3.1.2018

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“Cristo representou avanços no humanismo, mas alguns cristãos transformaram certos valores em dogmas” é, com certeza, a afirmação mais imbecil que já li em setenta anos de vida. Supera, na brevidade de uma linha, todos os feitos lingüísticos da Dilma Rousseff, a qual tinha ao menos o atenuante de proferi-los sem outra autoridade intelectual que não a de um diplominha falso, ao passo que o autor dessa belezura, segundo o seu currículo Lattes, é doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas (1984), mestre em Planejamento Econômico e Economia Internacional pelo Colégio dos Países em Desenvolvimento da Universidade de Estado de Antuérpia (1976) e professor em não sei quantas universidades.
Um dogma é, por definição, uma verdade definitiva revelada pelo próprio Deus, ou, em sentido pejorativo, uma afirmação meramente humana, arbitrária, desprovida de evidência ou prova, que pretende, de maneira explícita ou implícita, ter a autoridade de uma proclamação divina.
Quem proclamou os dogmas do cristianismo foi o próprio Jesus Cristo, e não “alguns cristãos”. Foi Ele, e não algum Papa ou teólogo depois d’Ele, quem disse: “O céu e terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” e condenou às penas do inferno quem alterasse a forma ou o sentido delas.
Portanto, das duas uma: ou essas palavras são dogmas em sentido estrito, ou são apenas opiniões humanas investidas da pretensão abusiva de passar por verdades divinas. Jesus é Deus ou é um farsante que tenta passar por Deus. “Tertium non datur.”
Ao dizer que Jesus se limitou a defender “valores” ou preferências, sem a autoridade dogmática que lhes teria sido conferida “a posteriori”, Paulo Roberto de Almeida opta resolutamente pela segunda alternativa, apenas desculpando o farsante por meio da alegação de que teria contribuído para “avanços no humanismo”.
O humanismo, por sua vez, não tem nada a ver com humanitarismo e amor aos coitadinhos. Se Paulo Roberto de Almeida lhe dá implicitamente essa acepção, é para melhor ludibriar os leitores após ter-se ludibriado a si mesmo. O humanismo é um movimento com muitos séculos de história, que começou com um esforço para dar à literatura humana o mesmo valor e importância das Sagradas Escrituras, subiu de tom no “ottocento” com Feuerbach, Stirner, Strauss e Marx reduzindo Deus a uma invenção dos homens e culminou no século seguinte com Antonio Gramsci instituindo a “terrestrialização absoluta do pensamento”, a proibição total e definitiva de qualquer interesse que transcenda a esfera dos assuntos econômico-sociais. Coerentemente, o “Manifesto Humanista” assinado por algumas centenas de celebridades em 1933 já propunha explicitamente a substituição do capitalismo pelo socialismo, e sua segunda versão, de 1973, a dos governos nacionais por uma autoridade supranacional – a essência da ideologia globalista que, segundo Paulo Roberto de Almeida, não existe nem age.
Ao contribuir para esses “avanços”, o grande feito de Nosso Senhor Jesus Cristo teria consistido, segundo a lógica de Paulo Roberto de Almeida, em sumir discretamente do cenário e ceder lugar à Assembléia Geral da ONU.

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Além de chamar antiglobalismo de globalismo, para confundir-se a si mesmo e a seus ouvintes, Paulo Roberto de Almeida ainda reduz essa idéia à crença vulgar de que uma cabala de bilionários dirige secretamente a História do mundo — e acredita, ou finge acreditar, que, contestando essa lenda urbana, demoliu os meus argumentos. Puro teatro. Na verdade, eu mesmo refutei em termos categóricos a teoria (se chega a ser uma) da cabala onipotente, no mínimo pela razão de que, como apontei no debate com o prof. Duguin, há três globalismos em disputa, cada um limitando a esfera de ação dos outros. Mas para quê um debatedor há de respeitar a inteligência do adversário? Mais fácil é reduzi-lo às dimensões da sua própria microcefalia e esmurrar no banheiro um anãozinho de papelão para não correr o risco de subir a um ringue de verdade.

Israel Azevedo Professor, em comparação com o prof. Duguin e o debate que o senhor teve com ele, o Paulo Roberto seria o que? kkkkk
Olavo de Carvalho Eu jamais faria ao prof. Duguin a ofensa de compará-lo ao Paulo Roberto que vi no debate.

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Pela primeira vez na vida me senti ofendido pelas palavras de um oponente. Não pelo tom injustamente pejorativo com que ele se referia a mim — isso é o de menos –, mas pela sua cara de pau de demolir num instante o respeito que eu tinha pela sua pessoa e substitui-lo pela dose mais alta de vergonha alheia que já tive de engolir. Eu não queria ter visto isso. Se pudesse, fingiria que não vi.

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Gêmea astral do Eric Voegelin e do Mário Ferreira dos Santos, a Leilah Carvalho faz aniversário hoje. Já ouviram falar de uma filha que nunca deu aos pais o menor desgosto, a menor contrariedade, só alegrias, só risos, só felicidade? É ela — um dos mais notáveis presentes imerecidos que Deus me deu.

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Roxane Carvalho está con Leilah Carvalho.

Te amo, Lê! Parabéns!

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Por mais problemas que você tenha, a sua vida NÃO É tão miserável, deprimente e desencorajadora quanto o foi a do grande Jacob Wassermann na infância e mocidade — coisa mesmo de fazer um sujeito estourar os miolos. Depois eu conto.

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Teria sido talvez melhor se o século XIX, em vez de disseminar uma cópia burguesa da moral cristã, esvaziada de todo conteúdo espiritual, amputada da linha de contato com o Espírito Santo, tivesse logo implantado a putaria geral franca e descarada. Aprendemos mais com um erro medonho cometido todo de uma vez do que com uma sucessão anestésica de erros imperceptíveis.

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Um Papa NÃO tem o direito de inverter a realidade em 180 graus, chamando as vítimas de criminosos e os criminosos de vítimas. A resistência à imigração forçada, diz ele, “semeia a violência”. Mas por toda parte os imigrantes islâmicos COMETEM violência, não a sofrem.

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O pai de Jabob Wassermann era um comerciante sem talento nem energia, que depois de vários fracassos acabou falindo e arrumou um emprego de agente de seguros que mal dava para sustentar a família. Seu consolo na vida era a mulher bonita e culta, mas ela morreu quando o filho do casal, Jacob, tinha apenas nove anos. O homem amava o filho, mas, casado em segundas núpcias, tornou-se um escravo da mulher dominadora e má que tinha especial prazer em atormentar o menino.
Jacob nasceu com o talento do narrador. Inventava histórias como quem respirava, mas em casa suas narrativas só lhe valiam reprimendas e humilhações. A madrasta adquiriu o hábito de invadir o quarto do menino e rasgar as histórias que ele escrevia. Na escola não davam a ele um tratamento melhor.
Aos dezesseis anos ele foi enviado a Viena para trabalhar com o tio, mas mostrou-se totalmente incompetente nas tarefas administrativos e voltou para casa, onde o receberam com recriminações e castigos e decidiram que ele só servia mesmo para alistar-se no exército. Após alguns meses de experiência, ele escreveu um poema sobre as tristezas e sofrimentos da vida militar. O sargento descobriu o poema e o leu para todo o pelotão, fazendo do jovem autor um objeto de chacota geral.
Jacob nem por isso desistiu da vocação literária, mas, quando enviou o poema a um escritor famoso, Paul Heyse, do qual esperava um estímulo, recebeu dele o conselho de desistir daquilo e dedicar-se… ao comércio.
Desempregado, rejeitado pela família, sem amigos nem qualquer estímulo intelectual, Jacob passou meses vagando pela Floresta Negra, dormindo no mato e alimentando-se exclusivamente dos pães que os meninos das fazendas lhe davam como recompensa das histórias que ele lhes contava.
Sua vida só começou a melhorar depois que ele venceu, sobrepujando duzentos concorrentes, um concurso de contos da revista “Simplicissimus”, em 1896.

Olavo de Carvalho Uns poucos foram,. A tradução de “O processo Maurizius” é ótima.

 

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