Tempo linear e tempo

Notas de Olavo de Carvalho sobre tempo linear e tempo curvo:

“Acreditar que o tempo linear só existe na vivência humana subjetiva, e que “no universo real” o tempo é curvo, resulta em imaginar que o universo real só existe no campo do experimento científico, ignorando que este só lida com fatias de universo previamente selecionadas para ajustar-se à experiência e é, neste sentido, infinitamente mais “subjetivo” do que a vivência humana concreta. Toda experiência humana concreta se realiza num campo aberto no qual todos os fatores estão presentes e atuantes ao mesmo tempo. Nenhum experimento científico pode reproduzir esse estado de coisas, ao qual, por isso mesmo, damos o nome de “realidade”.
Nenhuma ciência estuda ou pode estudar “a realidade”. Só fatias abstratas que, em si mesmas, não existem fora do campo — igualmente abstrativo — dessa ciência. Nenhuma ciência pode refutar o “Lebenswelt”, como o chamava Edmund Husserl, porque todas, consciente ou inconscientemente, se realizam nele e o tomam por pressuposto. Quem acredita em “tempo curvo” imagina que vai ficando jovem ao mesmo tempo em que fica velho. Se sem a idéia do “tempo curvo” as equações “não batem”, isto só prova que as equações não conseguem apreender a realidade do tempo. Aliás, muito me espantaria se pudessem. O autor das equações seria o próprio Deus. Se o tempo só pode ser medido por mudanças ocorridas no espaço, TODO experimento científico sobre o tempo, já que realizado no espaço, se baseia “a priori”, e necessariamente, na relatividade de espaço e tempo. A relatividade é a condição prévia do experimento e não a sua conclusão. Toda “teoria da relatividade” é necessariamente circular e a simples possibilidade de formulá-la já traz em si, antecipadamente, a prova de si mesma. Não é difícil entender isso.”

Anúncios

15/4/2017

Se a consciência que tenho de mim mesmo — a identidade do meu “eu”– fosse um efeito da continuidade corporal, ela seria inconstante e mutável como os sucessivos estados do meu corpo, e não haveria por trás destes uma consciência constante capaz de registrar, comparar e unificar num conceito geral estável as mudanças que o meu corpo sofre. Se fosse um produto da impregnação linguística, um simulacro de identidade introjetado pelo uso repetido do nome e do pronome, como faria eu para saber que o nome pelo qual me chamam e o pronome pelo qual me designo se referem a mim? Se, por fim, fosse um resultado da abstração que por trás dos estados apreende a unidade da substância, QUEM, pergunto eu, operaria o mecanismo abstrativo? Conclusão: a identidade do meu eu é independente e transcendente em face do meu corpo, da linguagem e das operações da minha inteligência abstrativa. É uma condição prévia sem a qual não pode haver identidade corporal, nem linguagem, nem pensamento. A identidade do “eu” é a própria unidade do real que se manifesta na existência de uma substância em particular que sou eu. Nenhuma explicação causal tem o poder de reduzi-la a qualquer fator, pois é ela que unifica todos os fatores. A existência do “eu” é o inexplicável por trás de tudo o que é explicável.

*

Se sem a idéia do “tempo curvo” as equações “não batem”, isto só prova que as equações não conseguem apreender a realidade do tempo. Aliás, muito me espantaria se pudessem. O autor das equações seria o próprio Deus.

*

Deixando de lado o conceito do “eu”, e falando agora do meu eu biográfico, uma coisa que me parece óbvia é que, de modo aparentemente paradoxal, as impressões mais diretas e pessoais que me ocorrem só podem ser expressas na linguagem mais abstrata possível, não em símbolos, isto é, em realidades similares tão diretas e tangíveis — e tão obscuras, decerto — quanto as impressões mesmas. É o que demarca a fronteira entre a vocação da filosofia e a da poesia.

*

Quando morremos, vemos, desde cima, o nosso corpo inerte. É a prova de que jamais “tivemos” um corpo, apenas passamos por ele como inquilinos. Mas, se não possuímos um corpo, como podemos possuir tudo o mais que ele utiliza, manipula, desfruta e padece? Esta é a verdade dura e sublime: nada possuímos além de um “eu”.

*

Os místicos que nos pedem para eliminar o “eu” querem que façamos algo que eles mesmos não podem fazer — e que, aliás, se fosse feito, não seria de utilidade alguma.

*

Podemos nos livrar de sucessivas idéias do eu surgidas ao longo da nossa existência, mas livrar-nos do eu propriamente dito seria livrar-nos de quem nos livra dessas idéias.

*

Falar em “alma” não resolve grande coisa. Se fôssemos a nossa “alma” não poderíamos contemplá-la e julgá-la.

*

Quem acredita em “tempo curvo” imagina que vai ficando jovem ao mesmo tempo em que fica velho.

*

Se sem a idéia do “tempo curvo” as equações “não batem”, isto só prova que as equações não conseguem apreender a realidade do tempo. Aliás, muito me espantaria se pudessem. O autor das equações seria o próprio Deus.

*

Se o tempo só pode ser medido por mudanças ocorridas no espaço, TODO experimento científico sobre o tempo, já que realizado no espaço, se baseia “a priori”, e necessariamente, na relatividade de espaço e tempo. A relatividade é a condição prévia do experimento e não a sua conclusão. Toda “teoria da relatividade” é necessariamente circular e a simples possibilidade de realizá-la já traz em si, antecipadamente, a prova de si mesma. Não é difícil entender isso.

*

Concepções erradas sobre o eu estão na base de toda ética formulada em termos de “egoismo” e “altruísmo”. NENHUMA conduta moral, seja a de um santo, a de um “serial killer” ou a de um zé-mané, pode ser descrita nesses termos.

*

Acreditar que o tempo linear só existe na vivência humana subjetiva, e que “no universo real” o tempo é curvo, resulta em imaginar que o universo real só existe no campo do experimento científico, ignorando que este só lida com fatias de universo previamente selecionadas para ajustar-se à experiência e é, neste sentido, infinitamente mais “subjetivo” do que a vivência humana concreta.

*

Toda experiência humana concreta se realiza num campo aberto no qual todos os fatores estão presentes e atuantes ao mesmo tempo. Nenhum experimento científico pode reproduzir esse estado de coisas, ao qual, por isso mesmo, damos o nome de “realidade”.
Nenhuma ciência estuda ou pode estudar “a realidade”. Só fatias abstratas que, em si mesmas, não existem fora do campo — igualmente abstrativo — dessa ciência.

*

Nenhuma ciência pode refutar o “Lebenswelt”, como o chamava Edmund Husserl, porque todas, consciente ou inconscientemente, se realizam nele e o tomam por pressuposto.

*

A crença geral no poder das descrições quantitativas não proveio do sucesso das ciências naturais. Ao contrário, os métodos quantitativos só passaram a ser usados em ciências naturais por causa do seu sucesso no mundo da economia política, especialmente na esfera bancária. O quantitativismo não passa da redução de tudo “sub specie capitalismi”.

Leiam

http://press.princeton.edu/titles/5653.html

*

Se só a ciência física conhece “a realidade”, enquanto o resto da espécie humana vive presa na experiência subjetiva, é natural que os físicos tenham a autoridade final em todas as questões públicas, não é? Que bom para os físicos.

*

Felizmente para nós, “a realidade” só existe no plano da experiência humana concreta, e, por definição, nenhuma ciência pode estudá-la.

*

Só a filosofia e a poesia podem expressar a experiência humana concreta, com a condição de que não pretendam abrangê-la e explicá-la, mas apenas designá-la para seres humanos que a vivenciam tanto quanto o filósofo e o poeta e que, tal como estes, não têm o poder de abrangê-la e explicá-la.
Se vocês entenderam as minhas aulas sobre O MUNDO REAL COMO MEDIADOR DE TODA LINGUAGEM, entenderão também isso.
E entenderão que a “linguagem científica”NÃO É uma exceção.

*

Por “poesia” entendo, no caso, “arte literária em geral”.

*

Nenhum ser humano jamais refutou ou refutará o “ápeiron” de Anaximandro.

*

O Mauricio Marques Canto Jr. está discutindo com um sujeito que jura que só quatro por cento dos estudantes universitários são analfabetos funcionais. Vai ser um osso explicar ao cidadão que a palavra “funcional” vem de “função”, e que o analfabetismo funcional não é medido pela incapacidade geral de leitura, mas pela incapacidade específica para a função universitária correspondente. Um diplomado em filosofia que consiga ler Chico Buarque de Holanda mas não possa decifrar Hegel ou Aristóteles É um analfabeto funcional. O difícil é explicar isso para um analfabeto funcional.

*

Tal como expliquei na “Brasil Conference”, tucanos e petistas NADA têm de fascistas. Usam esse termo para xingar-se uns aos outros porque são analfabetos funcionais — além, naturalmente, de filhos da puta.

*

Um sujeito formado em Letras que consiga recitar “Batatinha quando nasce” mas confunda o sujeito gramatical de uma frase com o sujeito lógico da ação correspondente — o que é quase regra geral entre professores universitários — É, sem a menor sombra de dúvida, um analfabeto funcional.
Todo pensamento metonínimo — como costumo chamá-lo — é analfabetismo funcional, e ele é um mal endêmico entre estudantes e professores universitários.

*

Hoje em dia, todo cientista pretende que a esfera da sua ciência abranja e transcenda o mundo inteiro da experiência real. Físicos e linguistas são nisso, talvez, os mais exagerados.

*

Por trás de toda teoria universalmente explicativa há um corporativismo banal.

*

Muito mais do que os capitalistas, os intelectuais são os grandes inimigos da classe trabalhadora, da qual se utilizam impiedosamente para conquistar o poder e depois deixá-la à míngua.

*

No advento da democracia moderna, os intelectuais e cientistas que a inspiraram destruíram as antigas corporações de ofícios porque queriam só para eles o monopólio dos direitos corporativos — portanto, pau no cu dos trabalhadores.