6/3/2017

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Minha paixão pelas armas antigas já virou mania de véio maluco. Quero saber tudo delas, cada detalhe técnico, o uso que tiveram e os efeitos históricos da sua utilização. Digo antigas, mas não tão antigas. Até o advento do revólver de tambor, o “six gun”, era tudo uma chatice, pois os progressos eram muito lentos. Só depois disso veio a era dos grandes engenheiros, Samuel Colt, Horace Smith e Daniel Wesson, John Browning, Ferdinand Mannlicher, Leon Nagant, Paul Mauser, Mikhail Kalashnikov, John Garand, Roy Weatherby e tantos outros. Essa história apaixonante, para mim, acaba por volta dos anos 80, não porque tenha parado de haver progressos, mas por falta de estética. Daí por diante as armas começaram a se parecer cada vez mais com britadeiras, brocas de dentista e muletas eletrônicas de extraterrestres.

Nando Castro Professor, desculpe o desvio do assunto, mas há algum livro que o senhor recomende que fala sobre as presepadas de Hélder Câmara e a contribuição dele para o comunismo e a teologia da libertação?
Olavo de Carvalho Não, mas as crônicas do Nelson Rodrigues dizem muito a respeito.

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Assim como os carros se parecem cada vez menos com carros e mais com discos voadores, dildos ou barbeadores elétricos, os rifles se parecem cada vez menos com rifles e mais com pistolas de raios cósmicos.

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A arma do caçador deve fazê-lo sentir-se um modesto caçador, não um serial killer ou um sniper no Vietnam.
O desenho industrial é um dos PRINCIPAIS instrumentos da engenharia social. Mudar a face das coisas muda a cabeça das pessoas. Os carros da década de 50 faziam o motorista sentir-se livre e poderoso. Hoje você se senta ao volante e se transfigura imediatamente em feto no ventre da mamãe.

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Rifles modernos parecem metralhadoras, armas de combate. Usar uma coisa dessas para atirar num urso é coisa de maluco.

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Quando o desenho de uma arma tenta fazê-la parecer muito complexa e impressionante, ela vai tomando cada vez mais o jeitão de arma extraplanetária de brinquedo.

Antunes Fernandes Dê o exemplo de uma assim, professor.
Olavo de Carvalho Não coloco mais fotos de armas porque o Fuckerberger me bloqueia.

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Tal como o cinema, a literatura e o fisiculturismo, o desenho das armas chegou à perfeição estética nos anos 50. Depois veio a era do exagero caricatural.

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O homem forte dos anos 50 parecia um homem forte. O de hoje parece um bicho esfolado.

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Comparem:

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É incrível como as pessoas não percebem a influência com que as formas estéticas impostas pela indústria e pela mídia moldam a sua cabeça. É incrível como aceitam TUDO com a naturalidade sonsa de um himen complacente.

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É incrível como as pessoas não percebem a influência com que as formas estéticas impostas pela indústria e pela mídia moldam a sua cabeça. É incrível como aceitam TUDO com a naturalidade sonsa de um himen complacente.

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A total falta de personalidade, a adaptabilidade dócil e dúctil é a característica fundamental do bom cidadão hoje em dia. Quando ele se rebela contra uma coisinha, é porque já aceitou noventa e nove outras sem nem perceber.

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Da sociedade moderna, não aceito NENHUMA novidade antes de entender muito bem os sacrifícios que ela pede ao meu senso de identidade e avaliar se serão prejudiciais ou não.

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As mudanças aceleradas, na tecnologia ou em tudo o mais, produzem um estado mental chamado “psicose informática”, cujo principal sintoma é a abdicação de todo discernimento, a aceitação passiva de qualquer ordem ou sugestão recebida.

Rubens Enderle Professor Olavo de Carvalho, mandei por email a primeira remessa da tradução do Balthasar.
 

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Se entendemos a “fé” no sentido de mera “crença”, admissão interior de veracidade, então a distinção, a fronteira entre “fé” e “obras” é nítida e inquestionável: Crer e passar à ação em razão do que se crê são momentos distintos, lógica e até cronologicamente. Mas, se entendemos a fé como CONFIANÇA NUMA PESSOA REAL, a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, então tudo muda de figura. Pois confiar em Nosso Senhor é entregar a Ele a condução da nossa vida, é permitir que Ele nos modele e guie pela ação do Espírito Santo. E que há Ele de modelar em nós? Nossas idéias e crenças apenas? Ou, ao contrário, a substância da nossa existência no tempo, o nosso próprio ser? Evidentemente esta última hipótese é a verdadeira. Mas, neste caso, o puro e simples “crer” já não é só uma idéia, é ele próprio uma ação no tempo, uma “obra”. E as demais “obras”, em vez de ser a simples “prática” de uma idéia previamente admitida, são o próprio tecido temporal da história da nossa alma. Nesse sentido, jamais haverá uma questão tão artificial e desnecessária quanto a da salvação “pela fé” e “pelas obras”. Essa questão só existe para pessoas que raciocinam pelo sentido dicionarizado das palavras, sem intuição direta das realidades que lhes correspondem na experiência efetiva.

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“A fé sem as obras é morta” não quer dizer apenas que a fé sem obras é uma fé diminuída, incapaz de salvar. Quer dizer que ela NÃO OPERA como verdadeira fé, que é mera crença ou idéia e não fé, isto é, que ela não existe de maneira alguma. Se a fé mesma já não é em si um agir, um trabalho, uma OBRA no interior da alma, ela não existe exceto como hipótese.

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Nas três tentações de Jesus Cristo no deserto, que é que o Diabo Lhe oferece? Oferece POSSIBILIDADES, que, consideradas em si mesmas, abstratamente, são perfeitamente realizáveis. Jesus não nega que elas o sejam. Ele as contrasta com a Sua missão real e concreta neste mundo, perante a qual elas são caprichos arbitrários. Toda tentação é uma possibilidade abstrata, separada da situação concreta, e imantada de um atrativo hipnótico. O mero raciocínio abstrativo nada pode contra ela; é, ao contrário, um suporte da sua realização.
Por isso uma filosofia “para quem gosta de argumentos abstratos”, como a propõe Sir Michael Dummet, é uma filosofia demoníaca, mesmo quando repleta de argumentos cristãos.
O pensamento é criação humana, que só vale quando se submete à criação divina, à realidade enquanto tal, considerada em todo o peso da sua concretude simultânea e sucessiva.
Só é verdadeiro o pensamento PESADO, que arrasta consigo a gravidade da existência.

Célio Rodrigues O que seria o pensamento PESADO?
Olavo de Carvalho Pensar com coisas e não com palavras.

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Daniel 5.27 : “Pesado foste na balança, e foste achado insuficiente”.

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Se a fé fosse uma “coisa” estática, e não um agir, uma elaboração, um esforço, um trabalho, uma obra, para quê precisaríamos implorar repetidamente que Deus a aumente?

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Essas considerações que publico aqui não são teologia, são capítulos da história da minha pobre alma.

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Não sou padre, nem teólogo, nem pregador. Sou um ESCRITOR. Não faço teologia nem apologética. Apenas examino a minha própria experiência até conseguir DIZÊ-LA.

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Nunca, nunca raciocino a partir da Bíblia ou da Doutrina da Igreja. Observo com atenção o que se passa, digo-o para mim mesmo da melhor maneira que posso, e só então vou à Bíblia e à Doutrina para ver se entendi as coisas direito.

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Digo que a fé é abrir-nos a Jesus para que Ele modele a nossa alma pela ação do Espírito porque isso corresponde à minha experiência, conferida com a Bíblia e a Doutrina. Foi por isso que inventei a prece que rezo todos os dias: “Eu não sei o que é ser bom, mas o Senhor sabe. Por isso, faça com que eu seja bom sem saber, porque, se souber, vou querer dar palpite no assunto e posso estragar a coisa toda. Amém.”

Rafaella Gappo 👏👏👏👏 hahahahahaha
Olavo de Carvalho Rafaella Gappo Se você riu da minha oração, você a entendeu. A situação que ela descreve é real, mas é engraçada mesmo

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Sherlock Holmes (aliás, o pai dele) ensinava: “Afaste o impossível. Do que sobrar, algo será verdadeiro.”
Agora pergunte: É possível, é simplesmente concebível que a fé seja uma coisa pronta e não uma ação interior, ou melhor, uma sucessão de ações, a substância da VIDA cristã?

Alexandre Augusto Peres A Fé, enquanto virtude, é recebida de Deus e vem pronta. Mas o meu crescimento na virtude é uma ação interior, é uma sucessão de ações e a substância da VIDA cristã.
Olavo de Carvalho Você não parece ter entendido bem o que quer dizer a palavra “virtude”. Virtude, do lat. “virtus”, quer dizer uma força, uma potência, uma possibilidade de ação. Não é uma coisa pronta. A virtude se distingue do “crescimento na virtude” exatamente como a potência se distingue do ato.

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“Timor Domini principium sapientiae.” O temor a Deus é o princípio da sabedoria. Mas todos os demais temores que experimentamos são temores superficiais de ameaças passageiras e relativas. Não passam de símbolos e camuflagens do único temor profundo, que é o temor da morte eterna. O temor a Deus está no fundo da alma de todos os seres humanos, só que alguns o percebem como tal, outros não.

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