Filipe G. Martins

OLAVO DE CARVALHO, O HÁPAX LEGÓMENON BRASILEIRO

Por ter vivido parte da minha adolescência na África, sempre fui fascinado por dialetos obscuros. Esse fascínio eventualmente se converteu em um interesse genuíno pela linguística e por tudo o que diz respeito à linguagem, o que, apesar de nunca ter me ajudado a alcançar um domínio razoável do assunto, me apresentou uma porção de idéias e insights que lançam luz não apenas sobre nossos sistemas de comunicação como também sobre a vida de modo mais amplo e geral.

Ao ler a matéria escrita pelo tal do Tiago Dias sobre O Jardim das Aflições para o UOL, lembrei-me de uma entrevista sobre Chinês Arcaico que li muitos anos atrás. Nela, um especialista explicava que textos antigos frequentemente trazem ideogramas ou palavras que aparecem uma única vez na literatura de um determinado idioma. Se me lembro bem, o termo técnico para designar essas palavras singulares é hápax legómenon. Em razão de sua condição especial não é possível saber com precisão o verdadeiro significado de um hápax; e, ao se deparar com uma dessas palavras, tudo o que um estudioso pode fazer é tentar atribuir a ela um significado, mais ou menos correto, à luz de seu contexto. Digamos que um texto apresente a frase “A fúria dos soldados era similar a de milhões de X”; diante dela, um tradutor poderá supor que X significa “cavalos”, outro poderá supor que X significa “raios”, e outro ainda poderá supor que significa meramente “homens” — mas a verdade é que nunca saberemos com certeza o que X significa, pois ele é único, é um hápax legómenon, e como tal estará sempre revestido de um certo mistério.

Isso me veio à memória, eu dizia, após ler a matéria escrita para o UOL sobre o longa do Josias Teófilo a respeito do Professor Olavo de Carvalho, e a razão disso é que a tentativa sofrível e canalha de tentar classificar o Olavo como “guru conservador”, “professor de neoconservadorismo” e outras bobagens do tipo me convenceram, para além de qualquer dúvida, que um homem também pode ser um hápax legómenon — um personagem tão singular no contexto cultural em que está inserido que acaba por se tornar indecifrável para seus pares, perturbando a comodidade das nossas taxonomias preguiçosas e da categorização fácil. É o caso do nosso Professor.

Tornei-me leitor do Olavo em 2005 e desde então tenho visto milhares de tentativas de inseri-lo em alguma categoria extravagante. Todas em vão. Vocês devem ter visto algumas: modernista; sedevacantista; neoconservador; liberal; sionista; anti-semita; muçulmano; islamofóbico; ideólogo da direita; esquerdista infiltrado… A lista não tem fim.

Basta pensar nos Irmãos Velascos e nos pobres diabos que os cercam para lembrar da quantidade, quase infinita, de lendas urbanas que circulam a respeito do homem. Isso é inevitável em um meio social intoxicado pela ideologia, pela pobreza imaginativa, pela malícia e pela confusão mental. Afinal, quem é que, estando contaminado pela ideologia, é capaz de compreender um homem que deseja não apenas restaurar a síntese cultural clássica como educar todos os interessados numa disciplina que tem por fim, não a tomada do poder ou a aquisição de bens materiais, mas a união do saber e do ser, a revitalização da vida interior de sua pátria, e a ordenação e integração da personalidade dos seus alunos?

Perdidos em meio à confusão mental reinante e incapazes de compreender a natureza e o escopo dessas atividades, figuras de diversos quadrantes ideológicos acabam optando por projetar sobre ele a imagem caricatural que pareça mais conveniente ao seu grupo de referências — tomando-o, a depender das circunstâncias, como aliado ou como inimigo mortal. Parafraseando Chesterton, o Olavo é atacado de todos os lados e pelas razões mais contraditórias.

Some a isso o fato de que nem mesmo os seus alunos possuem, ainda, o horizonte de consciência e a destreza filosófica necessários para apreender sua obra em um conjunto, e a conclusão se torna inevitável: O Olavo é um hápax legómenon, uma figura singular, que ainda não foi completamente compreendida nem mesmo por aqueles que se dedicam a estudar sua obra. E isso, meus amigos, faz do Jardim das Aflições um filme terrivelmente necessário.

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