.

Folha – Será que a fraqueza do pensamento conservador não reflete a dificuldade de convencer alguém de que é bom conservar as coisas do jeito que são no Brasil?
Carvalho –
O resultado do referendo sobre as armas, o apoio de parcela expressiva da população à pena de morte e outras indicações mostram que o povo brasileiro é maciçamente de direita no que se refere a cultura, moral, costumes. Mas, como só existem partidos de esquerda, acaba-se votando na esquerda. É hora de criar uma opção partidária de direita. Um verdadeiro partido conservador não tem de defender apenas o livre mercado, mas tem de defender um estilo de vida.

Folha – Qual seria o programa de um verdadeiro partido de direita no Brasil?
Carvalho –
1. Anticomunismo. Não queremos comunismo na América Latina. Tchau, tchau e bênção. Adeus, Fidel Castro; adeus, Hugo Chávez, não queremos nada disso; 2. Livre empresa e respeito à propriedade; 3. Moral judaico-cristã; 4. Educação clássica. As pessoas têm de ter os valores fundamentais da civilização; 5. A verdadeira liberdade de discussão. 50% a 50%. Equilíbrio entre as correntes.

Folha – Como é repudiar o comunismo, Cháves e Fidel, e ser favorável a um equilíbrio entre as corrente de direita e esquerda?
Carvalho –
Uma coisa é ser de esquerda, e outra coisa, bem diferente, é essa tradição marxista, comunista. Isso tem de acabar. Porque se trata de ideologia genocida, criminosa.

Grito de revolta

Durante quarenta anos, os brasileiros deixaram, sem reclamar, que seu país se transformasse no maior consumidor de drogas da América Latina; deixaram que suas escolas se tornassem centrais de propaganda comunista e bordéis para crianças; deixaram, sem reclamar, que sua cultura superior fosse substituída pelo império de farsantes semi-analfabetos; deixaram, sem reclamar, que sua religião tradicional se prostituísse no leito do comunismo, e correram para buscar abrigo em pseudo-igrejas improvisadas onde se vendiam falsos milagres por alto preço; deixaram, sem reclamar, que seus irmãos fossem assassinados em quantidades cada vez maiores, até que toda a nação tivesse medo de sair às ruas e começasse a aprisionar-se a si própria atrás de grades impotentes para protegê-la; deixaram, sem reclamar, que o governo tomasse as suas armas, e até se apressaram em entregá-las, deixando suas famílias desprotegidas, para mostrar o quanto eram bonzinhos e obedientes.

Depois de tudo isso, descobriram que os políticos estavam desviando verbas do Estado, e aí estrilaram, num grito de revolta: “Não! No nosso rico e santo dinheirinho ninguém mexe!”

Esse é o senso nacional de justiça. Quem pode seriamente acreditar que Deus está do lado desse povo em sua “luta contra a corrupção”?

E quem pode levar a sério uma causa que não busca, em primeiro lugar, o apoio de Deus?

As pessoas queixam-se de que suas passeatas, seus protestos, não surtem efeito. Mas NADA que não tem força interior surte efeito jamais.

Minhas palavras

Gosto que compreendam as minhas palavras, e faço o possível para torná-las claras e exatas. Mas que compreendam a minha pessoa — alma e personalidade –, é coisa que não espero nem necessito. Vivi tantas vidas numa só, que quem quer que se meta a me decifrar sem equivalente experiência ao menos imaginária (adquirida pela leitura de muitos romances e biografias) vai dar sempre com os burros n’água e fazer papel de trouxa

Grandeza de uma alma humana

A coisa mais bonita que Deus criou, muito acima de qualquer beleza natural, é a grandeza de uma alma humana: a grandeza do coração, a grandeza da sabedoria, a grandeza do sacrifício por amor ao próximo, a grandeza da bravura. No Brasil, no entanto, essa é a coisa MAIS DESPREZADA, MAIS ACHINCALHADA, MAIS AVILTADA. Nada se admira mais neste país do que algum picareta que subiu na vida sem outro mérito além da habilidade de subir na vida.

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