Mensagem de Natal

Todo mundo sabe que os dias que antecedem o Natal são os mais angustiantes do ano. Todas as cobiças, todas as frustrações, todas as neuroses familiares, todos os rancores que o ritual do trabalho diário encobria, vêm à tona nessa ocasião, excitados pela corrida às compras, pelo saldo em vermelho, pela disputa de prioridade nas visitas dadas e recebidas, por mil e uma solicitações inatendíveis que nos mostram, mais que qualquer dificuldade rotineira, o que há de intrinsecamente constrangedor e decepcionante na vida humana.
Movidos pelo automatismo dos lugares-comuns, muitos são os que, nesses dias, enfatizam o contraste entre a agitação mundana e um idealizado “espírito de Natal” que, imaginam, deve ter prevalecido em épocas mais doces ou há de prevalecer na sociedade perfeita que sonham criar à sua própria imagem e semelhança.
No entanto, nada expressa melhor o sentido do Natal do que essa angústia, essa inquietação, esse pressentimento sombrio que antecedem o nascimento de Cristo.
É um simbolismo eterno que se repete nos fatos materiais da vida.
Os dias que precedem o Natal são os da matança dos inocentes, da fuga para o deserto, da Sagrada Família a bater em vão de porta em porta, em demanda de um abrigo inexistente.
Um Deus vai nascer. O mundo treme e se apressa, como Herodes, para tentar matá-Lo.
Não poderiam ser dias felizes. São os mais inquietantes do ano. Nem mesmo a Sexta-Feira Santa é tão triste, porque o fato da morte vem com a certeza da Ressurreição. Mas, quando um Deus vai nascer, tudo é incerto. O nascimento de um Deus é a morte de um mundo – de um mundo que não voltará à existência depois de haver-se dissipado no nada. E ainda não se sabe o que virá depois. Tudo aí é possível: as esperanças mais insensatas acotovelam-se aos temores mais alarmantes, na expectativa de algo que não se sabe o que é, mas que será decisivo. É a hora antes da aurora, a hora do lobo: o predador, no lusco-fusco, ainda não sabe se vai caçar ou ser caçado.
O nascimento de um Deus é um anúncio do Juízo Final. Antecipadamente, há choro e ranger de dentes. A humanidade agita-se, tentando em vão fugir do peso de seus pecados. Cada um quer fingir para si mesmo que está bem, que nada teme, que sua conta bancária, sua mesa farta, sua família feliz são um atestado de garantia contra a danação eterna.
Parecendo negar a profecia, a agitação moderna não faz senão obedecê-la e confirmá-la.
Mas eu seria o último a ver na corrida aos presentes apenas umdivertissement no sentido pascaliano, uma fuga ao sentido da vida. Ela é também, nessa hora incerta, a afirmação de uma esperança. O Deus que vai nascer pode não ser um juiz, mas um salvador. Não um castigo, mas um dom. Ninguém o pode garantir antecipadamente. Comprar presentes, no meio da angústia e da correria do mundo, é um ato de confiança na promessa das Escrituras. Sem saber ainda o que vai acontecer, dispomo-nos a celebrá-lo como um dom. Provemo-nos também dos dons que pretendemos ofertar, símbolos miúdos do grande dom divino que esperamos.
Mas a incerteza nem por isso se dissipa.
Mesmo quando surge a estrela, anunciando o nascimento do Salvador, nem todos atinam com o que está se passando. De início, só os sábios e os pastores o compreendem. É na esperança de ser um deles que acorremos às lojas, comprando o ouro, o incenso e a mirra com que mostraremos reconhecer, nos entes queridos a quem presenteamos, a imagem do Menino Deus recém-nascido.
Quer o saibamos ou não, o símbolo primordial molda nossas vidas, reproduzindo-se e multiplicando-se em milhões de lares, por baixo de toda agitação mundana que, parecendo negá-lo, o reafirma soberanamente.
A deusa história, a modernidade, nada pode contra isso. Ela não é senão imagem e semelhança daquilo que nega. Afinal, quê poderia confirmar mais plenamente o nascer do Sol do que o movimento das sombras que deslizam pelo chão?
Qualquer que seja o rumo da História, a Palavra que a moldou antecipadamente não passará.

Anúncios