Nícolas Piocoppi

A lição mais preciosa que aprendi com o Olavo e depois com outros escritores como o Henry Miller, o Dostoiévski, o Thomas Mann, o Balzac e outros tantos que valeriam a menção, mas eu fugiria do assunto, é a responsabilidade para com nossa biografia. O Olavo disse uma vez que carregar a cruz atrás do Cristo é justamente sustentar uma tensão que existe em nós e que, para mim, se expressa perfeitamente nas palavras do apóstolo “o bem que quero fazer, este não faço, mas o mal que não quero, este eu faço.” Sobre essa tensão eu digo uma coisa: uma vez que ela se desfaz, você perde totalmente a noção da realidade. Ou você enlouquece, ou enlouquece os demais. Como fazer para se manter “normal” e consciente de si mesmo? É preciso sondar a intenção dos atos, interrogar a si mesmo de onde foi que surgiu os pensamentos que serviram como causa de um determinado ato e assim por diante. Mas isso não é uma tarefa trivial.

Não se trata aqui de julgar se você é bom ou mal. Você não sabe o que você é porque você não sabe muito bem o que é ser muito bom e o que é ser muito mal. Sobretudo se você é muito jovem, você não sabe nem sequer que coisas são mais importantes na vida e que coisas são secundárias. Então o que sobra é a memória perfeita do que você fez, mas essa é a memória bruta, que precisa ser julgada segundo critérios bastante subtis posteriormente. O fazer-uma-coisa no mundo exterior corresponde à última parte de uma longa cadeia de movimentos interiores que você, se quiser e tiver estômago, pode vir a descobrir se tiver muita atenção e se sua percepção for aguçada, e, claro, se tiver boa memória.

Eu notei que entre algumas pessoas para as quais já falei de algumas histórias, de livros ou de dramas de outras pessoas, elas responderam com impaciência querendo cortar o caminho que levaria a um entendimento mais pleno da situação. “Ah, não preciso saber mais de nada, fulano de tal é um cretino, fulana de tal é puta, pronto, acabou!” Olha, você já parou para pensar que nem sempre alguém conta uma história para fechar alguém num julgamento de superfície como estes? E que fazer isso é coisa de desocupado? Que nem sempre uma história quer te mostrar que alguém é um canalha? E que nem mesmo as pessoas com quem você convive são muito mais cretinas do que você mesmo é e que por isso mesmo não dá para você usar esse tipo de rótulo para nomear adequadamente aquilo que você vê como forma distintiva de fulano?

Sondar os nossos atos significa antes de mais nada saber o que fizemos, por quê o fizemos, quando o fizemos e quais as consequências reais ou possíveis daquilo que fizemos. Se temos esse mapa em nossa mente, temos possibilidade de julgar realmente o que fizemos. Não querer saber dessas informações já é por si um sinal de inconsciência, um desprezo criminoso da nossa parte. Depois disso é preciso ainda olhar para dentro do nosso coração e nos perguntarmos muito sinceramente os nossos verdadeiros motivos, os nossos maus hábitos que nos levaram a fazer isso e aquilo e todos os nossos sentimentos com relação a nós e aos outros que nutrimos em nós.

Para sentirmos culpa do que fizemos é preciso primeiro saber o que fizemos, e saber empiricamente. Depois é preciso reconhecer naquilo que fizemos, em comparação com uma fonte de sabedoria superior que informe o que é melhor e o que é pior para a vida, a natureza formal do que fizemos. E frequentemente reconhecer isso significa reconhecer por meio dos nossos sentimentos primeiro. A confissão exige a contrição justamente porque se não há certo sofrimento e vergonha diante daquilo que fizemos, nós não chegamos a saber realmente o que fizemos. A maioria dos pecados que confessamos deveria ser confessada por atrição e não por contrição real.

O sentimento de culpa portanto é uma consciência perfeita sobre nós mesmos e não é possível expulsá-lo das nossas vidas sem que junto não expulsemos também a nossa inteligência e a nossa sanidade mental. É a nossa cruz. A consciência da nossa existência se não for culpada só poderá ser de outra maneira: redimida. Mas essa redenção corresponde a uma determinada ação divina que nunca é realmente levada até o fim nesta vida. Essa é a consciência do céu, onde o Cristo, esquecendo os nossos pecados e nos refazendo, isto é, nos perdoando, nos dá a ver as coisas sem a marca do pecado. Mas este é um estado de consciência que não é alcançado por nós nesta vida ou, se é, o é pelos maiores santos.

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