22.5.2017

Auto-educação. Todo dia eu repito para mim mesmo: “Mocréia também é gente.” Mas sempre resta uma pontinha de dúvida.

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Os EUA são um país maravilhoso, mas a mistura de moralismo extremo e extrema putaria é de esmigalhar qualquer cérebro humano ou animal. Pior: como reação ao moralismo, a putaria americana é agressiva, blasfemadora, trágica e muitas vezes macabra. Perto dela o puro esculacho brasileiro parece até inocente.
A tensão moral dessa situação, agravada desde o advento do “sex lib”, levou a um resultado paradoxal: hoje em dia, segundo todas as pesquisas, os “milennials” têm menos interesse em sexo do que qualquer geração anterior.
Por nada deste mundo eu desejaria ser um jovem americano de hoje.

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QUEM FOI?

QUEM fez com que um menino doentio, quase moribundo, durasse até tornar-se um velho forte e saudável, capaz de continuar seu trabalho até não se sabe quando?
QUEM deu a esse menino, depois de crescido e pai de vários filhos, ainda doente e carregado de obrigações e dívidas, a energia de estudar dia e noite nos intervalos de vários empregos simultâneos, lendo em ônibus, no metrô , em bancos de jardim e balcões de bares, guardando tudo na memória sem usar nenhuma técnica mnemônica?
QUEM lhe deu o impulso de continuar fazendo isso sem jamais ter recebido do ambiente em torno O MENOR estímulo intelectual?
QUEM deu a um zé-mané sem estudos regulares, sem um diploma de ginásio sequer, os meios de tornar-se um erudito reconhecido por dezenas de intelectuais do país e do exterior e de no fim das contas consagrar-se como a maior ou única autoridade intelectual num país de duzentos milhões de habitantes?
QUEM espalhou entre centenas de inimigos dele uma tal confusão mental que não podem escrever três palavras contra ele sem cair nas contradições mais grotescas e desmoralizar-se sem que ele nem precise lhes responder nada?
QUEM fez com que, sem um único centímetro de espaço na grande mídia e sem qualquer badalação nos jornais e na TV, a sua voz se tornasse tão influente ao ponto de ecoar nas ruas e nas praças em grandes manifestações populares?
QUEM fez com que, sem nunca ter ligado a mínima para a moral e a virtude, ele se tornasse capaz de explicar as palavras de Jesus a padres, bispos e pastores com tal simplicidade e poder de persuasão que, quando eles não gostam do que ele diz, só lhes resta amaldiçoá-lo à distância e fazer de si mesmos objeto de chacota?
QUEM fez com que, sem uma notinha num jornal, sem dois segundos de promoção na TV, seus livros alcançassem tiragens de centenas de milhares de cópias, superando de longe os de seus concorrentes mais badalados pela mídia e pelo “establishment”?
QUEM possibilitou que ele, praticamente ou literalmente sozinho, cavasse um rombo enorme numa hegemonia intelectual de cinco décadas, abrindo espaço para a circulação de novas idéias que até então eram absolutamente inaudíveis no espaço público?
QUEM fez tudo isso? Se não foi Deus, eu é que não fui. Minha vida é uma sucessão tão evidente de milagres e prodígios, que quem quer que a contemple por minutos e não exclame “Glória a Deus!” é uma alma empedernida, cega e insensível a uma Presença divina que grita do alto dos telhados.
Por isso é que rio por dentro quando, afetando desprezo pela alta cultura, umas baratas de sacristia vêm me falar dos homens pobres, simples e humildezinhos a quem Deus revela o que sonega aos doutores.
Eu SEI que Deus faz isso. Ele fez comigo.

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P. S. — O mais extraordinário de tudo é que, ao longo das décadas, eu não tinha NENHUM sentimento de missão a cumprir. Tudo o que eu sabia era que tinha de continuar estudando, aprendendo, perguntando e meditando, sem ter a menor idéia do “para quê”. O “para quê” só apareceu bem tarde na vida.

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Moral é dizer aos outros o que fazer. Não adianta nada. Não adianta nem dizer a mim mesmo, porque digo e não cumpro. No fim das contas só há uma coisa a fazer: Orai sem cessar.

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A igualdade social e econômica de homens e mulheres só se tornou possível num estado avançadíssimo de desenvolvimento do capitalismo industrial, uma sociedade inabarcavelmente complexa, fruto de milênios de esforços acumulados.
Ela não tem nada de natural. É uma invenção tardia, dificílima de realizar e repleta de conseqüências impremeditadas.
A mais tola ingenuidade é imaginar que tudo o que desejamos é um direito natural.
Eu, por exemplo, desejo e exerço a liberdade de opinião, mas não sou idiota ao ponto de pensar que é um direito natural. É uma sorte incrível, que a maior parte da humanidade jamais desfrutou, e que caiu no nosso colo por efeito de uma evolução histórica que mal chegamos a compreender.

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