25.5.2017

“Fiz o possível por entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seus defeitos a sombra dos meus defeitos.”
Esta frase das ” Memórias do Cárcere” de Graciliano Ramos, que hoje mesmo o Bruno Gama Duarte recordou a propósito de outra coisa, revela algo sobre a devastadora crise moral brasileira. Nos anos 30 do século passado, um comunista, um ateu, podia tentar compreender e amar as almas dos que o prenderam e atormentaram. Hoje em dia, os que se dizem cristãos são incapazes de imaginar como um ser humano quem simplesmente diga algo que lhes pareça um pouco estranho. Coisificar, demonizar, odiar e temer — tais são as operações básicas com que a alma contemporânea tenta se orientar perante as outras almas.

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A politização geral da vida humana reduziu a atividade das consciências à mais elementar e mecânica das operações: a catalogação partidária. Já não há mais seres humanos de carne e osso, apenas eleitores, cuja única substância ontológica é o nome do candidato em que votam. O “cidadão” já era um ente abstrato, o “eleitor” é um segundo recorte abstrativo feito em cima do primeiro. Tão logo você nota que o sujeito é “de direita”ou “de esquerda”, está alcançado o único e supremo objetivo da inteligência humana.

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Para não dizer que só há duas categorias, há quatro: a direita, a esquerda, e os respectivos “extremos”, os quais, é claro, devem ser evitados a todo preço, a bem da ordem pública, das boas maneiras e da estética facial.

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Embora a coisa mais evidente do mundo seja que hoje a autodenominada esquerda é o instrumento principal a serviço da ordem globalista, a auto-imagem de cada esquerdista ainda se define pelos antigos sentimentos de rebeldia e independência que se associaram à idéia de “revolução”. Isso faz com que seja quase impossível, a um esquerdista dos nossos dias, saber onde está e o que está fazendo. Em conseqüência, cada vez que ele vê um cidadão defendendo os interesses nacionais contra os dominadores globalistas, coisa que a própria esquerda fazia umas décadas atrás, ele já enxerga por trás disso o “ódio a gays, negros e mulheres” (os quais não tinham entrado na história de maneira alguma), e se enche de horror.

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A própria catalogação ideológica, que é o instrumento principal ou único de orientação da consciência contemporânea no mundo, tornou-se nada mais que projeção fantasmagórica, o que reduz a menos que zero o pouco de valor cognitivo que ainda pudesse lhe restar,

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O pior é que, quando o sujeito começa a tomar uma vaga consciência disso, ele busca um alívio proclamando que “esquerda e direita estão superadas” e apegando-se miseravelmente à ilusão da sua superioridade cognitiva no instante mesmo em que se dedica dia e noite a não compreender nada de nada.

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Já notaram que TODO MUNDO é “contra os extremismos de esquerda e de direita”? Como, nessas condições, se torna cada vez mais difícil encontrar um extremista de verdade fora do ISIS, o remédio é incluir nessa categoria qualquer idéia que soe um pouco esquisita, e, lutando pelo seu banimento total dos ambientes decentes, se não pela prisão dos seus responsáveis, acreditar piamente que o oposto do extremismo consiste em tomar medidas extremas.

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Hoje em dia, basta você dizer que um sujeito nunca roubou um tostão, que nunca bateu na mulher nem tocou punheta em público, para todo mundo jurar que você é do partido dele.

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Um dos modestos orgulhos que tenho no exercício da análise política é nunca ter xingado alguém de “falso direitista”. A principal característica da direita brasileira hoje em dia é o purismo, a ânsia irrefreada de traçar fronteiras doutrinais e banir os hereges. Desse mal não morrerei.

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O simples reconhecimento de virtudes ou vícios evidentes e gritantes tornou-se uma carteirinha de filiação partidária. E negar a filiação equivale a uma identidade de agente secreto.

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Procura-se, vivo ou morto:
Quem foi que APAGOU o incêndio do Ministério da Cultura?

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Se o Arruinaldo tivesse sido demitido ou censurado, com certeza eu o defenderia. Mas não tem sentido defender o cidadão contra uma decisão que foi dele próprio.

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Quando um colunista é achincalhado no próprio jornal ou revista onde escreve, o que ele tem de fazer, em vez de sair batendo pezinho, é usar as páginas mesmas da publicação para achincalhá-la de volta. Fiz Isso no Globo e na Época e, confesso, FOI UM TESÃO.

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Ninguém acusou o Arruinaldo de porra nenhuma. O caso dele é como o daquele sujeito que, de tanto tocar punheta pensando na mulher do vizinho, se sente acusado de comê-la.

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Não parem de prestar atenção ao caso Seth Rich. Todo o segredo por trás do “conluio do Trump com os russos” está aí:

http://www.wnd.com/2017/05/twitter-suspends-news-agency-for-seth-rich-report/

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Poderosos interesses estão mobilizados para bloquear toda investigação do caso Seth Rich. Sean Hannity perdeu anunciantes por tocar no assunto e o WND foi suspenso do Twitter.

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Seth Rich era um membro do Diretório Nacional Democrata. Foi ele, e não “os russos”, quem passou ao Wikileaks os e-mails comprometedores. Depois disso ele apareceu assassinado em circunstâncias misteriosas, e a investigação policial foi totalmente irregular, omitindo-se de interrogar testemunhas essenciais. Seth Rich tinha de desaparecer para que a história dos “russos” adquirisse ao menos um simulacro de verossimilhança.

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Acabo de receber e estou lendo, com enorme satisfação, “Contra a Escola. Ensaio sobre Literatura, Ensino e Educação Liberal” (Campinas, Vide Editorial, 2016), de Fausto Zamboni, professor de Língua e Literatura Italiana na UNIOESTE-PR . É um livro que recomendo enfaticamente a pais, professores e estudantes preocupados com a catástrofe educacional brasileira e a todos os que buscam um meio de educar-se numa sociedade em que o governo, a mídia e as escolas públicas e privadas fazem tudo para tornar isso impossível. O autor não só analisa essa questão com inteligência e conhecimento de causa, mas — o que é raríssimo hoje em dia — escreve como um verdadeiro escritor, com pleno domínio dos seus meios de expressão. Bravo, Fausto Zamboni!

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Lá vem merda.

http://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/6558599/dilma-entra-com-liminar-stf-para-anular-impeachment-voltar-cargo

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Aqueles que acham lindo violar regras sedimentadas em milênios de experiência não toleram a mais mínima violação das regras que eles mesmos inventaram.

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Enigma dos enigmas: Por que, nos filmes de Hollywood, os carinhas NUNCA contam as balas antes de entrar num tiroteio?

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