6.1.2018

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A distinção de René Guénon entre mística e iniciação — que o Abellio segue à risca — parece clara, mas é capenga no fundo. Tanto que ele próprio se atrapalha ao empregá-la. Descrevendo S. Bernardo de Clairvaux como fundador de Ordem Templária, organização que ele dá como iniciática por excelência, ele qualifica de místico o pensamento do santo. Nunca entendi.

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Vai haver aula do COF, sim. Até agora o provedor parece estar funcionando bem.

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Hoje o padre da Igreja Saint Joseph me disse uma coisa que pouca gente sabe hoje em dia:
— Nossa sexualidade é alheia ao que somos.
As provas disso são inumeráveis. Não escolhemos o sexo em que nascemos, e alguns o rejeitam. Nossas atrações e repulsas eróticas vêm de fatores hereditários e culturais inteiramente fora do nosso controle. Podemos ter desejo erótico de experiências que a nós mesmos nos parecem dolorosas ou repugnantes. E assim por diante.
Tudo isso é óbvio, mas como explicá-lo a uma época que se acostumou a buscar a quintessência das personalidades na sua conduta sexual?

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Esse mesmo padre fez hoje o sermão mais curto e decisivo que já ouvi. Transcrevo de memória:
— Dizem que os reis que visitaram Jesus eram sábios porque sabiam astrologia e mais isto e mais aquilo. Mas não é nada disso. Sábio é aquele que reconhece Jesus.

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Louco por livros antigos, o fato é que eles quase me matam. Não posso entrar num sebo sem ter imediatamente uma caganeira. O gerente da Livraria Brasileira, no Rio, tão logo me via chegando já tirava da gaveta a chave do banheiro.

Matheus Malleficarum Por quê?

Alergia ao pó.

Os clientes em volta ficavam rindo:
— Esse sujeito vem aqui só para cagar.

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Israel Azevedo me passou o link desta entrevista. Não posso puxar discussão com o Zuenir Ventura, já que ele cessou de existir intelectualmente em 1968 e só sobrevive em estado de ectoplasma:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/01/1947246-nunca-o-conservadorismo-foi-tao-visivel-e-despudorado.shtml

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Dos saudosistas do maio de 1968, que o vêem como um momento memorável na história da liberdade e dos direitos humanos, não há UM SÓ que se lembre do ponto essencial: o símbolo unificador daquela porcaria era o Livrinho Vermelho dos Pensamentos do Presidente Mao e sua inspiração imediata a Revolução Cultural Chinesa, iniciada dois anos antes, em que o governo de Pequim usava massas de jovens “enragés” como tropa de choque para perseguir, humilhar, torturar e matar milhares de adversários do regime.

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Filhos do 1968:

http://www.foxnews.com/opinion/2018/01/06/silicon-valleys-drug-fueled-secret-sex-parties-one-more-reason-to-hate-hookup-culture.html

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Quando eu era criança, não tinha a menor dificuldade de reconhecer a Beleza e a Bondade infinitas pelas amostras delas que me chegavam espontaneamente pela minha imaginação. Depois vem a experiência fragmentária do mundo com todo o seu cortejo de maldades e feiuras, e dela extraímos por mero automatismo mental conclusões às quais damos o valor de premissas universais, encobrindo a nossa visão do infinito com uma profusão de idéias finitas.

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Quando eu era criança, não tinha a menor dificuldade de reconhecer a Beleza e a Bondade infinitas pelas amostras delas que me chegavam espontaneamente pela minha imaginação. Depois vem a experiência fragmentária do mundo com todo o seu cortejo de maldades e feiuras, e dela extraímos por mero automatismo mental conclusões às quais damos o valor de premissas universais, encobrindo a nossa visão do infinito com uma profusão de idéias finitas.

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Uma amiga está aqui ajudando a limpar os meus livros. Vai levar um mês, pelos meus cálculos. É mofo e pó que não acaba mais.

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O objetivo da Revolução Cultural Chinesa era o mesmo da sua equivalente ocidental, frankfurtiana e gramcista: extirpar da sociedade todos os resíduos de tradições milenares que pudessem obstaculizar a construção do “novo homem”. A única diferença era que pretendia realizar isso por uma operação estatal rápida e fulminante, enquanto no Ocidente vigorava mais a idéia de uma influência cultural de longo prazo. O maio de 1968 foi uma tentativa frustrada de imprimir à revolução cultural do Ocidente um ritmo “chinês”.

 

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