O Jardim das Aflições Calos Alberto Mattos

O homem de Virginia

Não estou bem certo se O JARDIM DAS AFLIÇÕES pode ser chamado de um filme. O fato de estar sendo projetado numa tela não é suficiente quando falta qualquer laivo de invenção, método ou revelação. Sob o pretexto de um documentário sobre Olavo de Carvalho na intimidade de sua casa (na Virginia, EUA) e de suas ideias, Josias Teófilo criou apenas um veículo subserviente para o escritor “vender” seu livro homônimo, seus cursos e sua vaidade livresca exposta em infindáveis tomadas de estantes abarrotadas.

Algumas cenas canhestras de aconchego familiar tentam mostrar o lado humano do personagem, mas o que prevalece mesmo é a imagem da família e do diretor ouvindo, embevecidos, Olavo desfiar generalidades filosóficas na sala de estar.

Quando sai do campo das generalidades, as coisas ficam ainda mais difíceis de engolir. Para Olavo, o estado é um mero controlador de individualidades, já que ele não aprova qualquer função social dos governos. Sua peroração sobre a “revolução cultural” que a esquerda teria realizado no Brasil com a parceria das universidades e da mídia atinge a esfera da paranoia delirante. A noção de que o mundo está dado como natureza e nada resta a fazer, pois tudo o mais seria controle e imposição, cai bem como ideologia de defesa do status quo capitalista.

A câmera impassível e submissa de Josias Teófilo ouve a tudo como se fosse a palavra de Deus. Mesmo no campo das ideias, o filme tem dificuldade em fornecer uma síntese, por exemplo, da oposição de Olavo à tal “tirania do coletivo”, conceito que nomeia a primeira das três partes. A ilustração das falas sobre poder com imagens anódinas de Brasília é o cúmulo da preguiça, assim como as cenas de “Limite”/Mario Peixoto coladas a um texto de Ortega y Gasset insinuam uma conexão para além de qualquer entendimento racional ou poético.

Se essa visita ao ideólogo conservador fornece algum insight é sobre a admiração dele pelo Tio Sam. Sua reverência aos marcos da Guerra Civil Americana na região onde mora (“Aqui a gente sente que tem História”) e a admiração pelas armas e os westerns poderia ter inspirado o documentário no rumo de uma paródia de gênero. Mas aí seria um filme.

https://carmattos.com/2017/06/03/o-homem-de-virginia/

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