Tobias Goulão- O Jardim das Aflições

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“Do Olavo de Carvalho não se fala”, ou A importância do documentário “O Jardim das Aflições”

Para a indignação de todos os que tecem inúmeras ofensas ao filósofo, esse momento não conseguiu passar em vão. Aquele que deveria ser relegado ao esquecimento, hoje está em um documentário tendo o seu pensamento exposto para todo o Brasil

Tobias Goulão
Especial para o Jornal Opção

“Do Olavo de Carvalho não se fala”, disse certa vez o líder comunista Milton Temer, e essa frase resumiu durante alguns anos a posição que se tomava sobre o autor. O homem de 70 anos, atualmente morando no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, autor de livros de sucesso como “O imbecil coletivo” e “Aristóteles e nova perspectiva”, entre outros, e que durante um bom tempo constava entre os colaboradores dos veículos de mídia como revista ÉpocaO GloboJornal da TardeFolha de São PauloDiário do Comércio, passou por uma tentativa de ser relegado ao esquecimento. Motivo: atitude de denúncia do establishment brasileiro. O que a casta dos intelectuais e políticos tupiniquins esqueceu foi que não havia mais uma hegemonia na forma de exposição de ideias, no fornecimento de aulas, na difusão de conhecimento. A internet e a iniciativa particular conseguiram suprir o ostracismo que tentaram impor a Olavo de Carvalho, que ainda continuou a escrever, a lecionar e a semear em uma terra desolada. O resultado é que hoje, em 2017, não há mais como ignorar Olavo de Carvalho. Até mesmo o cinema é prova disso.

O documentário O Jardim das Aflições, lançado recentemente, em 30 de maio, e que está percorrendo as principais cidades do país, é prova da importância que Olavo de Carvalho exerce no meio intelectual, mesmo ainda sendo ignorado por muitas pessoas que compõem a intelligentsia no país. O filme dirigido por Josias Teófilo foi rodado sem nenhuma verba governamental e conseguiu, por financiamento coletivo, uma soma de 315 mil reais – um baixo orçamento se comparado às grandes cifras de filmes que são rodados via Lei Rouanet. Em uma combinação de diálogos, leituras de trechos de obras filosóficas do próprio Olavo e de outros autores, as três partes do documentário caminham, como uma escrita sinfônica à maneira que o poeta Bruno Tolentino classificava a escrita de Olavo, a um arremate belo após a grande execução.

As três partes, I Contra a tirania do coletivo, II Como tornar-se o que se é, III e As ideias dos náufragos, são uma forma de dar espaços à observação que o autor faz sobre as forças que tem ação sobre nós. Assim ele destaca o poder que o Estado exerce sobre os indivíduos, coisa que outrora não encontramos paralelo e como a esfera da ação política em busca desse controle tomou conta de todas as atividades, inclusive da religião. Após expor o avanço do controle via Estado, há uma longa exibição de como buscar a consciência de si, de como moldar a própria personalidade tentando caminhar em meio às inúmeras forças que exercem sobre nós algum poder e, mesmo assim, saber utilizar todas como meio de auxílio na nossa formação. Por fim, após o encontro com o poder, com a noção de construção daquilo que somos, Olavo fala a nós sobre aquelas ideias que levam os homens à ação, as ideias que movimentam e que acabam por construir um caminho na história humana. Como um bom estudioso das ideias clássicas, ao dialogar fica claro o ponto em que, citando Platão, nos lembra que a filosofia nos ensina a morrer; mais ainda, a filosofia acaba mostrando ao fim que peso possuem nossas ações, pois a distinção final é a que mesmo não mais presentes corporalmente nossas ações, nosso ser que, em tempos passados, surgiu e agiu não perde nada dessa condição. Aquilo que é ser, não pode ser não-ser; aqueles que realizaram alguma ação, não podem desfazê-las.

Nas escolhas de filmagem de Josias Teófilo, tudo é caminho para encontrar a figura do filósofo distante da torre de marfim que muitos intelectuais cultivam. As panorâmicas na cidade onde ele habita, o passeio na pequena livraria, as cenas em família, a reunião na sala, o tempo na biblioteca e até mesmo os relatos sobre o Olavo feitos pela esposa Roxane caminham para mostrar a integridade do que o filósofo fala e daquilo que ele vive. A montagem faz relação com toda a narrativa do documentário, sendo elemento que representa, ora de forma clara e outras simbolicamente, aquilo que Olavo está explicando. As cenas retiradas de entrevistas conferidas pelo autor, trechos retirados de filmes somados às cenas que se passam em Brasília, seja na visão aérea da catedral, seja no plano-sequência que traz a explanada dividida em tempos de impeachment, são excelentes ilustrações dos temas discutidos: poder, consciência e transcendência. Ainda é importante citar na construção do filme o peso da fotografia do premiado Daniel Aragão. Ele soube passar muito bem a atmosfera da proposta inicial de Josias: partir do livro e expandir o tema de O Jardim das Aflições. Ou seja, da tirania imposta pelo Estado, da importância de saber quem se é e do elemento transcendental no homem. Um detalhe à parte é a trilha sonora: 1ª Sinfonia de Sibelius, além de ser uma obra magistral que completa a composição do cenário o qual ambienta a vida do filósofo, é uma referência à forma da escrita do Olavo.

Mas aquilo que o documentário melhor retrata é um simples fato: o filósofo no seu exercício de filosofar. A definição que Olavo de Carvalho oferece de filosofia, “a busca metódica pela unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa”, é justamente o que está exposto em O Jardim das Aflições. No filme, principalmente na exposição da consciência de si que compõe a segunda parte do documentário, vemos esse exercício. As reflexões feitas por Olavo nada mais são que esse ato de fazer uma filosofia que esteja diretamente ligada à realidade e aos elementos circunstanciais que dão ao indivíduo a matéria-prima para ser aquilo que é. É justamente a composição de uma sinfonia que transmite a busca da unidade entre as ideias que estão em ação no indivíduo, a procura por entender a realidade que está em constante relação com essas ideias e como elas não devem ser apenas uma obra de gabinete, mas uma composição que busca justamente determinar a unidade do real. As circunstâncias, referência direta ao filósofo espanhol José Ortega y Gasset, que já foi comentado pelo próprio protagonista do documentário como um dos responsáveis por abri-lhe os olhos para fora do mundo marxista, são as condições que estão ligadas diretamente à formação de nossa realidade como pessoa. Considerar o efeito dos elementos internos e externos a nós é um dos temas que serão expostos e que dão um tom importante ao desenrolar da explicação de Olavo sobre a nossa busca para nos tornarmos aquilo que somos. Outra referência não feita no documentário, mas que pode ser percebida mesmo que levemente, é vinda do francês Louis Lavelle, que em outras situações é mencionado pelo filósofo brasileiro e que tem em seus escritos justamente uma busca por essa consciência de si, ligada a um aprofundar-se no próprio ser e um expandir-se ao encontro do outro.

O que é feito nesse exercício filosófico que vemos no documentário é aquilo que certa vez Olavo de Carvalho explicou ter visto de um filósofo de fato, não de um professor de história da filosofia. Em seu tempo como aluno do Pe. Stanislavs Ladusãns, sacerdote católico vindo da Letônia, disse que este fazia em suas aulas o exame dos problemas propostos seguindo uma linha que passava pelas respostas de vários autores até chegar a uma solução. Esse método do exame, da narrativa do problema e da observação de suas causas, efeito e solução é o que temos nas lições dadas durante o documentário.

Como lembra Eric Voegelin, autor a quem Olavo faz referência durante o documentário, filosofar é algo que deve ser feito para resgatar a realidade. Justamente essa é a obra de resgate a qual Olavo dedica boa parte de seu trabalho. É intenção dele o resgate das inteligências no Brasil, uma ação de esquecimento das ideologias e procurar, na realidade, ligar-se ao que ela é e assim buscar a compreensão da vida humana. Apelo à realidade esse que também pode ser encontrado em outro grande filósofo por vezes mencionado por Olavo em outras ocasiões, o espanhol Xavier Zubiri, que traz na sua filosofia a mesma noção de se ligar ao real e, a partir de nossa relação com ele, buscar a compreensão apartada das vias ideológicas que têm como intuito apenas nublar a verdade das ações da realidade.

Além de Voegelin, Aristóteles e Platão são outras referências citadas várias vezes durante o documentário, o que mostra a conexão entre a filosofia não como uma sucessão de ideias nas quais a cada moda se esquece os antecessores, mas como um conjunto concreto no qual se utiliza de toda a verdade que há em seu trajeto histórico até hoje, talvez uma mostra do que Mario Ferreira dos Santos fez em sua Filosofia Concreta, este que também é um autor muito estudado por Olavo.

Para a indignação de todos os que tecem inúmeras ofensas a Olavo de Carvalho, esse momento não conseguiu passar em vão. Aquele que deveria ser relegado ao esquecimento, ser tratado como pária, hoje está em um documentário tendo o seu pensamento exposto para todo o Brasil. A figura que deixou toda uma casta intelectual com muita indignação está novamente nos holofotes, o que reflete a influência que ele exerce, cada vez mais, em uma população que começa a se levantar do lamaçal ideológico em que estamos mergulhando (vide as referências diretas a ele nas várias manifestações públicas que tivemos no país). Para “um filme que não deveria existir”, O Jardim das Aflições veio dar novos ares ao cinema e uma nova visibilidade para a filosofia no Brasil.

Tobias Goulão é mestre em História pela Universidade Federal de Goiás.

 

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