Raul Martins

Raul Martins

IMPRESSÕES DESENCONTRADAS E AMARFANHADAS SOBRE O JARDIM DAS AFLIÇÕES: O FILME

Primeiramente (fora Tem…), O Jardim das Aflições quer deixar o documentado falar.

Ou melhor dizendo: quer mostrar de onde vem a voz que fala. Quer abrir alas à pessoa do filósofo que fala, deixá-lo passar e dele cristalizar o que há de mais elevado, o que nele há de eterno e irrevogável.

O Jardim das Aflições, à parte a inegável Beleza — acessível, graças ao bom Deus, a todos os seres humanos normais e não apenas a críticos de cinema –, é notavelmente humilde. O filme inteiro gira em torno do personagem e jamais tenta tomar-lhe o lugar, empurrá-lo para fora do holofote à força daquelas técnicas cinematográficas chic e esotéricas, daqueles cabalísticos movimentos de câmera tão em voga nos círculos cult. Eu, que não entendo nada de nada e ainda menos de cinema, deixei-me levar pelo filme sem esforço, só no sapatinho.

É que a obra, além de translúcida, é muitíssimo bem encadeada. Há uma ou duas transições de cena que são para se guardar na memória pelo resto da vida. Roberto Mallet empresta ao maravilhoso prefácio de Tolentino a sua voz carregada e cavada, como se das entranhas do mundo despontassem as palavras do poeta a apresentar a obra-prima do amigo. As três partes do filme vão, como fez notar o prof. Falcón, como que escalando a consciência do filósofo desde o seu aspecto mais periférico, óbvio e baixo (o indivíduo contra o totalitarismo) até as “idéias dos náufragos” e o núcleo mesmo da sua viva e dinâmica definição do que cargas d’água é este negócio aí que chamam de filosofia (é a unidade da consciência da unidade do conhecimento e vice-versa, minha gente).

E a tudo isso enrodilhado, dando corpo e carne às idéias, o cotidiano do homem. A sua família. Roxane, a doce Roxane. Leilah, a nossa gargalhadora profissional. Sua casa, escolhida a dedo no meio do mato para afugentar o mais que puder as ilusões burguesas. Os seus netinhos. O sebo. O VÉIO ANDANDO (coisa mais fantástica para os cofianos, que até então o imaginavam como uma entidade que não existia para fora de sua mesa e de seu escritório). Ali, enfim, a quem tiver olhos, que veja como as caricaturas, como os aspectos separados e por vezes algo vertiginosos de sua inabarcável personalidade estão todos integrados num homem só, sólido e coeso.

Ali, não há um “pensador de direita”. Há um homem pensante. Não há “guru conservador” de nada. Ali, enfim, Olavo de Carvalho está livre de picuinhas e do falatório infernal. Está desligado das maluquices, pairando acima dos loucos que o perseguem como cães raivosos. Ali, o filósofo não é o polemista do True Outspeak nem o aforista do Facebook. Não é o jornalista nem o bestseller. Não é o crítico cultural nem o palestrante. Não é nem mesmo o professor de filosofia. Ali, o filósofo é o homem, e o homem o filósofo. As lentes das câmeras enquadram-lhe a forma da personalidade e, à força da Beleza, pregam-na, para todo o sempre, na eternidade. Caem as máscaras; cessam as polêmicas; minguam e empalidecem as ninharias. O que fica é o homem, apegado às suas idéias como um náufrago às tábuas boiantes, perante o Criador que passeia no Jardim deste Mundo cheio de aflições.

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Não é à toa que o único pensador original a aparecer por estas plagas em décadas seja “polêmico”. Que o único pensador que fale desde o centro de sua consciência – que, portanto, o único pensador, ponto – seja exorcizado, com horror, como um diabo cuspido do fundo do inferno, pelos frágeis bonequinhos de palha que brincam de pensar. É que a criança, toda gostosona brincando de soldado, cagaria nas calças ao ver um herói de guerra em plena carnificina.

A reação histérica, pelo grosso de nossa elite bem-pensante, à simples menção do filme não pode ser explicada apenas em termos de cegueiras ideológicas e mau gosto congênito. Ali não há apenas burrice e inveja. Há terror. Há pavor esbaforido porcamente mascarado pelos não-me-toques e a lengalenga sobre coup d’états. Não é só a beleza. Não é só a política. É o homem.

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A quem clandestinamente, auxiliado por gambiarras e movendo-se nas sombras do submundo do anonimato, punha-se para ouvir “aquele sujeito lá da Virginia que dá uns cursos” nuns arquivos mp3 suspeitíssimos, passados de mão em mão por baixo dos panos, como papelotes de pó, ver o filme do Josias, lindo de morrer, ali no cinema, tem algo de catártico: é de lavar a alma. Enfim, ora porra, no plano sensorial imediato, visível e palpável, a forma alcançou o conteúdo: a Beleza deu as mãos à Verdade ao som de Sibelius.

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Aos cofianos, o filme tem gostinho de revanche. A gente ficou lá, eu lhes garanto, assistindo a tudo e pensando “vê só, a gente não era os doidos, os malucos? Olha aí agora quem é o nosso professor”. Coisa de camada 3, claro. Ou 4.

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