23.5.2017

A igualdade social e econômica de homens e mulheres só se tornou possível num estado avançadíssimo de desenvolvimento do capitalismo industrial, uma sociedade inabarcavelmente complexa, fruto de milênios de esforços acumulados.
Ela não tem nada de natural. É uma invenção tardia, dificílima de realizar e repleta de conseqüências impremeditadas.
A mais tola ingenuidade é imaginar que tudo o que desejamos é um direito natural.
Eu, por exemplo, desejo e exerço a liberdade de opinião, mas não sou idiota ao ponto de pensar que é um direito natural. É uma sorte incrível, que a maior parte da humanidade jamais desfrutou, e que caiu no nosso colo por efeito de uma evolução histórica que mal chegamos a compreender.

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Tenho afeição e respeito por todos os meus alunos. Jamais falaria nem falei jamais a um deles num tom de superioridade esmagadora e humilhante. Por isso mesmo acho lindo, fantástico, extraordinário, quando um zé-mané qualquer, que nunca escreveu quatro palavras sem errar cinco, nem ensinou sequer um papagaio a dizer “papai” e “mamãe”, aparece falando deles com desprezo olímpico, do alto do trono de peidos que ergueu em sua própria glória no céu da Terra do Nunca.
A empáfia do imbecil é uma das maravilhas do universo.

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A marca registrada do incapaz é andar por aí com uma régua de admirações na mão, banindo as que lhe parecem excessivas. Leibniz já dizia: É característico do espírito mesquinho elogiar sempre com moderação.

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A coisa mais lindinha que li na mídia nos últimos anos foi o Frei Betto dizendo que é “contra os extremismos de esquerda e de direita”.
A frase em si já é a marca inconfundível do cabeça-oca que só quer parecer bonitinho.
Mas, na boca do referido, ela se torna uma autogozação involuntária memorável.
Tendo sido colaborador da ditadura Fidel Castro e até co-autor da Constituição comunista de Cuba, com certeza ele acha que condenar à morte 17 mil pessoas, meter cem mil opositores na cadeia e espalhar guerrilhas por três continentes não é extremismo de maneira alguma, é um primor de moderação.

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As situações loucas preparam sempre algumas surpresas auspiciosas. Uma das análises mais realistas do conflito americano, infinitamente superior a tudo o que saiu no Grobo e na Fôia, veio justamente do “Diário da Causa Operária”.
http://causaoperaria.org.br/blog/2017/05/22/impeachment-imperialismo-quer-derrubar-trump-para-impor-um-governo-neoliberal/

 

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Sir Roger Moore morreu ontem, aos 89 anos. Ao lado de Vittorio Gassmann, Marcello Mastroianni e Jean Gabin, ele foi, no meu entender, um dos maiores atores do século, ao qual devemos inumeráveis momentos de diversão e inspiração. Entre os atores de língua inglesa, era aliás O ÚNICO capaz de falar corretamente em idiomas latinos, inclusive o português.

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Um casamento compõe-se de três coisas.
1 – Atração erótica.
2 – Afeição familiar e amor comum aos filhos.
3 – Afinidade espiritual: valores culturais, morais e religiosos compartilhados, convergência nas metas superiores da vida (“idem velle, idem nolle”).
O primeiro fator é genético. Szondi explica.
O segundo é uma questão de bom caráter e educação.
O terceiro, hoje em dia, é um milagre.
Dos três, o único que é relativamente dispensável, em certas circunstâncias, é o primeiro.
Mas a noção moderna do casamento civil ignora os três. Foi a pior idéia de Napoleão Bonaparte.

Rafael Hollanda O que o senhor pensa de casamentos com cônjuges de religiões diferentes?

Olavo de Carvalho Um acaba convertendo o outro.

 

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Gurdjieff, que não era nada bobo, dizia que o amor erótico é retribuído com amor ou repulsa, conforme a genética; o amor espiritual, com amor sempre; e o amor romântico, sempre com repulsa.
Logo, os românticos, se não querem sair invariavelmente frustrados, que tratem de apostar na genética e no espírito, e não nas fantasias que os encantam.

Hélder Araújo Professor, aquela obra do Ouspensky, Organon, o senhor a considera tão importante quanto apregoam os seguidores do Gurdjieff?

Olavo de Carvalho O próprio Gurdjieff achava esse livro desprezível.

Olavo de Carvalho Como tudo o que o Gurdjieff diz, há nisso uma ponta de gozação.

 

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O formalismo abstratista — epistemológico e jurídico — está na base do Estado moderno. O casamento civil não une duas criaturas de carne e osso, nem muito menos suas almas imortais. Une dois “cidadãos” — entidades que não existem concretamente, nem na carne, nem no espírito, mas são recortes abstrativos que só têm existência em sentido metonímico e perante as autoridades estatais.
É uma coisa tão utópica que, quando a inventaram, já tiveram de inventar o divórcio junto, pois sabiam que ia dar merda.

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O casamento civil é tão abstratista que, partindo das suas premissas, nada se pode objetar ao casamento gay — o casamento tão abstrato, tão abstrato, que não inclui nem definição dos deveres sexuais respectivos.

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O casamento civil é tão abstratista que, partindo das suas premissas, nada se pode objetar ao casamento gay — o casamento tão abstrato, tão abstrato, que não inclui nem definição dos deveres sexuais respectivos.

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“Quem come quem?” Esta pergunta fatídica jamais ocorre no casamento hetero, mas no casamento gay ela é inevitável.

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O problema do Uspensky é que ele levava o Gurdjieff a sério — um erro que o próprio Gurdjieff jamais cometeu.

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Se você entende que tudo no Gurdjieff é uma imensa gozação, é impossível lê-lo sem exclamar a cada linha: “Gênio!”. Se você o leva a sério, está, como dizia ele mesmo, em maus lençóis.

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