Meu reino não é deste mundo

“Aquilo que Sócrates propõe a um grupo restrito de filósofos, sem a menor pretensão de transformar o seu ensinamento num novo culto público, é precisamente o que o Cristianismo oferece a todos os homens: o acesso direto ao conhecimento do Verbo divino, sem a intermediação da pólis ou do Estado. O Cristianismo, em primeiro lugar, não se dirige aos homens enquanto membros de uma comunidade, mas enquanto indivíduos conscientes e senhores da sua liberdade; em segundo lugar, não lhes propõe um novo sistema de ritos e símbolos, mas a experiência direta do Verbo divino, uma certeza superior a toda prova dialética; em terceiro lugar, oferece-a como verdade universal, válida para todos os homens e não só para uns poucos situados num momento e num lugar da História. A única diferença é que Sócrates se resignava a que esta verdade interior permanecesse secreta, ao passo que o Cristianismo a revelava publicamente, convocando todos os homens a buscarem o acesso direto ao Verbo, sem intermediação da autoridade civil, num aberto desafio a todos os cultos estatais. O Cristianismo, em suma, dessacralizava radicalmente o Estado, no mesmo instante em que que consagrava, como portadora do Verbo divino, a alma do indivíduo humano.”
(Olavo de Carvalho, “O Jardim das Aflições”, página 242)

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O ciclo litúrgico

Roberto Smera compartilhou uma lembrança

“Imaginem um homem tão primitivo, tão selvagem, que não tivesse atinado ainda com os ciclos solares e lunares, cuja única medida de tempo fossem portanto os dias e as noites. As memórias desse homem seriam uma confusão de imagens sem ligação nem nexo, coeridas tão somente por alguma associação de idéias fortuita, sem ordem temporal, sem ao menos um senso de identidade contínua.
“Mutatis mutandis”, assim vive o homem de hoje, tão orgulhoso do seu estado civilizado, quando não participa do ciclo litúrgico da Igreja, que é um condensado da existência humana, e conhece apenas o tempo linear dos calendários, sem nem mesmo lembrar que ele não passa da numeração do tempo litúrgico.
Quem assiste à Missa todos os domingos sabe que o tempo linear não é tudo, que ele se entrelaça com uma ordem cíclica na qual os vários acontecimentos de uma vida – a vida pessoal e a vida do mundo – aparecem ligados por nexos que, na pura reta do tempo linear, são invisíveis ou, quando obscuramente vislumbrados por instantes, são logo exorcizados como meras produções da fantasia.
O homem puramente mundano dos nossos dias vive num universo unidimensional e fragmentário, onde o único desenho de conjunto que pode ser de algum modo percebido é, na melhor das hipóteses, a dimensão “histórica”, que não passa da linearidade ampliada.
Ele pode, é claro, apegar-se a alguma “concepção científica do cosmos”, mas esta não é percebida, apenas pensada e, como tudo o que é apenas pensado, não pesa nada na sua existência de todos os dias.
O ciclo litúrgico, onde a origem e o destino final da espécie humana são revivenciados a cada ano, dá ao fiel a percepção clara dos temas cíclicos e recorrentes da sua própria existência, dotando a sua vida de um “Leitmotiv” e abrindo-lhe o acesso a dimensões da realidade que, para o homem mundano, são tão inexistentes quanto a noção de continuidade biográfica era inacessível para o selvagem do exemplo acima.”

Olavo de Carvalho.

Paixão de Cristo

Por que meditar a Paixão de Cristo? Porque o padre mandou? Para se fazer de santinho? Para fazer um bonito sermão? Nada disso. Meditá-la porque ela é o centro, o eixo em torno do qual tudo gira, o único acontecimento, desde a Criação do Mundo, que se passou sem jamais passar; que está sucedendo eternamente a todo instante quer você pense nele ou não.

Paulo Briguet

https://www.folhadelondrina.com.br/blogs/paulo-briguet/cada-vez-que-respiro-1003232.html

Segundo uma antiga tradição, o nome de Deus em hebraico — expresso pelo tetragrama YHWH — é o equivalente ao som da respiração humana. Assim, a cada vez que respiramos, estamos repetindo o nome do Criador. Isso inclui judeus, cristãos, muçulmanos, budistas, hinduístas, agnósticos, ateus e seguidores de todas as religiões existentes sobre a Terra. Não por acaso, a palavra para Espírito, em hebraico, é Ruah; em grego, Pneuma.
A cada vez que o ar entra por nossas vias respiratórias — e isso acontece milhares de vezes por dia —, repetimos o nome de Deus, mesmo quando não queremos; mesmo quando O ignoramos ou rejeitamos. YHWH não é um nome impronunciável; na verdade, é mais do que pronunciável, além do pronunciável, acima do pronunciável, o pronunciável absoluto.
Quando uma pessoa era crucificada, a morte se dava por asfixia. Tratava-se um método de matar terrivelmente doloroso, que levava muitas horas. A crucificação, portanto, realizava de maneira cruel e forçada aquele processo de esvaziamento do ser a que alude São Paulo na Carta aos Filipenses: “Ele, estando na forma de Deus, não usou do seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de um escravo” (2, 5). Esse ponto foi bem lembrado pelo padre de minha paróquia no último Domingo de Ramos.
Ocorre que esse “despojar-se de si mesmo” é o centro da vida cristã.
Ao lado de Jesus, estavam dois criminosos. De acordo com as visões da beata católica alemã Anna Catharina Emmerich (1774-1824), malfeitores crucificados com Jesus no Calvário eram irmãos. Tradicionalmente, eles são chamados de Dimas (o Bom Ladrão) e Gestas (o Mau Ladrão).
Gestas, o irmão mais velho, era o arquiteto dos crimes; Dimas, por sua vez, não tinha o coração mau, porém era fraco para resistir à influência do irmão. Anna Catharina conta que Dimas era leproso na infância e fazia parte de uma família que acolhera Maria, José e o Menino Jesus durante a fuga para o Egito. Maria aconselhou a mãe de Dimas a banhar o menino doente na mesma água em que Jesus fora banhado — e assim a criança ficou perfeitamente saudável.
Quando Dimas viu Maria aos pés da cruz, reconheceu a mulher que fora responsável por sua cura — e por esse motivo, ainda segundo a beata alemã, cessou de maldizer Jesus, sendo salvo no último instante: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). O nome Dimas, de caráter evidentemente simbólico, quer dizer “Pôr do Sol”.
Enquanto escrevo estas palavras, meu querido amigo e mestre Olavo de Carvalho luta para respirar em uma cama de hospital. Ocorre que este amigo também foi um dos grandes responsáveis pela minha volta ao lar — o meu retorno à fé em Jesus Cristo. Peço a Ele que me conceda a graça de transformar cada oração em respiração pelo bem de quem me fez tanto bem.
Fale com o colunista: avenidaparana @ folhadelondrina.com.br
por Paulo Briguet

Juliana Camargo Rodrigues

Juliana Camargo Rodrigues

16 h · 

Quando conheci o trabalho do professor Olavo de Carvalho, estava no fundo do poço. Não tinha religião, todos os meus projetos de vida tinham dado em água. Relacionamento que acabou, projetos de psicologia que deram errado, projetos de estudos que levei por anos e anos e que depois se mostraram uma falsidade. Eu mesma me achava uma farsa. A única coisa que não tinha dado errado era a minha profissão na área de TI.

Por isso, tornei-me, de certo modo, uma paulistana típica. Levantava, ia pro trabalho, tudo ali na Paulista. Meu trabalho era cuidar do dinheiro dos bancos, da contabilidade, da tesouraria, que os bancos entregassem o que deviam ao Bacen, etc etc. Meu trabalho era de suporte a sistemas, depois gerenciamento de projetos e relacionamento com os clientes da empresa onde trabalhava. Há uma pressão enorme nessa área, maior do que aquela sobre um cirurgião com o paciente de peito aberto numa mesa, porque se uma transferência de milhões atrasa, os caras perdem dinheiro e você perde o couro(e o emprego). Enfim, era competente nessa área, mas mega-estressada. Eu era um Sr. Saraiva, da tolerância zero. Só me restava o trabalho, que em si, não era de todo mau. Mas era um vazio na minha alma, mais do que isso, era uma ferida aberta e todos os dias da minha vida naquele período eram provas de que o que realmente pretendera um dia da minha vida falhara.

Nisso, encontrei um site de Olavo de Carvalho por indicação de um amigo. Li algumas coisas e depois a parte que estava publicada no site d’O Imbecil Coletivo. E muito embora tratasse de política(coisa que não era do meu interesse. De de certo modo, continua não sendo, pelo menos não os assuntos correntes do dia, mas no sentido mais profundo, no sentido de como a política afeta os destinos dos povos, e o destino final dos indivíduos), há na escrita daqueles artigos um olhar que me dizia algo verdadeiro, algo que me punha em contato com a realidade, fora daqueles cansativos slogans vazios sobre tudo: «os homens não prestam», «há uma dívida histórica para com os negros». e por aí vai. Nunca comprei esse blablablá, e reagia interna e fleumaticamente com um “hum” por outro lado, tampouco sabia o que responder. E o que percebi foi algo que me acompanhava desde há muito: há uma série de camadas de mentiras, ilusões e porcarias que escondem de mim a realidade. E então tinha descoberto aquilo, Mas nem sabia por onde começar a faxina. Percebi, junto com aquele fundo do poço exterior: voluntariado que deu errado, relações que se romperam(amorosa, de amizade, de família etc), projetos que foram perseguidos, destruídos, ou que se auto-sabotaram etc., que a realidade estava vedada para mim, que o meu caminho era de pura alienação e era isso me deixava doente. Olhava para todos os lados e só via uma nebulosa maçaroca de coisas, uma confusão, as pessoas perdidas, completamente perdidas, e tinha perdido o Norte, que achei que tivesse quando aderi a uma proposta new age em mais jovem. Apostava naquilo todas as minhas fichas, mas já aquilo tampouco me respondia nada. Parecia-me mais uma camada de mentiras. E as pessoas de lá que tanto respeitva, tampouco me serviam de orientação mais. Elas estavam tanto ou mais perdidas do que eu.

Nisso, apareceu o Olavo e quando o li, senti um refrigério na alma, havia um ponto que parecia ter se descoberto naquela maçaroca nebulosa, e eu conseguia enxergar um nadinha já com alguma lucidez. A minha intuição apontou para mim com toda força: ali há um caminho. E eu segui este caminho. Agarrei a mão daquele escritor que tão generosamente se estendia para mim e não larguei mais. Mal sabia eu que mais mudanças vieram na minha vida do que eu era capaz de supôr. A minha vida se enriqueceu, mudou e mudou e mudou novamente.

Optei por priorizar formar uma família em detrimento de continuar apostando na minha formação intelectual como alvo primário(não são incompatíveis, uma coisa é aprioridade 1, a outra, a prioridade 2). Porque a realização profissional, a conquista de ser competente e de ganhar dinheiro a valer, de forma independente, eu já tinha conquistado e tinha visto que as mulheres mais velhas que tinham ficado só com a carreira e deixado de lado a formação de suas famílias eram muito tristes. Por isso, larguei mão da minha carreira na TI, com o meu salário em 5 mil mensais(não é grande coisa, mas foi uma pequena conquista minha e sei que a maior parte das pessoas não ganha isso nem hoje em dia, no Brasil), saí do Brasil para constituir a minha família com uma proposta de trabalho do Banco Toyota caso voltasse ao Brasil, em aberto: «se você voltar, me procure» – disse-me o gerente. Meu salário ia dobrar, e eu ia trabalhar em dobro, também. Mas é inegável que era uma carreira em ascensão e promissora. Mas a sedução desse ambiente já não me podia comprar, porque enxergava para além de toda aquela ilusão. Por vezes, eu trabalhava achando que representava um papel, como quem brinca de casinha, ou de polícia em bandido, como uma criança. E que eu só representava aquele papel para “satisfazer as outras crianças”, para vocês terem idéia do vazio e da falta de sentido que eu percebia naquela mixórdia geradora e comedora de dinheiro da qual eu fazia parte tal qual pequena-engrenagem. «Ah! Juliana, mas você podia ir a restaurantes caros, a shows que toda a gente queria ir, podia ir viajar pra fora do Brasil etc.» – sim, mas nada daquilo me interessava, nem o entretenimento caro e chique me interessava. Nenhuma merda daquela fazia sentido para mim. E eu queria algo que me desse sentido. Encontrei muitas pistas de como restaurar de sentido a minha vida pelo Curso Online de Filosofia, enquanto ouvia as aulas, sentia que o Olavo falava diretamente para mim. Não sei como fui parar num curso de filosofia, porque tirando os antigos filósofos – que, aliás, eu não conseguia entender Sócrates, Platão e Aristóteles – eu os achava a todos uns grandes faladores, ou seja, achava que eram mais do mesmo, um monte de slogans e conversinhas fiadas para boi-dormir que nada me falavam da realidade.

Muito embora tanta coisa tenha se alterado na minha vida desde o momento em que comecei a ler Olavo até hoje, ainda tenho alguns medos que permanecem meio intocados. Tenho medo de uma coisa que considero meio que uma maldição familiar e temo que isso regresse quando eu for mais velha, quando sei lá, tiver a idade do Olavo. Só que esquecia-me do seguinte, Olavo muito provavelmente não vai mais estar aqui quando eu tiver a idade dele. O seu recente internamento me fez ver que não posso mais fugir desse medo. Não só por minha causa, mas porque, da mesma forma que nossos pais não são infinitos, o nosso pai intelectual também não o é. Olavo e meu pai têm a mesma idade, com a diferença de dois dias, o meu pai é mais velho. Eu vejo a figura de um no outro e vice-versa, é-me inevitável. São os dois finitos. E se de fato essa maldição voltar mais adiante a quem irei recorrer? Quem irá me ajudar a enxergar o real de novo? Bem, esse alarme que a gente sente diante da ameaça à saúde do Olavo é além da preocupação genuína, que acredito em alguns, um lembrete de que estamos com o calendário meio atrasado no nosso comprometimento com essa existência. Os adiamentos… Todos os dias, adiamos e voltamos a adiar. Será que não é hora de deixar de adiar? Se você sente algo como “o que vai ser da minha vida sem o Olavo” (e não é da família próxima), então reveja a sua vida. Há qualquer coisa que está mal, que está em atraso. Você pode não ter a impressão forte de que sofre de uma maldição familiar como a que eu tenho, mas pode ter outras coisas batendo-pino, certo? Enfim, compartilho da minha reflexão com vocês, mais uma vez. O meu tom pode não ser dos melhores, mas é o que é, é sincero. Sou saturnina-mercurial, enxergo e analiso os problemas. Mas já que Mercúrio alivia o pesadão de Saturno, também já aponto uma solução, que é a de parar de adiar a sua responsabilidade perante sua própria vida.

26.3.2018

Breve atualização sobre o professor Olavo de Carvalho

O tubo foi retirado hoje e ele passa muito bem. Os médicos decidiram operá-lo amanhã à tarde para retirar um cisto na traquéia. Não se trata, tecnicamente, de um tumor benigno, mas de um cisto congênito (algo muito mais simples) que, inflamado nestes últimos tempos por conta da pneumonia, acabou por prejudicar a respiração. A cirurgia é bastante simples e as perspectivas de sucesso são as melhores. Pedimos que as orações de todos se concentrem nessa etapa que, com a ajuda de Deus, se encaminhará para o total restabelecimento do professor.

O que é sinceridade

Todo aquele que não se apresenta diariamente diante do Trono do Altíssimo, com o coracão trêmulo de vergonha não só pelos seus próprios pecados mas pelos de todos os seus irmãos, consciente de que, em face da perfeição e da onissapiência divinas, CADA UM dos seus atos foi errado, mesmo aqueles que sua vaidade considerou os melhores, e sentindo até o fundo da alma que o Perdão é o ÚNICO bem valioso a ser ambicionado, — esse NUNCA saberá o que é sinceridade, nem muito menos honestidade.

O Bem

O Bem não é um universal abstrato. O Bem é uma Pessoa, é Deus. Só se assimila o Bem por contato pessoal e impregnação no amor divino. O resto é filosofice uspiana. Só a prece infunde nas almas o amor ao Bem, na medida em que O vão conhecendo aos poucos, muito acima do que podem pensar ou expressar. Estudar Ética só é bom para ludibriar os trouxas.