A Carta – Depoimentos III


Conheço o Olavo há uns 4 ou 5 anos só, queria tê-lo conhecido antes, mas antes tarde do que nunca. Quando falei para um colega que descobri um sujeito chamado Olavo de Carvalho e que ele falava umas coisas bem interessantes, a primeira coisa que ouvi foi: “Esse cara é nazista”. Procurei as evidências desse nazismo e não encontrei, pelo contrário, vi que tinha um grupo que o acusava era de ser sionista! Desde então eu já vi o Olavo ser chamado de nazista, sionista, católico tradicionalista, protestante, maçom, muçulmano, comunista (!), agente da CIA, empregado do George Soros e até de satanista. É por isso que quando vem alguém com ares de “inside information” falar mal do Olavo eu já começo a bocejar. O Olavo é maior do que a intelectualidade brasileira atual pode suportar. Como ele está muito acima, ninguém sabe onde enquadrá-lo, então cada um se reserva o direito de pintá-lo com as cores daquilo que mais detesta.

Davi Marciglio

Eu sinceramente não sei o que eu seria hoje sem a influência do professor Olavo de Carvalho. Depois da descoberta bombástica, em 2007, aqueles primeiros anos do COF, pra mim, foram uma escalada de mudanças e transformações. Se eu sou um pouco menos burro, hoje, é por causa dessa fase em que ainda vivo, mas que teve seus momentos de horror metafísico (com a minha própria ignorância antes desconhecida) a partir de 2009. Não conseguiria fazer um daqueles textões lindos que muitos têm feito e só consigo admirar e lê-los emocionado em ver que tantos, como eu, compartilham de tamanha gratidão. É possível que todos nós, fiéis alunos, tivéssemos uma ideia de que um dia ele sofreria um ataque severo. Basta compreender um pouco do fosso em que o país está afundado e o contraste com aquele profundo clima de entusiasmo pelo conhecimento, que presenciamos a cada aula, a cada raro encontro entre os alunos mais sérios, aqueles com quem, muitas vezes, nem encontramos seguidamente, mas quando estamos juntos percebemos a cumplicidade de termos sido retirados do profundo sono da brasilidade contemporânea. Como ele sempre nos ensina, não buscamos ser compreendidos, mas compreendermos o mundo que nos cerca, doa o que doer. A existência de uns Veadescos e Veadazzos é algo que sempre esperamos, dada a abrangência do bem que Olavo espalhou por este país. Isso só pode deixar o diabo indignado. E não há maior representante do diabo do que a inveja, a intriga e a ingratidão neste mundo.


 



Alexandre Borges:
Sou testemunha da extrema generosidade do Olavo. Não vou cometer qualquer indiscrição e revelar fatos específicos, mas posso atestar que ele faz o bem até a desconhecidos e sem qualquer expectativa de retorno. Falo porque já vi, não porque me contaram.
Nem estou mencionando o fato de ser o maior intelectual brasileiro vivo e praticamente o responsável por não sermos uma Venezuela. É um gigante do pensamento, alguém que inspirou e continua inspirando diretamente todos nós, mas esse não é o ponto aqui. O coração dele, acreditem, é ainda maior.
Olavo já disse sobre Viktor Frankl: “foi grande nas três dimensões em que se pode medir um homem por outro homem: a inteligência, a coragem, o amor ao próximo.” É impossível não dizer o mesmo do próprio Olavo.
Minha total solidariedade a ele, que a paz volte logo para sua bela família, que ele siga iluminando quem está aberto e disposto.
Viva Olavo!


Da página do Lucas Mafaldo:

Semana passada, descrevi um caso que não causou o espanto merecido: um jornalista decidiu propositalmente publicar uma notícia falsa para queimar a reputação de um desafeto político.

Em qualquer país sério, alguém que fizesse isso seria sumariamente demitido e o próprio jornal sofreria um abalo imenso em sua reputação.

Porém, o caso não gerou comoção alguma. Afinal, “o sujeito merecia”, disseram alguns, por supostamente ser incompetente ou ter a ideologia política errada.

(Como um amigo falou nos comentários, é o equivalente do “quem mandou usar saia” da intelectualidade.)

Agora, peço que parem um segundo e imaginem a premissa monstruosa que está implícita nesse raciocínio: quem possui defeitos pessoais ou ideias políticas diferentes das nossas não deve reclamar se for difamado pela grande imprensa.

Quem raciocina assim simplesmente não sabe o que é justiça. Essas pessoas não internalizaram que o justo/injusto é um valor INDEPENDENTE e MAIOR do que o critério do gosto/desgosto ou amigo/inimigo.

Afinal, se você acha que seu amigo merece ser tratado com justiça enquanto seu inimigo pode ser sacaneado à vontade, então você não se importa de verdade com a justiça — você se importa apenas com seu amigo.

Agora ampliem esse critério valorativo para todas as situações sociais. Imaginem que toda ida a um órgão público, audiência judicial e blitz de trânsito serão decidas sem qualquer referência objetiva, tendo apenas em conta a opinião subjetiva do sujeito sobre você.

É óbvio que isso vai virar um inferno em dois segundos. É a politização total da sociedade e o início da guerra de todos contra todos.

Porém, é só eu dizer o nome do cara que foi difamado que aparecerá um monte de gente dizendo “ah, mas esse aí merece mesmo, quem mandou…”.

***

Mas o pior é que, poucos dias depois desse meu espanto, apareceu uma difamação AINDA pior.

Tentem pensar no caso fazendo abstração do personagem: a imprensa resolve quebrar um silêncio inexplicável em torno de um dos autores mais populares do Brasil para escancarar detalhes da sua vida privada. Ou seja: até a véspera, tratavam-no como alguém irrelevante. No dia seguinte, como alguém que deve ser urgentemente destruído.

Mas a coisa fica ainda mais sinistra: a suposta denúncia tem como origem um grupo que se dedica integralmente à destruição da reputação do autor. O jornal não parece ter curiosidade alguma em investigar o fenômeno, em si mesmo estranhíssimo, de alguém ter inimigos tão dedicados. O faro jornalístico parece também insensível ao fato desses inimigos acusarem o autor de… tudo. Simplesmente: de tudo. Desde erros banais aos crimes mais sórdidos, passando por intenções contraditórias e impossíveis. Sem falar que a carta-denúncia ainda é assinada pela filha do autor, em uma história onde se misturam problemas pessoais e demandas financeiras.

Nosso investigador parece incapaz de dar o seguinte passo lógico: se alguém está sendo denunciado por tudo, é óbvio o objetivo não é a denúncia em si mesmo, mas a destruição da reputação do alvo.

No mínimo, o absolutamente mínimo, é que as pessoas dessem um passo para trás e observassem essa história com cuidado. Afinal, trata-se de uma situação envolta em um mar de confusão. Progredir nisso seria causar ainda mais injustiça.

Mas esse tipo de prudência não parece fazer parte da cultura brasileira. Tanto os jornais como várias personalidades intelectuais pareceram… comemorar o evento.

Como no exemplo anterior, é só citar o nome do personagem para aparecer um monte de gente justificando os ataques. “Ah, mas esse aí merece! Quem mandou…”.

***

Entrar em uma defesa integral da filosofia de Olavo de Carvalho é, como dizem os americanos, “miss the point”. O pressuposto seria, então, que só aqueles que escrevessem tomos filosóficos irrefutáveis mereceriam ser tratado com dignidade.

O que nos leva a outro vício cultural brasileiro: transformar toda discussão intelectual em um Fla-Flu interminável.

Se você citar o nome de Olavo, será categorizado eternamente como um “olavete”. Se discordar dele em um milímetro, irá atrair o clubinho dos anti-olavetes para uma reunião urgente na sua seção de comentários.

Mas eis o que deveria ser o óbvio do óbvio: não é assim que se lê um autor de filosofia.

Os brasileiros possuem o vício de se tornarem “X-istas”. Eles lêem as obras completas de X e passam a vida inteira defendendo X. Para essas pessoas, parece impossível que alguém leia também Y e Z e crie sua própria síntese com seus próprios miolos.

É exatamente isso que eu sempre tentei fazer (e não digo isso como mérito pessoal, pois isso é apenas a prática normal de qualquer estudante mundo afora).

Li com muito interesse parte da sua obra (aprecio muito seus comentários sobre a cultura brasileira), fiquei em dúvida em relação a algumas de suas teses (como a coisa sobre a “mentalidade revolucionária”), discordo frontalmente de outras (não partilho da sua impaciência com o Papa) e simplesmente não tenho interesse por algumas das suas referências (sempre achei instintivamente tudo relacionado ao perenialismo pura maluquice — e, pelo visto, ele também se afastou disso com o tempo).

Mas eis o que me parece óbvio: por que eu concordaria integralmente com alguém se eu mesmo estou sempre aprendendo e mudando de opinião? Leio para aprender e, quando aprendo com parte da obra de um autor, fico agradecido e sigo em frente.

Mas eis o passo que não consigo conceber: o sujeito que, por discordar de um pedaço, quer destruir… o próprio autor da obra.

O que me leva de volta à toxidade do clima intelectual brasileiro.

É o terreno do tudo ou nada. O mundo se divide entre amigos e inimigos. Justiça, estética, verdade e moral não são valores independentes: são apenas armas para meter porrada nos inimigos.

***

Talvez vocês pensem que estou exagerando. Que as coisas aí não são tão ruins. Ou talvez que aqui fora não sejam tão melhores.

Mas me digam se isso é normal: já perdi as contas de quantos professores, mesmo com cargos elevados em federais, me confessaram, olhando para os lados com sincero nervosismo, de que lêem Olavo, mas que não dizem nada por medo de terem suas carreiras destruídas.

Que tipo de país é esse onde um acadêmico tem medo de ser destruído por… ler o autor errado?

Esse tipo de pressão informal, evidentemente, existe também por outros motivos. Desde divergências teóricas e religiosas até a mera disputa por verbas. O que torna o cenário ainda mais lamentável. É pequeneza em cima de pequeneza.

Enquanto isso, sempre que vou ao Québec, saio para conversar com meus amigos da época do curso de filosofia, e, mesmo entre os eleitores dos partidos socialistas locais, eles falam dos colegas tomistas e straussianos (que possuem um peso político especial por aqui) como interlocutores dignos. Outro exemplo: o Alain Finkielkraut é considerado um autor “de direita”, mas está na Academia Francesa de Letras, nas páginas do Le Figaro, na France Culture e até convida figuras exóticas para seu programa de rádio.

É verdade que essa capacidade de diálogo tem caído, mas nada comparável ao poço sem fundo brasileiro, onde compartilhar notas difamatórias substitui a contra-argumentação.

***

Embora eu não tido a oportunidade de conviver com Olavo, eu tive algum contato com um dos seus alunos mais próximos: o Silvio Grimaldo.

Enquanto o meio cultural brasileiro está cheio de pessoas se esfaqueando pelas costas, o Silvio me tratou sempre com a mais absoluta generosidade. Já o procurei várias vezes pedindo conselhos, material bibliográfico e ajuda em assuntos variados e ele sempre me tratou com a maior atenção, sem pedir absolutamente nada em troca.

Minha impressão sempre foi estar diante de uma turma que queria apenas estudar e ajudar os outros. Exatamente o contrário da cultura média ambiente.

***

Foi o Silvio, aliás, que organizou meu primeiro e único encontro com o Olavo. Encontro, aliás, onde recebi dois conselhos que passei uma década para digerir.

O encontro ocorreu em 2008. Em um período de irritação com a carreira acadêmica, resolvi passar um semestre nos EUA. O Silvio então me convidou para ir conhecer o Olavo.

Estudante, sem um tostão no bolso, a família toda foi me buscar na estação de trem, em plena madrugada, e me hospedou pelo fim de semana. Passamos o fim de semana conversando e rindo.

Nem preciso dizer que não havia sinal algum do bicho-papão desenhado pelos difamadores. A única coisa que vi foi gente generosa e hospitaleira. Eu, um perfeito estranho, fui recebido como se fosse da família.

Embora eu nunca os tenha encontrado novamente, antes de ir embora, o Olavo me deu dois conselhos… que eu fui burro demais para por em prática.

Não me lembro das palavras exatas, mas a essência da coisa era mais ou menos o seguinte: a cultura brasileira era muito hostil e a academia brasileira era pior ainda. Em vez de voltar ao Brasil e insistir na carreira acadêmica, eu deveria ir morar fora, mesmo que fosse trabalhando em outra coisa.

Escutei o conselho, mas não quis abrir mão da academia. Até passei um tempo fora do país, mas voltei porque queria ser professor. Terminei mestrado, doutorado, pós-doutorado e ensinei em várias instituições.

Por todos os critérios exteriores, o meu sucesso nesse caminho parecia provar que o conselho dele estava errado. Mas…

… quanto mais o tempo passava, mais decepcionado eu ficava. Além dos problemas tradicionais do Brasil (violência, falta de segurança jurídica, burocracia, má qualidade dos serviços), eu não encontrava um mínimo de curiosidade intelectual ao meu redor. Ao contrário do que as pessoas geralmente dizem, o salário era a única coisa que não era ruim. Mas a falta geral de curiosidade e respeito pesava.

Teve uma hora que não deu mais. Decidi jogar tudo para cima e recomeçar em um ambiente mais agradável.

Creio que levou mais de um ano para cair a ficha: eu estava seguindo o seu conselho… com uma década de atraso.

Fui forçado a afirmar, calmamente, como quem diz uma obviedade, sem nem perceber que estava repetindo o tema do bordão:

– Caramba, não é que o Olavo tinha razão?


Depoimento da Meri Angélica Harakava

Olavo meu caro,

Sobre essa onda de fofocas e tentativas de prejudicar-te: por triste e doloroso que tem sido para ti, sei que isto é pouco perto do que passaste nos anos 80 (e um pouco todos nós que te acompanhamos na época mais desgraçada da tua vida). Enfrentaste duas seitas internacionais em sequência, sofrendo com assédio, boicote, desagregação familiar, desestruturação social e profissional, falsas denúncias, falsos amigos. Mas nunca se deixando vencer, viraste sempre a mesa, desmascarando e derrotando os mentirosos, moralmente e legalmente – sem esquecer de amparar os filhos e os amigos. Viveste durante anos num ambiente tumultuado, acolhendo na própria casa egressos das seitas (eu também), filhos e ex-esposa, uma imensidão de dramas humanos nas costas; mas nesses longos e atormentados dias punhas-te a estudar, escrever, lecionar, publicar, superando todos os adversários nos seus campos de estudo e ganhando o respeito dos melhores. Sinto-me honrada por ter lutado por isso, cedo, aos vinte e poucos anos, ter labutado nos teus cursos, escritos, publicações, ter enfrentado nos tribunais os falsos depoentes e o descrédito da sociedade. Foi duro, mas esse sacrifício na juventude foi compensado. Tenho a satisfação de ver multidões hoje constatarem aquilo que eu já sabia lá atrás: Olavo é um gênio e faz o Brasil valer a pena. E a todo momento ver manifestações do mais profundo amor e reconhecimento a ti por parte de pessoas que nunca tiveram a oportunidade de conhecer-te, que alegria isso me traz! Graças a Deus, Olavo, por teres razão, coragem, generosidade, fé inabalável, e por ajudar tantos a construir suas vidas sobre fundamentos firmes.


 

Quanto à carta de gratidão que escrevi ao prof. Olavo de Carvalho, deixo claro que refleti por muitos dias, seriamente, antes de tomar a decisão de fazê-la. Não sou aluna do Olavo, aliás nunca fui. Porém, ele fez parte de minha vida em um momento que se tornou importantíssimo em minha história, o momento de minha conversão e retorno à Igreja Católica. Como não ser grata a este homem? Como não expressar esta gratidão, que Deus sabe o quanto este senhor me ajudou, quando uma crise terrível surge sobre sua vida? Não sou ingrata. Jamais esquecerei o quanto seus artigos e palestras virtuais abriram meus olhos em direção à busca da Verdade – que irei perseguir até meu último suspiro, se assim Deus o quiser.

Se trilho hoje novas estradas de pensamento, até a isto devo-lhe gratidão. Se estas estradas rumam por outras direções, sejam filosóficas, intelectuais, ou mesmo espirituais, isto cabe somente à minha consciência. Espero com toda a força de minha alma, não perder nunca a compaixão, nem a capacidade de gratidão.

Maledicência é pecado mortal. Usem suas capacidades e tempo útil a pesquisar, escrever ou ajudar a quem enfrenta o duro combate cultural por meio da doação de suas vidas e emprego de seus esforços pessoais.


 

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