Olavo na Harvard

[Olavo de Carvalho hoje na Universidade de Harvard fez uma breve palestra sobre a incapacidade brasileira em diálogos, diagnósticos e resolução de problemas; e a corrupção do imaginário pela extinção da arte autêntica, principalmente dos grandes escritores]

Transcrição sem revisão do autor:

Um dos organizadores deste encontro, o dr. David Pares, deu uma entrevista à BBC sobre um dos grandes problemas do Brasil: a falta de diálogo, sobretudo entre direita e esquerda. Cada um tenta comunicar apenas aquilo que já acredita, não havendo interpenetração das consciências, nem diálogo ou troca alguma. Como dizia um amigo meu “fulano me chamou para trocar umas idéias. Não vou pois acho que vou sair perdendo na troca”

Como ponto de partida quero ler para vocês alguns parágrafos que escrevi em 2012 para o Diário do Comércio:
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( http://www.olavodecarvalho.org/semana/120604dc.html )
‘Da Independência até os anos 70 do século XX, a história social e psicológica do Brasil aparecia, translúcida, na literatura nacional. Lendo os livros de Machado de Assis, Raul Pompéia, Lima Barreto, Antônio de Alcântara Machado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Marques Rebelo, José Geraldo Vieira, Ciro dos Anjos, Octávio de Faria, Anníbal M. Machado e tantos outros, obtínhamos a imagem vívida da experiência de ser brasileiro, refletida com toda a variedade das suas manifestações regionais e epocais e com toda a complexidade das relações entre alma e História, indivíduo e sociedade.

A partir da década de 80, a literatura brasileira desaparece. A complexa e rica imagem da vida nacional que se via nas obras dos melhores escritores é então substituída por um sistema de estereótipos, vulgares e mecânicos até o desespero, infinitamente repetidos pela TV, pelo jornalismo, pelos livros didáticos e pelos discursos dos políticos.

No mesmo período, o Brasil sofreu mudanças histórico-culturais avassaladoras, que, sem o testemunho da literatura, não podem se integrar no imaginário coletivo nem muito menos tornar-se objeto de reflexão. Foram trinta anos de metamorfoses vividas em estado de sono hipnótico, talvez irrecuperáveis para sempre.’
——

Aristóteles ensinava que a inteligência racional não opera diretamente sobre os dados dos sentidos, mas sobre as imagens criadas pela fantasia e estocadas na memória.

Coletivamente a literatura (a arte em geral, mas sobretudo a literatura) corresponde ao imaginário no qual as pessoas de uma sociedade se reconhecem.
Ou seja, é necessário um acordo na esfera do imaginário, para depois possibilitar qualquer diálogo na esfera das idéias e conceitos. Desaparecendo a literatura não temos mais uma imagem operante da sociedade e da experiência de ser brasileiro. Pergunto eu: que diálogo é possível nestas condições? Como as pessoas discutirão sobre aquilo que não conseguem imaginar ou vislumbrar juntas? Como discutirão sobre um enigma, um nada, uma pura interrogação?

O resultado: acaba o diálogo, evidentemente. Não é culpa de ninguém. Não podemos dialogar porque não temos diante de nós o objeto, imaginariamente representado, chamado Brasil.
A imagem se fragmentou em mil estilhaços. Temos as imagens grupais de ideologias partidárias, que são imagens fragmentárias, e entre estes elementos soltos não pode haver diálogo de maneira alguma.

Esta destruição do imaginario brasileiro tem ainda outras consequências. A primeira é a destruição da linguagem. Não há mais uma linguagem comum com a qual nós possamos dialogar.

Há anos protesto contra o uso de termos da ciência política como meros instrumentos de insulto. Por exemplo, o termo “fascista”. É impossível lermos qualquer petista escrevendo sobre tucanos, ou tucanos escrevendo sobre petistas, sem encontrarmos a palavra “fascista”.
O Reinaldo Azevedo, por exemplo, em cada artigo chama petistas de fascistas e é xingado de fascista por eles. Estudando fascismo, vemos que nada tem de fascismo no PT, nem no PSDB.

Fascismo é o nome de um fenômeno objetivo, existente, historicamente reconhecível. Não é um porrete para bater na cabeça das pessoas. Mas por que fazem isto? Porque não conseguem se comunicar em outro nível. Não há um objeto claramente visível sobre o qual possam conversar. O objeto desapareceu. A sociedade e a vida brasileira desapareceram do imaginário. Ainda existem na realidade, mas não aparecem na literatura, no teatro, no cinema. É só compararmos a lista de escritores que tínhamos nos anos 50, 60 – que era uma plêiade de gênios absolutamente formidável – com o que temos hoje.
[…]

Em resultado deste desaparecimento não é possível raciocinar sobre os problemas da sociedade brasileira. Temos sempre sugestões e soluções soltas que são inarticuláveis numa concepção de conjunto. A falta de diálogo não é culpa de ninguém, nao é sectarismo ou partidarismo, é realmente uma impossibilidade.

Desaparecendo a linguagem pública, e portanto a possibilidade de raciocinar, o que acontece? As inteligências caem. Segundo pesquisas da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, hoje as universidades brasileiras têm entre os seus formandos 80% de analfabetos funcionais. 80%. Ora, quem são esses formandos? São a raíz da classe dominante. São os futuros senadores, deputados, governadores, chefes de departamento, presidentes de empresa, etc. Analfabetos funcionais.

Eu confesso para vocês que há mais de 10 anos lendo muitas teses universitárias, de mestrado e doutorado, não encontro sequer uma que não esteja repleta de erros de gramática brutais, desde a primeira página. O que é isto, minha gente?

Em resultado temos uma devastação intelectual medonha. Podemos sentar e discutir “quais soluções para todos os problemas”. Mas “pretendemos resolver todos os problemas primeiro e ficar inteligentes depois”? É possível isto? Acho que não.
Este é o momento para os componentes desta mesa, que são todos membros da classe dirigente, botarem as mãos na cabeça e pensarem “de onde surgiu tudo isto? Nós fizemos isto.” Não é questão de partido. Todos aqueles que conduziram o Brasil há 30 ou 40 anos fizeram isto.
Nada resultou de fatores fortuitos e anônimos. Tudo foi resultado de decisões erradas. É hora de confessar “nós fizemos isto, abrimos o caminho para a ratoeira e entramos. Agora temos que lembrar como entramos nisto, e descobrir qual é o caminho de volta.”

14/4/2017

Enigma profundo: Por que nos filmes ninguém usa isqueiro Bic, só Zippo?

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Amanhã, sábado, aula normal do COF.

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“A respeitabilidade é a primeira tentação à qual todo covarde sucumbe.”
(Cleanth Brooks, falando dos personagens de William Faulkner)

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“Meus pais eram pessoas respeitáveis, porém honestas.”
(G. K. Chesterton)

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O episódio moral da semana. A Graça Forster reclamando que a Odebrecht estava dando propina demais para os tucanos, e, a pedido da Dilma, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, intervindo para impor a justiça, isto é, a distribuição equitativa da propina.

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Só espero que o tal do Kim — não o Katakokinho, mas o da Coréia — não jogue a porra do EMP antes de eu mudar de casa. Para um caipira incorrigível, morrer na cidade é muita humilhação.

Olavo sobre Literatura

O Felipe Azuma, a quem agradeço, botou ordem nas minhas notas mais recentes sobre literatura. Tudo ficou muito mais claro:

Aqui.. Olavo de Carvalho em forma-sonata e um bis.

Falando em “bomba mãe”, Olavo soltou ontem e hoje muitas notas sobre romance. Os números são a sequência em que ele postou espontaneamente, reordenei mais logicamente, como suponho ser uma ordem que Olavo mesmo daria.
Acrescentei os colchetes.
As chaves são para quem prefere acompanhar tudo em forma-sonata.

{Apresentação dos temas 1 e 2}
[[Romance: tempo linear e a forma da vida humana]]
01- Os professores de literatura hoje em dia repetem como papagaios que um romance é “uma construção lingüística”, sem perceber que com isso tornam praticamente impossível distinguir entre esse gênero e qualquer outro, incluindo a lista telefônica. Os grandes romancistas do passado sempre souberam que (1) O tempo linear é o ÚNICO princípio ordenador de uma vida humana, portanto o do romance também. Pode-se brincar com o tempo no papel, mas não revertê-lo ou alterá-lo na vida real. Romances que não respeitam o tempo linear dificilmente chegam a ser algo mais que brinquedos de papel. (2) Antes de ser uma “construção lingüística”, o romance tem de ser a construção imaginativa de UMA VIDA POSSÍVEL, com uma densidade infinitamente superior à de qualquer seqüência de palavras, por mais lindinha que seja.
Basta isso para explicar por que os escritores gerados pela universidade jamais produzem um romance que preste.

{Desenvolvimento}
02- O fato bruto é que em geral os escritores de hoje em dia já não conseguem, no caos geral, apreender a FORMA DE UMA VIDA HUMANA, e então a substituem por uma “construção lingüística”.

[Tempo linear e ordem da narrativa]
03- Quem proclama que “o presente altera o passado” confunde a “ordem do ser” com a “ordem

13- Num romance, pode-se quebrar a ORDEM temporal da narrativa, mas não a LÓGICA INTERNA do tempo linear.

14- O tempo linear é a forma mesma do destino, da necessidade, da “ananke”, sem a qual tudo no mundo seria apenas uma piada idiota.

21- Se a teoria da relatividade desmentisse o tempo linear, Einstein não teria ficado velho.

04- A irreversibilidade do tempo é o dado MAIS SÉRIO da existência humana, o único em cima do qual se pode criar uma vida responsável e significativa. Como dizia Georges Bernanos, só os covardes acreditam que se pode “recomeçar do zero”. E, como dizia George Steiner, “O passado nunca morre. Aliás, nem passa.”

05- Os personagens de William Faulkner que revêem o seu passado e chegam à conclusão de que não não significou nada são muito mais sérios do que qualquer professor de literatura hoje em dia.

06- A única razão plausível para quebrar a lógica do tempo linear é aquela que Faulkner teve em “O Som e a Fúria”: representar o mundo tal como aparece na mente de um maluco.

[Literatura atual e exemplos de outra época]
08- O traço mais visível de literatura brasileira atual é a sua temática umbigocêntrica: lésbicas escrevem sobre lésbicas, jovens negros sobre jovens negros, comunistas sobre os males da ditadura militar, imigrantes sobre imigração, etc. Não que seja errado escrever sobre a experiência pessoal. O errado é só ter experiência pessoal daquilo que é igual a você. Essa é a definição mesma de idiotice.

18- Julien Green, um dos romancistas mais geniais do século XX, foi homossexual durante boa parte da vida. Escreveu uma peça de oitenta páginas sobre o assunto, e dezenas de volumes sobre outras coisas. Se ele fosse brasileiro, a sua obra inteira seria uma Enciclopédia Gay.

19- Machado de Assis, filho de uma lavadeira negra, subiu na vida sem maiores dificuldades e até hoje o criticam por não ter choramingado os draminhas de um jovem mulato nos meios literários do II Império.

20- Lima Barreto, ao contrário de Machado de Assis, sentiu o peso da discriminação, mas só acertou a mão quando se esqueceu do seu drama pessoal e começou a escrever sobre pessoas bem diferentes dele, como Gonzaga de Sá e Policarpo Quaresma.

{Reexposição}
09- Muitas vezes o analfabetismo funcional não é só falta de instrução: é sintoma de uma consciência fragmentária, que se apega a um senso ilusório de unidade por meio da autopersuasão histérica (secundada nisso, é claro, por mitologias grupais). Eu diria mesmo que esse é o estado de espírito GERAL E ENDÊMICO dos universitários brasileiros — professores e alunos.

[[Como a universidade destruiu a literatura]]
[Exemplo academês 1]
07- Como destruir uma literatura:
“Há quem nunca perca de vista que o texto é antes de tudo uma construção. E há quem se esqueça de sua natureza linguística deixando-se enganar por sua ilusão representativa.” (Leonardo Tonus, professor livre docente, da Université Paris-Sorbonne.)

[Correção do exemplo]
Ao contrário: A construção linguística é, depois da mera presença física do livro, a primeira coisa que aparece aos olhos do leitor. A “ilusão representativa” é que frequentemente escapa do seu horizonte de visão. Recuar da representação para a “construção lingüística” é o que você faz automaticamente quando está lendo com sono.

[Correção 2 do exemplo]
22- Na leitura de um romance, a atenção do leitor recuar da “ilusão representativa” para a “construção lingüística” é sinal claro de cansaço ou psicastenia. Mais um pouco e o cidadão recua da “construção lingüística” para os sinais de tinta no papel, e depois vai dormir. Nas universidades brasileiras se ensina a fazer isso direitinho.

[Exemplo academês 2]
11- Vejam como escreve uma criatura que pretende orientar os leitores sobre a literatura brasileira atual:
“Apresenta diversos femininos violentados numa narrativa original e própria ao avançar em construções poéticas, de linguagem e nos modos de nomear deslocamentos e seus corpos e dores periféricas.”
É o mais puro estilo Gilberto Gil. Vocês sabiam que deslocamentos têm corpos e sofrem dores?

{Coda – estilo romântico.. longas como em Tchaikovski ou Sibelius no fim da Sinfonia 5}
10- O establishment universitário é o mais perverso inimigo do Brasil. Muito mais que a classe política, que é criatura dele.

12- A universidade brasileira criou, para seu consumo próprio, uma subcultura local semelhante à arte dos pintores “primitivistas” dos anos 60-70, cujos quadros valiam os tubos no mercado nacional e pelos quais ninguém, no Exterior, pagava ou pagaria um tostão.

15- – A carreira universitária obriga você a publicar simulacros de “trabalho científico” que nem a sua mãe teria a caridade de ler.
Se a “produção científica” das universidades brasileiras fosse publicada em rolos, teria ao menos alguma utilidade.

16- O que o Estado brasileiro gasta pagando analfabetos funcionais para que posem de professores é o mais obsceno e criminoso desperdício de dinheiro dos contribuintes.

17- A universidade brasileira vive do estelionato e da chantagem. Um diploma de universidade brasileira não vale pelo que ele lhe dá, mas pelo que a falta dele lhe toma.

{Bis}
[[Notas de viagem:https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/10155138833472192 ]]
– Se examinamos os grandes romances do passado, “Ilusões Perdidas”, “O Vermelho e o Negro”, “Crime e Castigo”, “Guerra e Paz”, “Grandes Esperanças”, “O Processo Maurizius”, “A Montanha Mágica”, não podemos escapar à conclusão que define o romancista, acima de tudo, como um historiador do possível, um biógrafo de vidas imaginárias. E justamente porque se trata de vidas imaginárias é que ele consegue inserir tão bem o drama das almas individuais no contexto social, histórico e cósmico que as enquadra. Ao historiador científico essa conexão íntima pode escapar, diluindo-se no oceano de detalhes, documentos e testemunhos, a não ser que ele preencha os hiatos com uma imaginação de romancista. Só a imaginação tem o poder de sintetizar em símbolos eloqüentes as totalidades que fogem ao puro enquadramento conceptual. Mas, à medida que o contexto sócio-histórico se torna mais complexo e inabarcável, o gênero “romance” só sobrevive à força de recorrer cada vez mais a instrumentos próprios da poesia, onde qualquer intuito de verossimilhança fática pesa menos que o impacto das sínteses puramente verbais. A linguagem do romancista vai-se tornando cada vez mais ricamente poética – e portanto enigmática — à medida que a sua imaginação histórica e sociológica se revela mais impotente para apreender e narrar as realidades da experiência humana num quadro diabolicamente caótico. Dito de outro modo, o “narrar” e o “descrever” próprios do romancista vão sendo cada vez mais substituídos pelo “expressar”, que é a ação própria do poeta. Observo isso, claramente, nas obras de James Joyce, Guimarães Rosa, Thomas Pynchon, Vergílio Ferreira, Lobo Antunes, só para dar alguns exemplos soltos. Raros são os romancistas que, como o Leonardo Padura de “El Hombre que Amaba a los Perros”, abdicam da pura construção poética para ater-se aos recursos narrativos e descritivos do romance tradicional. Descontados certos trechos de William Faulkner (as primeiras cinqüenta páginas de “O Som e a Fúria”, por exemplo), um perfeito encaixe dos instrumentos da poesia na arte do narrador só encontrei, até agora, em alguns romances de José Geraldo Vieira. Não em todos. “A Túnica e os Dados” parece-me pura invenção poética. Mas em “A Mulher que Fugiu de Sodoma” e “A Ladeira da Memória” os trechos poéticos se ajustam tão bem ao quadro narrativo que não requerem nenhum esforço de interpretação (inevitável em quase toda a poesia moderna) e se lêem como se fizessem parte do fluxo natural dos acontecimentos. Ocorrem-me, no momento, particularmente, no primeiro desses romances, o episódio em que Lúcia, levada ao desespero por uma crise doméstica, sai vagando a esmo pelas ruas numa noite de tempestade, e aquele em que, no segundo, o velho desembargador aposentado, descobrindo-se com surpresa proprietário de um pardieiro imundo, distribui presentes de Natal aos seus moradores como uma espécie de compensação do vexame involuntário. Aí a inventividade verbal quase alucinante expressa tão bem o sentido imediato dos acontecimentos, que acaba se tornando indistinta da narrativa “normal”.