Exame de consciência

Mesmo que um escritor não tenha a menor intenção religiosa, não escapará da máxima de Antonio Machado: ‘Converso com o homem que sempre vai comigo — quem fala só espera falar a Deus um dia —; O meu monólogo é conversa com este bom amigo. Que me ensinou o segredo da filantropia.’

Condenar-se é usurpar a função do diabo; perdoar-se, a de Deus. Não perca tempo com essas coisas. Tente apenas compreender-se e ajudar-se, e faça o mesmo com todo mundo. Creio que este é ‘el secreto de la filantropía’.

Quando me acusam de um mal que não cometi, busco sua analogia próxima ou remota com algum que cometi e sempre descubro alguma coisa útil, da qual o acusador não tem idéia próxima nem remota.

Gustave Flaubert, que era um ateu, e Henry Miller, que era um pornógrafo, praticavam o exame de consciência tão bem ou melhor do que qualquer católico que eu conheça.

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Apelo a pais e mães

Sempre apelo a pais e mães, com o risco de me defrontar com o seu ceticismo e até com uma ponta de escárnio: Custe o que custar, nunca façam a sua criança chorar. Nunca. Nem sob os pretextos mais lindamente moralizantes. Uma criança pequena (digamos, até uns cinco anos) se esquece muito facilmente de um conselho, de uma ordem, de uma repreensão, mas o SENTIMENTO que isso lhe infundiu permanece para sempre, totalmente separado do conteúdo lógico e moral que você pretendia lhe transmitir. Você quis ensinar moral, disciplina, bom comportamento, mas ensinou só tristeza, raiva, ressentimento, depressão. O aprendizado das regras morais só é possível quando a criança alcançou um domínio lingüistico suficiente para poder reagir antes com a inteligência mais fina do que com a emoção imediata. No começo da vida, só o que interessa é transmitir à criança aquele amor incondicional que infundirá nela, justamente, a segurança emocional que a tornará capaz, mais tarde, de introjetar regras de comportamento sem excessivo dispêndio de energia emocional. Isso deveria ser óbvio à primeira vista, mas quantos pais e mães não vêm, em resposta, brandir na minha cara um exemplar da Bíblia e falar das virtudes das reprimendas e castigos, sem que nunca lhes ocorra perguntar de que idade são os filhos e filhas que a Bíblia manda reprimir e castigar…