Paralaxe Cognitiva

Surgiu em um grupo privado uma pergunta sobre a diferença entre o conceito de “Paralaxe Cognitiva” do Professor Olavo de Carvalho e de “Contradição Performativa” do Jürgen Habermas. Como o assunto pode interessar aos meus colegas do COF e aos leitores do Olavo, publicarei aqui minha resposta:

«Não há como confundir as duas coisas. Mesmo aquelas análises rasteiras que tomam por base o significado dicionarístico dos termos já dariam conta de distinguir os dois conceitos.

A palavra “performativo” que serve de qualificativo no conceito de “Contradição Performativa” se refere aos pressupostos comunicativos imprescindíveis a todo ato discursivo. Isso já dá uma pista de que a “contradição performativa” nada mais é do que uma contradição formal entre o conteúdo proposicional do discurso (o “que” é dito) e o ato ilocucionário (o “como” é dito). É uma contradição que se revela atomisticamente APENAS no ato do discurso. Quem é capaz de entender isso e tem alguma cultura filosófica também é capaz de entender que a contradição performativa é um conceito bem restrito e que só faz sentido dentro da filosofia analítica (e de seus derivados), lidando apenas com o discurso lógico.

A “Paralaxe Cognitiva”, por outro lado, é o deslocamento entre um sistema filosófico e a experiência real do filósofo. Não se trata de uma mera contradição lógico-discursiva, mas sim de um “fechamento” para a realidade, de uma negação da experiência concreta em nome de uma construção mental. A “paralaxe cognitiva” não se revela no ato ilocucionário e nada tem a ver com o elemento performático do discurso, pois, diferentemente da “contradição performativa”, ela pressupõe uma epistemologia (como a do intuicionismo radical do Olavo) capaz de ir além da linguagem e dos fenômenos (no sentido kantiano) e acessar a essência das coisas, a realidade mesma.

Maquiavel, por exemplo, não cometeu nenhuma “contradição performativa” n’O Príncipe, já que não apresentou nenhuma afirmação que pode ser desmentida pelo simples ato performativo de afirmá-la, mas sua elaboração teórica da estratégia de tomada e manutenção do poder é um caso clássico de “paralaxe cognitiva”, já que se fosse posta em prática teria como uma de suas primeiras consequências o assassinato do próprio Maquiavel (que desejava, ele próprio, aumentar seu quociente de poder e de influência, o que tem como primeiro pressuposto não morrer).

Em suma, uma coisa não tem nada a ver com a outra.»

*

Olavo de Carvalho Filipe G. Martins Explicação perfeita. Uma só paralaxe cognitiva pode gerar uma montanha de contradições performativas.

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Olavo de Carvalho P. S. – Investigar contradições performativas pode ser uma boa pista para diagnosticar uma paralaxe cognitiva, embora esta possa também existir sem elas.

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