5.7.2017

A apologia do capitalismo contra o socialismo é fútil e vazia se não levar em conta a crítica do capitalismo empreendida em três fronts principais: (a) a tradição marxista; (b) o socialismo nacionalista ítalo-germânico (aparentado ou não ao nazifascismo); (c) a literatura católica (Chesterton, Bloy, Péguy, Bernanos e tutti quanti). Dedicar uns três anos ao estudo dessas fontes não faria mal nenhum aos liberais mais assanhadinhos.

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Todo idiota acredita piamente que qualquer corrente de pensamento que ele desconheça — e da qual não ouça falar na mídia todos os dias — já está, por definição, “superada”.

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Um dia darei um curso sobre as tradições anticapitalistas. Vocês ficarão impressionados não só com a riqueza de idéias aí contida, mas com a superficialidade da resposta liberal. Depois de haver absorvido esse material, continuo cem por cento pró-capitalista, com uma diferença: eu SEI das responsabilidades envolvidas nisso.

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Liberalismo, em noventa e nove por cento dos casos, consiste em estar a favor da coisa certa pelos motivos errados.

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Parlamento de tarados:

https://www.theguardian.com/technology/2017/jan/12/give-robots-personhood-status-eu-committee-argues

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Tão-somente ANALFABETOS acreditam que o nazismo só tinha de socialista o nome. Seis ou sete décadas de discussões internas no movimento socialista, encabeçadas por discípulos rebeldes de Marx como Ferdinand Lasalle e Werner Sombart, prepararam o seu advento. Por volta de 1920 a síntese de socialismo e nacionalismo já era um princípio estabelecido nos meios revolucionários alemães, praticamente sem oposição (exceto entre grupos marxistas ortodoxos que àquela altura ainda eram internacionalistas). Hitler só lhe acrescentou a tonalidade especificamente militarista e imperialista que se tornou a marca registrada do seu partido e da sua política. Não deixa de ser significativo que, logo em seguida, Stalin adotasse exatamente o mesmo princípio na URSS, transmutando a revolução mundial em “grande guerra patriótics” (sic).

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É um absurdo condenar como nazistas todos os que participaram dessas discussões e, com base nisso, desprezar suas idéias sem precisar conhecê-las. A crítica anticapitalista e antidemocrática que alguns deles desenvolveram é, sob muitos aspectos, superior à marxista. Refiro-me especialmente a Oswald Spengler, Ludwig Klages e Werner Sombart,

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Hitler não acrescentou ao chamado “socialismo alemão” (como o denominou Werner Sombart), ou “socialismo fascista” (como preferia Drieu La Rochelle), nem o estatismo ferozmente centralizador, que era um dogma unanimemente aceito nesses meios, e nem mesmo o anti-semitismo, que era arroz-com-feijão entre os socialistas.

Rafael Kenji Mekaro Os judeus eram visto como os globalistas naquela época ou eram apenas a “classe rica”?
Olavo de Carvalho Classe rica. Isso já está em Marx. Foram os socialistas alemães que enfatizaram o internacionalismo judaico.

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A verdadeira contribuição original de Hitler ao socialismo alemão foi a política expansionista, na qual a maioria dos intelectuais ligados a esse movimento não havia pensado.

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Martin Heidegger NÃO tomou parte nas discussões a que me refiro. Chegou ao nazismo diretamente e por uma via muito pessoal.

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Werner Sombart definia o socialismo como o regime em que todas as atividades humanas são regidas por um plano geral sob o comando do Estado. Visto sob esse ângulo, o mundo inteiro, hoje, caminha velozmente para o socialismo.

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O nazismo pode ser definido, sumariamente, como a militarização imperialista do socialismo alemão.

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A Escola Austríaca combateu o socialismo alemão mais nas suas conseqüências práticas (muito bem previstas por Friedrich Hayek em “O Caminho da Servidão”) do que nos seus fundamentos filosóficos.

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O sucesso de Hitler deveu-se ao fato de que ele foi o único que descobriu uma via rápida para a instauração do socialismo na Alemanha. Ele percebeu que sem um projeto imperialista seria impossível usar as Forças Armadas como instrumento para submeter toda a sociedade a um plano geral.

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Trotski teve a mesma idéia na Rússia — ele falava claramente em militarização da sociedade –, mas o exército russo se demonstrou incapaz de realizá-la de início. O imperialismo russo só teve seu momento de glória quando da invasão alemã, que deu a Stalin o pretexto para se encher de dinheiro americano e montar um exército decente.

Nando Castro Professor, como o Stálin conseguiu tanto dinheiro americano? Eles realmente acreditaram que naquele momento, o melhor era somente derrotar a Alemanha, mesmo que isso significasse fortalecer a URSS?
Olavo de Carvalho Pergunta interessante. A resposta é mais simples do que parece. Stalin infiltrou seus agentes nos altos escalões do governo americano e eles induziram Roosevelt a fazer tudo o que era bom para a URSS. Leia Diana West, “American Betrayal”.

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Curiosidade: Dos excelentes fuzis Mosin-Nagant, que Stalin mandou fabricar aos milhões a toque de caixa, metade está hoje nos EUA, onde os colecionadores (como eu) os compram por uma micharia.

É este:

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Foi a reação horrorizada ante a síntese inevitável de socialismo e militarismo que levou Friedrich Hayek, por contraste, à idéia (de jerico) da “ordem espontânea”, tão acertadamente criticada outro dia pelo Filipe G. Martins.

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Certas melodias — como a canção da águia no filme “Dersu Uszala”, a ária “La Vergine degli Angeli” de “La Forza del Destino”, ou a ária do soldado na opera “Der Kuhreigen” de Wilhelm Kienzl — expressam tão bem o fundo da minha alma, que, na minha fantasia delirante, chego a imaginar que fui eu que as compus.

https://www.youtube.com/watch?v=n-mhkACf22E
https://www.youtube.com/watch?v=rYgQbhoLtxc
https://www.youtube.com/watch?v=y3GUSvvviBM

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Hitler não inventou nem mesmo a expressão “nacional-socialismo”, que já era usada por Werner Sombart muito antes, como nome de uma proposta política que o nazismo veio a condenar. Também o termo “nacional-bolchevismo” não foi inventado por Alexandre Duguin, nem por Eduard Limonov, nem por russo nenhum. Já circulava nos meios socialistas alemães desde o começo do século XX.

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Sombart, um dos maiores cientistas sociais de todos os tempos, foi muito incompreendido por causa do seu hábito de usar expressões correntes do vocabulário político como nomes de conceitos que ele definia de maneira totalmente diversa das idéias populares evocadas pelos mesmos termos.

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“A beleza não é senão uma estação intermediária em direção à verdade.”
(Sergiu Celibidache)

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Como tive, graças à minha amiga Meri Angélica Harakava, a oportunidade de ouro de ouvir o maestro Celibidache em pessoa, percebo claramente a diferença, que ele tanto ressaltava, entre a audição presente e a reprodução gravada. Algo, sem dúvida, se perde irremediavelmente na passagem de uma coisa à outra. Mas quê faríamos sem as gravações que nos restam desse supremo artista e filósofo da música?