Elpídio Fonseca

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A verdade que já em 1999 nos revelava o Professor Olavo de Carvalho: “Os romenos vivem nos ajudando a falar – e a libertar-nos, por meio da linguagem, dos fantasmas mudos que nos assombram.*

Leiam com atenção este trecho do livro O homem recente, de Horia-Roman Patapievici, escrito em 2001:

““Em todas as religiões em que o ato de fé não pressupõe a morte de deus como uma condição de realização dela, quando a fé murcha, também os deuses tendem a murchar – destramando-se no crepúsculo, assim como se dissipam no ar dos cheiros: sem perceber, calmo, confortável, natural. Mas quando o ato de fé inclui a morte do deus como uma condição essencial assim da ressurreição dele, como da realização dela, a morte da fé levanta, de modo essencial, um novo problema teológico: o mundo já não pode ser pensado em termos [93] de um mundo nascido de modo natural sem Deus, mas apenas e apenas em termos de um mundo que foi um tempo o mundo de Deus, mas que, agora, o que quer que faça, já não pode ser senão o mundo do “Gott ist tot”. Mesmo morto, Deus permanece uma referência incontornável ao mundo que foi outrora cristão. Porque um mundo que deixou de ser cristão não é, pura e simplesmente, o mundo de antes do cristianismo: é um mundo inevitavelmente anti-cristão, ou seja – ressentidamente anti-cristão. É, em conseqüência, inevitável que todas as ações naturais de emancipação e de afirmação da autonomia do homem (ou do mundo) caiam, numa lógica assim, sob o signo da blasfêmia, da apostasia – sob o signo da polêmica contra Deus. Assim que o mundo em que a fé cristã diminuiu (ou morreu) é um mundo essencialmente viúvo. Um mundo expulso, falto da coisa mais essencial que lhe pertencera outrora – e isto por toda a eternidade. O problema do “Gott is tot” significa: embora a nossa inteligência se tenha tornado (parcialmente) atéia, os nossos instintos ainda são (parcialmente) cristãos. Desta aporia desconfortável o mundo moderno não pode sair senão mudando os próprios instintos, ou seja, matando em si o “homem europeu”, o homo europeus, que Bernanos tinha razão147, fora naturaliter cristão. É, provavelmente, a missão do multiculturalismo ideológico. Enquadrado no sistema de reflexão da filosofia da cultura e profetizando o relativismo cultural como uma nova Aufklärung, chamada para libertar no final os homens da última tirania – a tirania da verdade como ciência do universal e da crença na possibilidade da certeza -, o multiculturalismo ideológico evidencia sua função essencial que é chamado a jogar, de acordo com a sua natureza profunda – de último e mais virulento movimento anti-cristão que já produziu nos últimos três séculos a civilização ocidental – a eliminação completa do cristianismo dentre as referências de qualquer tipo do mundo contemporâneo.

[19] Simone Weil dizia algures que nossos direitos são deste mundo, ao passo que nossas obrigações estão diante do outro mundo. Suprimindo o mundo superior, a modernidade [94] nos privou do meio natural de enraizamento das obrigações, o correlato estrito dos direitos, e nos deixou à mercê de uma reivindicação indefinida de direitos, reivindicação que passou a ser a neurose da modernidade pós-moderna. Devido à perda do Céu, para nós os direitos do homem já não são naturalmente acompanhados de um livro dos deveres do homem. Todo o mundo conhece 1789 – Déclaration des Droits de l’ Homme. Ninguém mais se lembra do fato de que em 1795 foi emitida a Déclaration des Devoirs du Citoyen. À primeira, evocam-na todos, porque podem reivindicar qualquer coisa, por sua invocação. Da segunda, de maneira conveniente, esqueceram-se todos, porque a evocação dela sugere que os direitos fundamentaram as responsabilidades, coisa de que ninguém quer ser relembrado hoje.

[20] Assim como ‘a nostalgia do infinito’, em que Henrik Steffens via a nota definitória do estado de alma romântico e em que nós, hoje, poderíamos decifrar o complexo psicológico nascido na cultura européia pós-iluminista pela perda de Deus, igualmente também na ‘insatisfação’ ou ‘desconforto’ do homem moderno, do qual falava Freud (Das Unbehagen in der Kultur [O mal-estar na cultura], 1930), com relação ao efeito da civilização sobre a natureza humana, poderíamos enxergar uma consequência do sentimento de culpa que o homem moderno contraiu, durável, diante do fato de que já não cumpre seu dever. Como teria dito Carlyle – “um eco tardio do cristianismo.” Os nossos instintos são mais tenazes e sobrevivem mais do que nossas idéias. A idéia de dever cristão morreu. O instinto de que deves cumprir teu dever cristão ainda sobrevive. Mas como? Não visivelmente, não aceito, mas escondido, agindo sem que a luz da consciência o identifique como tal. Outrora, o homem sabia o que tinha de fazer e sua satisfação vinha do sentimento de que cumpriu seu dever. Hoje, ele já não cumpre de maneira nenhuma o velho dever. E acontecem duas coisas: (a) no nível da consciência (idéias), tem impressão de que se libertou e que somente agora sua vida é livre e frutífera; mas, de um modo estranho, esta satisfação é antes uma exaltação maníaco-depressiva, não um sentimento durável; (b) no nível do subconsciente (os instintos), tem o sentimento de que não tem obrigação, o que lhe dá uma profunda insatisfação latente, sem objeto e difusa; de modo global, o homem moderno tem entusiasmos e exaltações, articulados num fundo [95] silencioso de insatisfação.”

[Omul recente, o critică a modernităţi din perspectiva întrebării: “Ce se perde atunci când ceva se castiga, ediţia V-a, Humanitas, 2008]: O Homem Recente, uma crítica da modernidade sob a perspectiva da pergunta: “O que se perde quando se ganha algo? ” 5.ª edição, tradução inédita minha, em fase de revisão.

* Olavo de Carvalho, introdução, edição, notas e comentários às Seis doenças do espírito contemporâneo, de Constantin Noica, traduzido por Fernando Klabin e Elena Sburlea, Record, 1999, pp. 17 e 19.

Nota 147: Bernanos: “La chrétienté a fait l’ Europe. La chrétienté est morte. L ‘ Europe va crever, quoi de plus simple?” “O cristianismo fez a Europa. O cristianismo morreu. A Europa morrerá, o que há de mais simples?”

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