Olavo sobre Literatura

O Felipe Azuma, a quem agradeço, botou ordem nas minhas notas mais recentes sobre literatura. Tudo ficou muito mais claro:

Aqui.. Olavo de Carvalho em forma-sonata e um bis.

Falando em “bomba mãe”, Olavo soltou ontem e hoje muitas notas sobre romance. Os números são a sequência em que ele postou espontaneamente, reordenei mais logicamente, como suponho ser uma ordem que Olavo mesmo daria.
Acrescentei os colchetes.
As chaves são para quem prefere acompanhar tudo em forma-sonata.

{Apresentação dos temas 1 e 2}
[[Romance: tempo linear e a forma da vida humana]]
01- Os professores de literatura hoje em dia repetem como papagaios que um romance é “uma construção lingüística”, sem perceber que com isso tornam praticamente impossível distinguir entre esse gênero e qualquer outro, incluindo a lista telefônica. Os grandes romancistas do passado sempre souberam que (1) O tempo linear é o ÚNICO princípio ordenador de uma vida humana, portanto o do romance também. Pode-se brincar com o tempo no papel, mas não revertê-lo ou alterá-lo na vida real. Romances que não respeitam o tempo linear dificilmente chegam a ser algo mais que brinquedos de papel. (2) Antes de ser uma “construção lingüística”, o romance tem de ser a construção imaginativa de UMA VIDA POSSÍVEL, com uma densidade infinitamente superior à de qualquer seqüência de palavras, por mais lindinha que seja.
Basta isso para explicar por que os escritores gerados pela universidade jamais produzem um romance que preste.

{Desenvolvimento}
02- O fato bruto é que em geral os escritores de hoje em dia já não conseguem, no caos geral, apreender a FORMA DE UMA VIDA HUMANA, e então a substituem por uma “construção lingüística”.

[Tempo linear e ordem da narrativa]
03- Quem proclama que “o presente altera o passado” confunde a “ordem do ser” com a “ordem

13- Num romance, pode-se quebrar a ORDEM temporal da narrativa, mas não a LÓGICA INTERNA do tempo linear.

14- O tempo linear é a forma mesma do destino, da necessidade, da “ananke”, sem a qual tudo no mundo seria apenas uma piada idiota.

21- Se a teoria da relatividade desmentisse o tempo linear, Einstein não teria ficado velho.

04- A irreversibilidade do tempo é o dado MAIS SÉRIO da existência humana, o único em cima do qual se pode criar uma vida responsável e significativa. Como dizia Georges Bernanos, só os covardes acreditam que se pode “recomeçar do zero”. E, como dizia George Steiner, “O passado nunca morre. Aliás, nem passa.”

05- Os personagens de William Faulkner que revêem o seu passado e chegam à conclusão de que não não significou nada são muito mais sérios do que qualquer professor de literatura hoje em dia.

06- A única razão plausível para quebrar a lógica do tempo linear é aquela que Faulkner teve em “O Som e a Fúria”: representar o mundo tal como aparece na mente de um maluco.

[Literatura atual e exemplos de outra época]
08- O traço mais visível de literatura brasileira atual é a sua temática umbigocêntrica: lésbicas escrevem sobre lésbicas, jovens negros sobre jovens negros, comunistas sobre os males da ditadura militar, imigrantes sobre imigração, etc. Não que seja errado escrever sobre a experiência pessoal. O errado é só ter experiência pessoal daquilo que é igual a você. Essa é a definição mesma de idiotice.

18- Julien Green, um dos romancistas mais geniais do século XX, foi homossexual durante boa parte da vida. Escreveu uma peça de oitenta páginas sobre o assunto, e dezenas de volumes sobre outras coisas. Se ele fosse brasileiro, a sua obra inteira seria uma Enciclopédia Gay.

19- Machado de Assis, filho de uma lavadeira negra, subiu na vida sem maiores dificuldades e até hoje o criticam por não ter choramingado os draminhas de um jovem mulato nos meios literários do II Império.

20- Lima Barreto, ao contrário de Machado de Assis, sentiu o peso da discriminação, mas só acertou a mão quando se esqueceu do seu drama pessoal e começou a escrever sobre pessoas bem diferentes dele, como Gonzaga de Sá e Policarpo Quaresma.

{Reexposição}
09- Muitas vezes o analfabetismo funcional não é só falta de instrução: é sintoma de uma consciência fragmentária, que se apega a um senso ilusório de unidade por meio da autopersuasão histérica (secundada nisso, é claro, por mitologias grupais). Eu diria mesmo que esse é o estado de espírito GERAL E ENDÊMICO dos universitários brasileiros — professores e alunos.

[[Como a universidade destruiu a literatura]]
[Exemplo academês 1]
07- Como destruir uma literatura:
“Há quem nunca perca de vista que o texto é antes de tudo uma construção. E há quem se esqueça de sua natureza linguística deixando-se enganar por sua ilusão representativa.” (Leonardo Tonus, professor livre docente, da Université Paris-Sorbonne.)

[Correção do exemplo]
Ao contrário: A construção linguística é, depois da mera presença física do livro, a primeira coisa que aparece aos olhos do leitor. A “ilusão representativa” é que frequentemente escapa do seu horizonte de visão. Recuar da representação para a “construção lingüística” é o que você faz automaticamente quando está lendo com sono.

[Correção 2 do exemplo]
22- Na leitura de um romance, a atenção do leitor recuar da “ilusão representativa” para a “construção lingüística” é sinal claro de cansaço ou psicastenia. Mais um pouco e o cidadão recua da “construção lingüística” para os sinais de tinta no papel, e depois vai dormir. Nas universidades brasileiras se ensina a fazer isso direitinho.

[Exemplo academês 2]
11- Vejam como escreve uma criatura que pretende orientar os leitores sobre a literatura brasileira atual:
“Apresenta diversos femininos violentados numa narrativa original e própria ao avançar em construções poéticas, de linguagem e nos modos de nomear deslocamentos e seus corpos e dores periféricas.”
É o mais puro estilo Gilberto Gil. Vocês sabiam que deslocamentos têm corpos e sofrem dores?

{Coda – estilo romântico.. longas como em Tchaikovski ou Sibelius no fim da Sinfonia 5}
10- O establishment universitário é o mais perverso inimigo do Brasil. Muito mais que a classe política, que é criatura dele.

12- A universidade brasileira criou, para seu consumo próprio, uma subcultura local semelhante à arte dos pintores “primitivistas” dos anos 60-70, cujos quadros valiam os tubos no mercado nacional e pelos quais ninguém, no Exterior, pagava ou pagaria um tostão.

15- – A carreira universitária obriga você a publicar simulacros de “trabalho científico” que nem a sua mãe teria a caridade de ler.
Se a “produção científica” das universidades brasileiras fosse publicada em rolos, teria ao menos alguma utilidade.

16- O que o Estado brasileiro gasta pagando analfabetos funcionais para que posem de professores é o mais obsceno e criminoso desperdício de dinheiro dos contribuintes.

17- A universidade brasileira vive do estelionato e da chantagem. Um diploma de universidade brasileira não vale pelo que ele lhe dá, mas pelo que a falta dele lhe toma.

{Bis}
[[Notas de viagem:https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/10155138833472192 ]]
– Se examinamos os grandes romances do passado, “Ilusões Perdidas”, “O Vermelho e o Negro”, “Crime e Castigo”, “Guerra e Paz”, “Grandes Esperanças”, “O Processo Maurizius”, “A Montanha Mágica”, não podemos escapar à conclusão que define o romancista, acima de tudo, como um historiador do possível, um biógrafo de vidas imaginárias. E justamente porque se trata de vidas imaginárias é que ele consegue inserir tão bem o drama das almas individuais no contexto social, histórico e cósmico que as enquadra. Ao historiador científico essa conexão íntima pode escapar, diluindo-se no oceano de detalhes, documentos e testemunhos, a não ser que ele preencha os hiatos com uma imaginação de romancista. Só a imaginação tem o poder de sintetizar em símbolos eloqüentes as totalidades que fogem ao puro enquadramento conceptual. Mas, à medida que o contexto sócio-histórico se torna mais complexo e inabarcável, o gênero “romance” só sobrevive à força de recorrer cada vez mais a instrumentos próprios da poesia, onde qualquer intuito de verossimilhança fática pesa menos que o impacto das sínteses puramente verbais. A linguagem do romancista vai-se tornando cada vez mais ricamente poética – e portanto enigmática — à medida que a sua imaginação histórica e sociológica se revela mais impotente para apreender e narrar as realidades da experiência humana num quadro diabolicamente caótico. Dito de outro modo, o “narrar” e o “descrever” próprios do romancista vão sendo cada vez mais substituídos pelo “expressar”, que é a ação própria do poeta. Observo isso, claramente, nas obras de James Joyce, Guimarães Rosa, Thomas Pynchon, Vergílio Ferreira, Lobo Antunes, só para dar alguns exemplos soltos. Raros são os romancistas que, como o Leonardo Padura de “El Hombre que Amaba a los Perros”, abdicam da pura construção poética para ater-se aos recursos narrativos e descritivos do romance tradicional. Descontados certos trechos de William Faulkner (as primeiras cinqüenta páginas de “O Som e a Fúria”, por exemplo), um perfeito encaixe dos instrumentos da poesia na arte do narrador só encontrei, até agora, em alguns romances de José Geraldo Vieira. Não em todos. “A Túnica e os Dados” parece-me pura invenção poética. Mas em “A Mulher que Fugiu de Sodoma” e “A Ladeira da Memória” os trechos poéticos se ajustam tão bem ao quadro narrativo que não requerem nenhum esforço de interpretação (inevitável em quase toda a poesia moderna) e se lêem como se fizessem parte do fluxo natural dos acontecimentos. Ocorrem-me, no momento, particularmente, no primeiro desses romances, o episódio em que Lúcia, levada ao desespero por uma crise doméstica, sai vagando a esmo pelas ruas numa noite de tempestade, e aquele em que, no segundo, o velho desembargador aposentado, descobrindo-se com surpresa proprietário de um pardieiro imundo, distribui presentes de Natal aos seus moradores como uma espécie de compensação do vexame involuntário. Aí a inventividade verbal quase alucinante expressa tão bem o sentido imediato dos acontecimentos, que acaba se tornando indistinta da narrativa “normal”.

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