Taiguara Fernandes de Sousa

Este texto deveria ter saído na quarta. Não saiu. Depois, na sexta. Insucesso. Por fim, já  desesperado de palavras, é publicado no sábado, aos 29 dias do mês de abril do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2017 – um dia como nenhum outro.

Por que é difícil escrever sobre Olavo de Carvalho?

Já li bons textos sobre a filosofia de meu Professor. Igualmente, escutei um sem número de ótimas exposições. Amigos e conhecidos meus, como Rodrigo Gurgel, Filipe Garcia Martins, Rafael Falcón, Francisco Escorsim, Ronald Robson, tantos outros, teceram, por diversas vezes, comentários maravilhosos e realmente geniais sobre pontos daquela filosofia, comprovando, pelo seu ato mesmo, que as notas de rodapé a Olavo de Carvalho formarão bibliotecas inteiras.

Mas sobre Olavo – ele mesmo – por que é difícil escrever?

Há tempos queria redigir esse texto. Fui adiando, adiando… Na semana última, tive a idéia de escrever outra nota de rodapé – mínima, ínfima – a Olavo de Carvalho, mas não seria fiel ao meu intento original. Estas notas outros, mais capazes que eu, já o fizeram com maestria, como falei. E uma nota de uma nota não teria muita valia.

Eu queria escrever sobre Olavo – o homem, ele mesmo.

E as palavras faltavam, desesperavam-se. Uma grandíssima interrogação: por quê?

Foi à filosofia de Olavo mesmo que recorri para exorcizar o sinal curvo do insolúvel. É o Professor quem explica que a experiência real, quando presente diante de nós, é intuitivamente conhecida em si mesma, pois, tal qual ela, somos componentes da mesma e única Realidade: não somos um observador distante, externo, descompactado de tudo que existe – estamos na Realidade, somos parte dela e podemos conhecer “em espírito e em verdade” os vários dados do Real que se apresentam a nós – e que também estamos presentes aqui, agora, neste recorte da Eternidade a que chamamos de Tempo.

Saber-se parte da Realidade, e não um sujeito externo a ela, nos priva das tentações de nos querermos observadores oniscientes ou de assumirmos um amoralismo “além do bem e do mal”: na intrincada cadeia do Real, nós somos, pessoalmente, um dado tão presente quanto todos os outros. Há grande responsabilidade em perceber isso.

Mas, se a experiência real se apresenta, é também verdade que nós a representamos na memória, através da imaginação: apreendida a experiência, ela pode tornar-se um dado imaginativo re-presentado, isto é, tornado presente de novo, pelo que Aristóteles chamava de “fantasia”, uma faculdade da alma que engloba tanto a memória – o depósito de imagens percebidas –, quanto a imaginação – que re-apresenta a experiência através de uma imagem, guardada na memória e também dela retomada.

É sobre estas imagens retidas e organizadas na fantasia, e não diretamente sobre os dados dos sentidos, que a inteligência exerce a triagem e reorganização com base nas quais criará os esquemas eidéticos, ou conceitos abstratos das espécies, com os quais poderá enfim construir os juízos e raciocínios.

(Olavo de Carvalho, em “Aristóteles em Nova Perspectiva“)

Ocorre que a transposição destas imagens para um conceito, ou seja, a descrição destas imagens por palavras que delineiem com exatidão aquilo que se pretende mostrar, não é uma tarefa fácil. Todos já nos deparamos com uma situação para a qual “não tínhamos palavras para descrever”. A inexistência de termos ou expressões que falem exatamente o que seja aquela experiência é um dos maiores entraves à transmissão do conhecimento aos outros.

Entrave por três motivos: primeiro, porque às vezes realmente não se tem como dizer nada; segundo, e muito pior, porque no mais das vezes ousamos definir errado, descrevemos por cacoetes verbais ou por um símbolo meramente aproximado – falsificamos a experiência real e passamos a acreditar na falsificação dela, a qual nós mesmos fabricamos, e não na experiência mesma, tal como se apresentou a nós; terceiro, completando o horror, transmitimos aos outros a experiência falsificada, gerando um sem número de imagens erradas que redundarão em juízos e raciocínios errados e na confusão psicótica da qual todos somos testemunhas neste mundo louco.

Não quero me estender muito. Olavo escreveu um livro inteiro sobre isso, citado acima.

O que quero dizer é: em alguns momentos, quando não existem palavras para a experiência, é preferível não descrevê-la, para não falsificá-la. É melhor – muito melhor – guardarmos a experiência real na memória, aquela imagem indizível, sem ousar defini-la por termos que ainda não possuímos, do que tentarmos dizer que uma pintura de Caravaggio é um “um desenho bonito”, o que é, evidentemente, uma falsificação verbal.

A imagem indizível, seja qual for, é mais verdadeira que o dito imaginado – ou, se preferirem, fabricado.

Volto ao início deste texto: por que é difícil escrever sobre Olavo de Carvalho?

Creio que a resposta já tenha ficado bastante clara: porque a experiência real de um Olavo de Carvalho – do Olavo de Carvalho – ainda é indizível para nós. Arriscamos defini-lo como nosso professor (ou, como eu prefiro, por metonímia, o Professor, tal como Aristóteles era chamado por Santo Tomás de o Filósofo), nosso mestre, o homem que mudou nossas vidas, até mesmo nosso segundo pai – em muitos casos, quase um primeiro.

Todos estes símbolos são válidos e verdadeiros, mas a multiplicidade com que os alunos de Olavo de Carvalho os empregamos só demonstra como descrever a grandeza da personalidade deste homem ainda é difícil, ainda é complicado – nossa literatura, nossa língua, não chegou a uma personagem como Olavo de Carvalho e, possivelmente, demorará algum tempo. É por isso que eu não consigo escrever sobre Olavo; logo, é melhor conservar a experiência indizível da personalidade deste homem do que arriscar uma definição falseada do que ainda não somos capazes de literariamente descrever.

Mesmo assim, sem correr o risco desta fabricação, alguns dados já me são muito cristalinos – não porque já tenhamos atingido a capacidade expressiva de que falei acima, mas porque eles se apresentam inexoravelmente ao escritor que tente dizer algo sobre o Professor: são o que chamamos de pressupostos, sem o que o trabalho descritivo não tem sequer como iniciar.

Primeiro, esse texto mesmo comprova que é impossível falar de Olavo de Carvalho sem tecer um comentário sobre a sua filosofia. Há um motivo: é que este homem, biograficamente, é a sua filosofia. O princípio da sinceridade, que o Professor ensina a todos os seus alunos e ao qual eu mesmo recorri nesse texto, obriga-nos a todos que confessemos nossa Realidade tal como ela é; por consequência imediata, aquilo que percebemos e enunciamos intelectualmente não pode divergir daquilo que vivemos realmente. Esse é o problema, como explica Olavo, de muitos dos pensadores modernos – Maquiavel, Descartes, Kant, Rousseau, Foucault – que propuseram filosofias para todos os gostos, sem que eles próprios vivessem qualquer coisa do que aduziam.

É a incoerência, dita por Chesterton, do solipsista que prega convictamente, em praça pública, que só ele existe e que todos os outros são uma ilusão de sua própria mente – então por que prega? Ou do niilista que não tem coragem de se suicidar – por que não se reduz ao nada?

Em Olavo de Carvalho, ao contrário, a sua filosofia – tal como apresentada nos seus vários livros e artigos publicados, dezenas de apostilas e centenas de aulas – tomou forma humana; melhor dizendo: tomou carne humana, encarnou-se. O Filósofo apresenta-se tal como ele é e vive tal como ele prega, segundo a verdade que ele, pessoalmente, conhece e descreve. Essa encarnação é a única forma de ser Filósofo – foi o caminho de Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Tomás. Afinal, a filosofia é amor da sabedoria e a sabedoria é o Verbo Divino, que se encarnou.

Não há como ser Filósofo sem fazer na própria vida este caminho já trilhado pela Verdade encarnada – não é por acaso que Vida, Caminho e Verdade foram três dos termos pelo qual Nosso Senhor se definiu a si mesmo no Evangelho de João (14,6).

E é por isso que tantos, na presença de Olavo, amam-no ou odeiam-no; interrogam-se ou escandalizam-se; ficam mais burros ou mais inteligentes, como ele diz.

Porque a personalidade – a força da sua personalidade – torna presente a experiência de uma Realidade realmente vivida – perdoem-me a tautologia proposital.

Ninguém é o mesmo depois de conhecer Olavo de Carvalho, porque ninguém pode ser o mesmo ao confrontar-se com uma Realidade visível, palpável, de carne e osso, que fuma e fala palavrão – uma pessoa e não apenas um conceito abstrato ou um pensador careca de botequim.

É curioso, mas confirma plenamente o que eu disse, que a presença de Olavo tenha provocado em muitos aquilo para o que ele, na sua filosofia, tem um nome: um trauma da emergência da razão, pelo qual o indivíduo, acumulando uma gama de experiências reais ainda indescritíveis, ao tentar expressá-las, chega a um momento crítico de tensão, em que é colocado diante da própria realidade e obrigado a confessá-la, sob pena de perder-se; confessando-la, aquele momento traumático eleva-lhe a autoconsciência, por um progresso de etapas descrito na teoria das doze camadas da personalidade, também do Professor.

A experiência traumática de Olavo de Carvalho provocou, não em um, mas em milhares de indivíduos, uma como que missionária emergência da razão: da poeira e das sombras de um vazio cultural escabroso, emergiu a autoconsciência de muitos, os quais se reconheceram, confessaram-se e elevaram-se, para, então, fazer apostolado, cientes de uma missão pela qual cada um é pessoalmente responsável: a restauração de uma cultura, o surgimento e a ascensão de uma nova casta de intelectuais que vivem pela Verdade e que podem torná-la presente aos outros.

Vejam, outra vez: é impossível falar do homem sem falar de sua filosofia. É impossível descrever o homem sem comentar seu pensamento: pensador e pensado tornaram-se uma realidade única, como deve ser.

Olavo significa “o sobrevivente”. Numa era de zumbis, coube a um homem restaurar a consciência de um povo, de uma nação, de uma época – não é uma missão fácil, como não está sendo; mas é uma missão divina e, por isso, contra todas as dificuldades, será bem-sucedida, como está sendo.

De tempos em tempos, há filósofos de restauração: verdadeiros milagres vivos que, em meio à alucinação geral, vislumbram um raio luminoso da Verdade, apegam-se a Ele com a força de um náufrago e, então, iluminam a outros – são sobreviventes do dilúvio atualizado das eras, conduzindo aqueles que estão dispostos ao socorro para uma arca segura, de madeira de lei.

A estes sobreviventes, o Logos Divino confiou a tarefa de serem lembranças da Eternidade na ininterrupta procissão das horas terrenas, dos tempos mortos e até de outros tempos.

Feliz aniversário, Professor Olavo.

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