20/03/2017

Nada alegra e exalta o brasileiro como ostentar uma bela pose de dignidade , especialmente se ofendida. Neguim sobe nas tamancas, estufa o peito, emposta a voz, colhe um bom vocabulário nos acórdãos de algum tribunal e sai por aí exibindo, para deleite geral da espécie humana, uma superioridade moral tão sublime que chega mesmo a ser do caralho.

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A maior prova de mentalidade mesquinha é a pressa em sentir-se ofendido.

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Sugestão para quem não tem muito espaço em casa: cachorro bonzai.

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Uma vez uma namorada da qual eu nem gostava muito começou a se esfregar num sujeito numa festa. Senti que era um bom momento para me livrar da mardita, mas pensei: “Caralho, agora vou ter de fazer uma cena de ciúmes para não saírem dizendo que sou corno manso.” E fui lá dar umas porradas no cidadão, a coisa mais divertida do mundo.

Gustavo Almeida Conseguiu dar umas porradas ou apanhou?
Olavo de Carvalho Só apanhei uma vez na vida, e não foi essa.

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Bons tempos aqueles em que uma ofensa resultava no desafio para um duelo. Essas briguinhas de hoje são uma nojeira, uma irresponsabilidade pueril. Quando alguém puxa briga comigo, sempre penso: “Eu mataria esse sujeito, se as coisas chegassem a esse ponto?” Se a resposta é “Não”, nem começo a briga. Briga sem morte — ao menos sem a possibilidade da morte — é frescura.

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Espero jamais fazer pose de dignidade ofendida. Para quê isso, se qualquer pretensão de ofensa pode ser neutralizada na hora mediante uma piada mortífera?

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A introdução de Pierre Boutang à sua tradução do “Banquete” de Platão não é uma introdução: porque para compreendê-la você tem de já ter lido o diálogo, aliás o Platão quase inteiro. Monsieur Joudain às avessas, Boutang parece estar fazendo prosa quando faz mesmo é poesia. Uma poesia hermética composta com imagens de milênios de cultura e História, como a de Ezra Pound ou a do nosso magnífico Gerardo Mello Mourão.

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Quando penso, com saudades, em Gerardo Mello Mourão, já octogenário quando me foi apresentado pelo Paulo Mercadante, sempre me lembro do que dele disse, com justiça, o Ezra Pound: “Esse foi o sujeito que fez aquilo que eu queria fazer.”

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Juro: a coisa mais engraçada do mundo são as caretas de pânico do Isaac.

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Gerardo teve um destino dos mais singulares: perseguido pela ditadura Vargas como agente nazista e perseguido pela ditadura militar como agente comunista, sem nunca ter sido nazista nem comunista, apenas um gênio e um incomparável esquisitão.

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Outro esquisitão admirável foi o Vamireh Chacon, que por sua vez me apresentou o Paulo Mercadante. Tudo o que ele dizia era interessantíssimo, com um detalhe: ele não sabia que raio de coisa podia ser “parar de falar”.

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O Roberto Campos era o oposto: ouvinte atentíssimo e humilde, um perfeito cavalheiro em toda a extensão do termo.
Tenho saudade de todos esses velhinhos geniais que conheci no Rio — os últimos exemplares de uma espécie agora extinta.

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Quando estava escrevendo as orelhas para um livro do Mário Vieira de Mello, me ocorreu, de repente, a temível realidade: Os últimos escritores brasileiros eram todos octogenários. Que seria de mim na geração seguinte, condenado a realizar a profecia contida no meu nome, que quer dizer “sobrevivente”?
Hoje em dia, ser “escritor” é publicar livros. Naquele tempo era escrevê-los.

O Rodrigo Gurgel, doze anos mais novo, já não é da minha geração.

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